quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Ateísmo, fé e racionalidade

Os ateus estão cansados de ser vítimas do preconceito dos religiosos, garantem os membros da ATEA, uma associação de ateus que ganhou a atenção da imprensa nestes últimos dias. Por conta disso, resolveram promover uma campanha nos ônibus de grandes cidades brasileiras, para mostrar o quão razoável é a cogitação de que não há Deus. A ideia é importada da Europa, como se sabe, e não tem nada de novo.

No Brasil, porém, as empresas de ônibus resistiram inicialmente à divulgação, justamente porque entenderam que o conteúdo da propaganda era preconceituoso. Ao invés de promoverem o ateísmo, as imagens, os dizeres, o tom e tudo o mais da publicidade da ATEA, revelam uma preocupação muito maior em depreciar a fé. Como foi possível constatar nas reportagens publicadas pela mídia, a campanha é extremamente agressiva. Genocidas supostamente crentes são contrastados com ateus charmosos da classe artística; a fé religiosa não oferece respostas e impede perguntas; o ateísmo é o estimulador de toda pesquisa científica, e por aí vai.

Qual a razão desse conflito? Se Deus não existe por que os ateus gastam tanta energia conosco, os crentes?

Tenho observado que não é qualquer tipo de fé que incomoda os ateus. No debate que travou com o então Cardeal Ratzinger, em 2000, o pensador Paolo Flores D’Arcais entregou o jogo. Nesse evento D’Arcais sustentou que é perfeitamente possível uma convivência pacífica da fé religiosa com o ateísmo, desde que os crentes reconheçam que suas crenças não guardam qualquer relação com a racionalidade. Desde que assumamos a posição historicamente atribuída a Tertuliano, “credo quia absurdum”, os ateus nos terão como inofensivos. O perigo, diz D’Arcais, é querer sustentar que a fé é racional. Isso nos torna perigosos, pois poderíamos ter a pretensão de intervir na realidade a partir das pressuposições que formam nossas crenças, o que poderia implicar uma perturbação para um espaço que deve ser governado exclusivamente pela ciência. Crentes que conferem relação de sua fé com a realidade material incomodam, pois pretendem conformar a realidade com seus valores.

A racionalidade estaria exclusivamente na ciência. É um arranjo ruim para nós, pois a ciência fica com a realidade e nós com o resto (a frase é do matemático de Oxford, o cristão John Lennox e foi usada num debate com Richard Dawkins, que pode ser visto no
Youtube, com legendas em português).

A tradição cristã não tem nada a ver com esse arranjo. Cabe lembrar que racional é o raciocínio que encontra fundamento na realidade. Na verdade, temos com o ateísmo uma profunda divergência em relação à natureza da realidade. Em que consiste a realidade? Os ateus são naturalistas, materialistas, e sustentam que a natureza é tudo o que existe. Nós afirmamos que há uma realidade sobrenatural, além desta. Francis Schaeffer usa a sugestiva imagem de uma laranja com duas metades. O naturalista vê apenas uma metade da laranja e ignora a existência da outra. Nós vemos a laranja inteira e, se estamos certos, a fé é a verdadeira racionalidade.

Os naturalistas, porém, contrapõem fé e razão e nos colocam diante de uma armadilha e devemos estar conscientes disto. O argumento principal é que não há como se demonstrar que Deus está na realidade. Devemos estar atentos para essa argumentação. É que para um naturalista, uma demonstração racional deve ser científica. A ciência, como se sabe, procura explicar os fenômenos existentes com base em causas exclusivamente naturais. A ciência, enfim, é um método de investigação da natureza. Se Deus está fora da natureza, obviamente Deus não pode ser explicado pela ciência. Isso não prova que a fé em Deus é irracional, mas apenas afirma os limites da ciência.

Nós temos de permanecer firmes na posição cristã acerca desse ponto e perceber que este é o centro da controvérsia. A tradição judaico-cristã expressada no Salmo 19, no primeiro capítulo de Romanos, nas provas de Tomaz de Aquino etc, etc, afirma ousadamente que a realidade visível é expressão de uma vontade invisível, de uma inteligência que não pode ser vista, mas pode ser detectada nas coisas que se veem. O naturalismo, procura desqualificar essa posição, mas não pode fazê-lo sem cair em contradição, já que deve demonstrar que a natureza produziu a si mesma. E aí é obrigada a enfrentar a velha questão filosófica: por que existe algo, em vez do nada?

A natureza não é tudo o que existe. Como percebeu o centurião romano de Cafarnaum – aquele que deixou Jesus maravilhado -, a natureza está sujeita à autoridade, ela tem Senhor. Ela obedece a comandos do tipo cala-te; emudece, porque está sujeita ao seu Criador. Por essa mesma razão, não entendo a dificuldade lógica que os ateus levantam em relação à ocorrência dos milagres, como se a fé em evento desse tipo fosse completamente irracional. A questão não é se os milagres acontecem. A questão é se Deus existe. Porque se Deus é o Criador da natureza, ela é seu soldado, obedece às suas ordens, e lhe bate continência.
 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O Deus Que Queria Ser Homem

Carlos Moreira1


Há homens que querem ser Rei; sobrepujar-se, engrandecer-se, ter poder e riquezas. Eles possuem esse desejo incontido de chegar ao topo, de ir além das fronteiras, acima do último limite. Desejam ser servidos, reconhecidos, ser, inclusive, reverenciados. Um Rei pode fazer qualquer coisa! Ele não precisa perguntar nada a ninguém. É ele quem manda e, no final das contas, quem decide. Um Rei senta-se no trono, coloca sobre a cabeça sua coroa, na mão um cetro de ouro e no dedo o anel de majestade.
 
Há homens que querem ser Deus. Para estes, ser Rei não é o bastante, é preciso ir além, na direção do inalcançável, quem sabe, transcender! Isto foi muito comum na história dos povos, onde a deificação de homens comuns os transformou em deuses. Assim foi entre os egípcios, com seus Faraós, entre os gregos, com seus deuses do Olimpo e também entre os romanos, com seus Césars. Entre os Hebreus, conforme o relato da Torre de Babel, vemos homens comuns que alimentaram o desejo de chegar aos céus, ultrapassar a última fronteira, ser como Deus.
 
A verdade é que há no espírito humano este desejo de tornar-se divindade, de não ser contido por qualquer limite, de inventar, moldar coisas novas. Criamos a imprensa, o telefone, a energia, máquinas das mais diversas, carros, navios e, por fim, quisemos voar. Em pouco tempo, o globo tornou-se pequeno, com aviões indo e vindo de um lado para o outro. Aí pensamos: “por que não sair dele?”. Então, fomos à Lua! Hoje, nossos foguetes vão ainda mais longe. Um dia, quem sabe, poderemos viajar por todo o universo.
 
Mas não ficamos por aí. Manipulando a natureza criamos combustíveis, aproveitamos o ar, o sol e o curso dos rios para produzir energia, extraímos das plantas medicamentos e desenvolvemos a tal nível a medicina que já podemos curar doenças e transplantar órgãos. Desenvolvemos os computadores, inventamos o celular, criamos satélites, estamos desvendando os segredos do DNA e avançamos no mapeamento do Genoma. Fosse tudo isto pouco, agora queremos clonar a nós mesmos! O homem criando o homem e dando-lhe vida. Chegamos a ser como Deus?
 
"Todo homem quer ser rei; todo rei quer ser deus; mas só Deus quis ser homem”. Galilleu Gallilei. Frase intrigante... Mas Deus não quis só ser homem, quis ser homem comum, sem beleza, sem realeza, homem de carne e osso, com sangue e suor. Questiono-me: por que Ele fez isto? Para que? Se já era Deus, por que tornar-se homem? Já não tinha tudo! Faltava-lhe algo? Onipotente, onipresente, onisciente! Por que Deus quis ser homem?
 
Eu lhes digo, utilizando Isaías capítulo 9 que, em primeiro lugar, Deus quis ser homem para poder identificar-se comigo e com você. “povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte resplandeceu-lhes a luz”. v.2.
 
O Deus que encarna é o Filho. Ele veio para mostrar-nos como é o Pai. Havia entre nós profunda separação, enorme abismo, mas Ele, por Sua morte e ressurreição, pacificou nossos corações e nos abriu um caminho para nos reconciliar com o Criador.
 
Deus quis ser homem para experimentar nossas dores, limitações, medos, contradições, angústias e dilemas. Esvaziou-se a Si mesmo, perdeu Sua divindade, sofreu como homem, morreu como Deus! Era desprezado e dEle fizeram caso. Foi ultrajado, amaldiçoado, caluniado, incompreendido. Sua existência foi dedicada a compadecer-se dos caídos, salvar os oprimidos, libertar os cativos, “apregoar o ano aceitável do Senhor”. Não sei você, mas eu jamais poderia acreditar num Deus que não sangra... O meu, sangrou até a morte, e morte de cruz. 
 
Em segundo lugar, Deus quis ser homem para que fosse possível realizar-se o Plano da Salvação. “porque um menino nos nasceu, um filho se nos deus; o governo está sob os seus ombros e o seu nome será: maravilhoso, conselheiro, Deus forte, pai da eternidade, príncipe da paz”. v.6.
 
Há algo extraordinário no Plano da Salvação: “o Cordeiro foi sacrificado antes da criação do mundo”. A salvação não é um remendo que Deus fez para recuperar as rédeas do jogo, para colocar o homem de volta no trilho original. Não! O Plano de Salvação não foi uma estratégia corretiva traçada por um ser absorto que, despercebido de sua criação, foi surpreendido pela sua queda. Nunca! O Filho sacrificou-se na “eternidade anterior’, antes de haver mundo e homens sobre a Terra e, só depois disto, Deus o criou, homem livre, leve, solto. Deu-Lhe ainda o poder de fazer suas próprias escolhas, mesmo que elas fossem às piores possíveis.   
 
Mas, no “tempo oportuno”, no momento em que houve a convergência do propósito eterno, Deus encarnou e materializou-se historicamente na figura de Jesus de Nazaré para cumprir o que, antes de todas as coisas já havia sido feito, o sacrifício pelo pecado. A cruz não foi apenas fincada em Jerusalém, na Palestina, mas continua fincada na eternidade, no cosmos, e, por meio dela, reconcilia-se com Deus toda criatura vivente em todos os universos possíveis. “O castigo que nos trás a paz estava sobre Ele e por suas pisaduras fomos sarados”. O grito que ecoou na crucificação, ainda ecoa hoje, em todo o coração que se rende a graça de Deus: “Tetelestai” – Está pago! Está consumado!
 
Em terceiro e último lugar, Deus quis ser homem para que o homem acreditasse que Ele é Deus. “... o zêlo do Senhor dos exércitos fará isto”. v.7. Disse Jesus: “ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”. Tudo começou com amor, e tudo terminará com o amor. Deus é amor! Aquele que ama discerne a Deus, é nascido de Deus, Deus está nele e ele está em Deus.
 
Reconheço que na humanidade tivemos muitos homens sábios, que se sobrepujaram em sua espiritualidade, que se doaram em prol da humanidade, que fizeram sacrifícios extremos e foram exemplo de vida e de perseverança. Mas, tenho também de admitir, ainda que devotando-lhes respeito e admiração, que nenhum deles é o Filho unigênito de Deus! Nenhum deles veio dos Céus a Terra! Nenhum deles encarnou, sendo antes de todas as coisas, Deus! Nenhum disse que era um com o Pai, nem afirmou ser o caminho, a verdade e a vida! Nenhum deles ressuscitou dentre os mortos, e sentou-se a destra de Deus, donde há de vir a julgar vivos e mortos! Nenhum tem poder para perdoar pecados e salvar o pecador. Estou convencido, só mesmo Deus para querer ser homem...
 
Eu quero lhe desejar um Feliz Natal! Um Natal que te projete para além do Papai Noel, da árvore enfeitada, dos presentes e do peru. Um Natal com consciência, com entendimento e que, sobretudo, produza desdobramentos em sua vida e na vida de todos que te cercam. Eu quero lhe desejar Feliz Natal porque Jesus quis estar entre nós, identificar-se conosco. Quero lhe desejar Feliz Natal porque o nosso Senhor nasceu em Belém, não como Rei, mas como servo, não no palácio, mas na manjedoura. Ele não tinha anel no dedo, mas tinha autoridade nas mãos, não tinha um cetro de ouro, mas um cajado para nos trazer paz, saúde e bem.
 
Eu quero lhe desejar Feliz Natal porque tenho a convicção de que você, mais do que nunca, compreende que toda festa só faz sentido porque houve cruz, que toda alegria só tem significado porque houve morte, que a vida de todos nós está compreendida entre a manjedoura e o Gólgota, pois todo presente recebido é nada junto do que o Pai nos enviou, e, porque Ele vive, podemos crer no amanhã... Feliz Natal!

Fonte: http://www.genizahvirtual.com/2010/12/o-deus-que-queria-ser-homem.html 

1 Carlos Moreira é culpado por tudo o que escreve. Julgado, tornou-se réu do Genizah. Outros textos seus podem ser lidos em A Nova Cristandade.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Ainda Quero Ser Evangélico…

Pr. Magdiel G. Anselmo1
“Ora, nós que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar a nós mesmos. Portanto, cada um de nós agrade ao próximo no que é bom para a edificação. Porque Cristo não se agradou a si mesmo, antes, esta escrito: As injúrias dos que te ultrajavam caíram sobre mim. Pois tudo que outrora foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança. Ora, o Deus da paciência e da consolação vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, para que concordemente e a uma voz glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo nos acolheu para a glória de Deus.” [Romanos 15: 1-7]
De uns tempos pra cá, ser evangélico tornou-se sinal de status. Muitas pessoas se dizem evangélicas e pertencerem a uma igreja evangélica sem, contudo, ter uma vida coerente com esse título. Houve uma banalização do nome evangélico e até das próprias denominações evangélicas históricas existentes.

A busca por uma nova forma e filosofia de vida que caracteriza o indivíduo inconstante e confuso dessa sociedade pós-moderna trouxe ao meio evangélico muitos que equivocadamente pensavam que ser um evangélico era simplesmente adquirir o título e ostentá-lo como fazem tantos nas religiões diversas existentes. Artistas, desportistas, celebridades, filósofos de ocasião, teólogos ímpios e até políticos se tornaram “evangélicos” e alguns, depois de um tempo, desistiram. Mas, alguns permaneceram sendo assim chamados, para desapontamento da Igreja.

Favorecendo esta atitude, o assombroso crescimento das igrejas neo-pentecostais trouxe uma multidão de pessoas “convertidas” que freqüentavam templos ditos “evangélicos” por todo nosso país.

Alguns destes pseudo-conversos conseguiram até alcançar o título de ministros, de pastores, bispos, apóstolos e formaram discípulos. E com o carisma característico do manipulador e a facilidade em convencer multidões, iludiram muitos com “teologias” sem sentido e com graves incoerências (até o aborto era apoiado) e inconsistências que pareciam admiráveis a primeira vista, mas que não suportavam uma confrontação séria com as doutrinas bíblicas fundamentais do Cristianismo.

Diante de tamanha falsidade e falta de seriedade com o verdadeiro Evangelho de Cristo, era natural que os verdadeiros evangélicos reagissem, tentando alertar as pessoas dessa insensatez e mentira.

Mas, qual não foi a surpresa.

Como é próprio dos imaturos e inconstantes espiritualmente (Romanos 15), muitos cristãos não perceberam a astúcia maligna dessa crescente onda de novos evangélicos e se juntaram a eles contra atacando aqueles que defendiam a verdadeira Igreja e o verdadeiro Evangelho. E mais, afirmavam que não eram imaturos. Os imaturos eram os seus opositores.

Os que mostravam incansavelmente e biblicamente os equívocos e erros doutrinários dos pseudoevangélicos eram tidos como “fariseus”, “religiosos”, “tradicionalistas”, “fundamentalistas” e alguns até os denominavam de “hiper-calvinistas”, como se o calvinismo tivesse alguma coisa a ver com essa questão. Calvino e Arminius tiveram seu tempo para argumentar, debater e servir a Deus. Os deixemos descansar em paz. Já temos nossos problemas, não acrescentemos os do passado.

A defesa da fé não é uma doutrina calvinista ou arminiana, é uma orientação bíblica (Judas 1). Interessante que os irmãos que deveriam estar cerrando fileiras contra os falsos ensinos e doutrinas de demônios acusavam os defensores da fé evangélica de se posicionarem em seus “pedestais de donos da verdade” e ainda de pronunciar vãos discursos fervorosos sobre questões teológicas. Demonstrando um total desconhecimento do que é teologia e para que ela serve.

Mesmo quando estes tais discursos e debates teológicos eram comprovadamente respaldados e fundamentados no texto bíblico, continuavam a negar estes princípios, justificando essa intransigência pelo uso do amor cristão e da evangelização. Como se o amor e evangelização legitimamente cristã fosse totalmente desvinculada do ensino bíblico. Como se o pecado pudesse habitar tranquilamente com a santidade. Como se o erro encontrasse apoio para sua preservação nas Escrituras. Como se a omissão em dizer a Verdade Bíblica fosse um comportamento digno de um cristão.

A omissão da verdade era quase que uma ordem. Confrontar o erro era desrespeitoso e aconselhavam (como se tivessem condições e base bíblica para isso) os fiéis a Palavra de Deus que tivessem cuidado com o que falavam ou escreviam. Tudo em prol de uma falsa e pretensa maturidade, unidade e comunhão.

Como os que defendiam uma postura bíblica diante do engano não se acovardassem com as provocações e os insultos, e de uma pressão e desconforto com a situação e por não possuírem argumentos bíblicos consistentes para defenderem suas atitudes e posicionamentos ao lado de opositores do Cristianismo, alguns movidos pela emoção, erradamente e precipitadamente resolveram abdicar do seu título de evangélico e decidiram que não queriam ser mais chamados assim. Desprezando a própria definição do termo “evangélico” (que significa seguidor do Evangelho de Cristo, das Boas Novas de Salvação), em tom de desabafo não o queriam mais associados a esse termo.

E com isso, os enganados e os enganadores passeavam no meio evangélico tendo o apoio de grupos de outras religiões frontalmente contrárias ao Cristianismo. Os que defendiam um evangelho antropocêntrico, o sincretismo religioso e o liberalismo teológico aplaudiam de pé. E o nome “evangélico” era a cada dia mais banalizado e motivo de chacota a ímpios escarnecedores.

Os que sempre defenderam a fidelidade às Escrituras e a sua correta interpretação e pregação ficavam perplexos com tamanha insanidade e desprovimento de conhecimento bíblico e conseqüentemente discernimento espiritual de irmãos que outrora estavam com eles.

Diante disso tudo, uma atitude iracunda, implacável e vingativa seria natural consequência de nossa parte. Porém, não somos assim. Nossa vida foi transformada. Somos nova criatura em Cristo Jesus. E, por isso, mesmo com toda a dureza dos corações daqueles que não se conformam com a orientação bíblica, conseguimos vislumbrar o mover e a presença de Deus nisso tudo.

Porque são nessas circusntâncias  e situações que aprendemos suportar provações e obter a aprovação de Deus. A separação daqueles que mesmo com dano próprio não se retratam por afirmar a verdade daqueles que não entendem inteiramente o que é seguir a Cristo e se juntam aos difamadores e inimigos da fé cristã têm suas vantagens. Faz com que nossa lista de oração cresça e nossa intercessão seja mais produtiva. Faz com que exercitemos nossa fé e paciência e nos apliquemos ainda mais no estudo profundo da Bíblia. Faz com que vigiemos ainda com mais diligência para também não errarmos. Faz com que amemos mais, pois alertar do erro um irmão é umas das maiores expressões de amor que existe. Quem não ama não se importa. Quem ama, por sua vez, se compromete e se envolve, mesmo que não seja compreendido e mesmo que seja ofendido.

Os que amam realmente, devem suportar estas atitudes imaturas e prosseguir em propagar o que é bom para edificação. Acolher com paciência aos irmãos confusos, na esperança que sejam iluminados para entender.

Os que realmente amam, devem comunicar e advertir insistente e firmemente a verdade bíblica, mas até o limite do bom senso. Não devem se envolver em discussões inúteis que só trazem discórdia e inimizades e não produzem edificação. Os realmente experimentados conseguem discernir isso com sabedoria vinda dos céus. Fazem a sua parte como bons atalaias e em Deus depositam toda a sua confiança e esperança. Suplicam a Deus que em Sua graça e misericórdia faça os discordantes entender e retornar ao bom caminho da verdade de Cristo. Não se omitem em falar a verdade, não se escondem, porém, nunca deixam de amar e de deixar sempre aberto o caminho da reconciliação e do perdão.

Saber que ainda existem cristãos que se importam com a sã doutrina e que batalham pela fé que foi entregue aos santos e que ao mesmo tempo conseguem amar sem ser amados são motivos de alegria e satisfação. Saber que ainda existem muitos que não se dobram a baal e que pelejam diariamente pela fé e amor evangélicos é motivador e incentivador.

Por isso, apesar de tudo, desejo sim ser chamado de evangélico. Desejo sim ter meu nome associado a este termo.

Desta forma, busco mostrar a diferença entre o falso e o verdadeiro. Entre o santo e o profano. Entre o vil e o precioso.

Sou falho, claro. Sou pecador, é óbvio. Mas luto diariamente contra o pecado. Desejo sempre ser melhor cristão do que fui ontem.

Estou aberto à santificação e sei que esse processo em mim é constante.

Amo a Igreja. Amo ao meu Deus.

Creio na Palavra de Deus. Creio que Ele está comigo.

Sou com muita alegria, evangélico, graças a Deus.

Fonte: http://igrejinha.org.br/blog/?p=5217

1 Pastor da Igreja Nova Aliança em Cristo. Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sudeste do Brasil e pela Universidade Presbiteriana de Guarulhos, é pós-graduado em Exegese e Interpretação bíblica e mestre em Educação Cristã pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. É ainda técnico em suporte na área de informática e professor de Teologia no Seminário Evangélico Nova Vida nas cadeiras de Hermenêutica e Educação Cristã.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Respostas àqueles que não gostam do Natal

Por Renato Vargens
 
natal 3Concordo plenamente com o meu amigo Ezequias Marins quando afirma que  muitos dos argumentos utilizados por  pastores e teólogos no combate ao Natal, se fundamentam num frio puritanismo (que procura ser mais rigoroso do que o mais rigoroso dos verdadeiros puritanos) ou num neo-pentecostalismo gedozista,  que defende o banimento das celebrações natalinas firmados no entendimento de que árvores de Natal, guirlandas, pisca-piscas, e demais enfeites são na verdade evocações de divindades pagãs.

Caro leitor, Celebrar o Natal é celebrar a encarnação.  Celebrar o Natal é entender que Deus soletrou à si mesmo numa linguagem que o ser humano possa entender”. É entender que por amor aos eleitos Ele se tornou um de nós.   “E o verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade” (João 1:14a).
 
Como bem afirmou o meu amigo Luiz Wesley Natal tem a ver com a própria personagem da auto-soletração de Deus a nós: Jesus Cristo (João 14:9). Ele é Deus com face humana tangível (II Coríntios 4:6), com jeito de falar — sem tradução e sem sotaque! — a língua da gente. É encarnação às últimas conseqüências (Filipenses 2:8), é identificação radical (Filipenses 2:6), é o Eu Sou que “colou”, que se aderiu à realidade humana (Filipenses 2:7). Encarnação é a maneira pela qual Deus dá um jeito de nascer na forma humana (João 1:14), numa verdadeira reentrada no mundo que já era Seu (João 1:11), mas sem se tornar ordinário (Isaías 53:9b, I Pedro 2:22).

Isto posto fico a pensar se Cristo não tivesse nascido, o que seria de nós? 

Há alguns anos foi publicado um curioso cartão de Natal, com os dizeres:

"Se Cristo não tivesse nascido."

Um pastor adormeceu em seu escritório numa manhã de Natal e sonhou com um mundo para o qual Jesus nunca tinha vindo. Em seu sonho, viu-se andando pela casa: mas lá não havia presentes, nem árvore de Natal, nem guirlandas enfeitadas; e não havia Cristo para confortar, alegrar e salvar.

Andou pelas ruas, mas não havia igrejas com suas torres agudas apontando para o Céu. Voltou para casa e sentou-se na biblioteca, mas todos os livros sobre o Salvador tinham desaparecido.

Alguém bateu-lhe à porta, e um mensageiro pediu-lhe que fosse visitar sua pobre mãe à morte. Ele apressou-se a acompanhar o filho choroso; chegou àquela casa e disse:  "Eu tenho aqui alguma coisa que a confortará". Abriu a Bíblia, procurando alguma promessa bem conhecida, mas viu que ela terminava em Malaquias. E não havia evangelho, nem promessa de esperança. E ele só pode abaixar a cabeça e chorar com a enferma, em angústia e desespero.

Não muito depois, estava ao lado de seu esquife, dirigindo o ofício fúnebre, mas não havia mensagem de consolação, nem palavra de ressurreição gloriosa, nem céu aberto; mas somente "cinza a cinza e pó ao pó" e um longo e eterno adeus.

O pastor percebeu, afinal, que "ELE não tinha vindo". E rompeu em lágrimas e amargo pranto, em seu triste sonho. De repente, acordou ao som de um acorde. E um grande brado de júbilo saiu-lhe dos lábios, ao ouvir, em sua igreja ao lado, o coro a cantar:
 
"Ó vinde, fiéis, triunfantes, alegres,
Sim, vinde a Belém, já movidos de amor.
Nasceu vosso Rei, o Cristo prometido!
Oh, vinde, adoremos ao nosso Senhor!"


Regozijemo-nos e alegremo-nos hoje, porque "ELE VEIO"! Aleluia!  Cristo é o motivo da nossa festa! Cristo é o motivo da nossa alegria! Cristo é o Sentido do Natal.

Pense nisso!

Renato Vargens

Fonte: http://renatovargens.blogspot.com/2010/12/respostas-aqueles-que-odeiam-o-natal.html

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Por que celebramos o Natal?

Jaime Kemp

Jesus

O nascimento de Jesus não foi um evento trivial da história. Foi a entrada triunfante de Deus, carne, osso, e sangue, na vivência de suas criaturas.

A celebração da vinda do nosso Senhor Jesus Cristo, há quase dois mil anos, tem sido tristemente transformada num truque para o enriquecimento do mundo dos negócios. O maravilhoso objetivo do Natal, suas implicações eternas, o mistério da encarnação, são ignorados.

O Natal, para a maioria das pessoas, nada mais é que um feriado pagão, dedicado a saciar os apetites carnais, desprovido de qualquer significado espiritual. E essa é a característica de uma geração falida tanto do ponto de vista moral quanto espiritual. O fato de não ter sido encontrado lugar para acolher Maria e Jesus na hospedaria em Belém é repetido a cada ano no mundo de hoje, tornando profética a fria acolhida ao menino-Deus.

Porém, seu nascimento em uma pequena estrebaria também profetizou as boas-vindas que milhões de pessoas lhe dispensaram e ainda hoje o fazem, com corações humildes, receptivos e gratos.

Naquele primeiro Natal não houve 'show', orquestra e nem fogos para apresentar o Salvador de nossas almas. Uma simples 'estrela guia', uns poucos magos, visionários e alguns pastores que receberam do céu o anúncio da chegada do Messias, estavam ali. Por certo, naquela noite houve outros que reconheceram o bebê como o redentor há muito prometido, assim como hoje há pessoas que compreendem o significado sobrenatural do Natal.

Imagine a complacência desdenhosa daqueles que haviam segurado sua reserva para aquela noite na lotada hospedaria! Todas suas necessidades e desejos foram satisfeitos mas, pobres ignorantes, desconheciam que o Criador do Universo repousava a poucos metros de onde estavam, dormindo incógnito da maioria, deitado numa despojada manjedoura. Eles estavam abrigados, alimentados e se entretiam enfastiados enquanto no campo, pastores ouviam hostes celestiais entoando louvores a Deus, alegrando-se com a chegada do Rei dos reis.

Não há qualquer complacência ou temor nesta sociedade sofisticada de final de século vinte. Jesus Cristo continua a revelar-Se aos pobres e humildes de coração, rejeitando os orgulhosos e arrogantes.

O real significado do Natal não pode ser entendido até que Jesus receba um lugar prioritário em nossos corações e em nossas vidas. Quando o mistério da vinda de Cristo a este mundo rompe a escuridão provocada pelo engano do inferno e se revela à alma humana, ela compreende que o Natal não é apenas um feriado, mas sim um dia sagrado.

O Natal não pode ser plenamente entendido se não for à luz de uma cruz erguida num calvário de sofrimento trinta e três anos depois ou na alegria imensurável e incontrolável dos discípulos à beira de um túmulo vazio, ou na visão destes apóstolos que tiveram o privilégio de assistir a gloriosa ascensão de Cristo.

Falando sobre este evento indescritivelmente fantástico, Paulo afirma: 'Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher ...' (Gl 4.4). Portanto, para aqueles que conhecem a Jesus Cristo pessoalmente, essa celebração traz grande e grata felicidade, enquanto que para outros, a única alegria é o êxtase de uma festa que termina em vinte e quatro horas.

Infelizmente, a igreja pode contribuir para distorcer o verdadeiro significado do Natal, aumentando a fome espiritual das pessoas que tateiam pela vida tentando fugir da escuridão na qual Satanás enclausurou seus corações.

Nestes nossos tempos incertos e inseguros, o futuro amedronta, pois a futilidade em que o mundo está mergulhado não proporciona qualquer esperança. É o momento para aqueles que carregam o nome de Jesus anunciarem o real significado do Natal para acordarem da inércia e improdutividade do pecado a tantos seres humanos que não sabem o que é realmente viver.

O nascimento de Jesus não foi um evento trivial da história. Foi a entrada triunfante de Deus, carne, osso e sangue, na vivência de suas criaturas -Emanuel (que significa Deus conosco). É por causa desta vinda divina ao mundo que o relacionamento do homem com Deus é restaurado.

É uma tragédia, o fato de milhões de pessoas comemorarem o nascimento do Filho de Deus, sem conhecerem o próprio Aniversariante!

Que oportunidade temos para testemunhar! Devemos aproveitar e falar do verdadeiro Natal através de uma palavra, de um sorriso amigável, de um ato de compaixão, de uma mão estendida, de um coração coberto de amor por alguém que esteja próximo a nós.

Neste Natal, não deixe de compartilhar a verdadeira razão de nossa Celebração!

Fonte: Revista Lar Cristão n°47
http://www.larcristao.com.br

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Cristãos que odeiam o Natal

Por Renato Vargens

Alguns pastores têm afirmado que o natal é uma festa pagã, e em virtude desta crença tem extrapolado o limite da autoridade cristã proibindo os membros de suas igrejas de celebrarem a data que lembra o nascimento de Cristo. Para estes, o simples fato de os cristãos armarem em suas casas uma árvore de natal, abre “legalidade” para a ação do diabo. Tais pastores , fundamentados numa espiritualidade despótica proíbem de púlpito a armação de árvores, as reuniões familiares do dia 24 de dezembro, além de qualquer confraternização que envolva troca de presentes.

Para piorar a situação, os “generais da fé” ensinam que o cristão que não atende as demandas pastorais encontra-se em rebeldia contra autoridade constituída e que a conseqüência da desobediência é o juízo divino.

Caro leitor, o pastor não possui autoridade para legislar naquilo que a Bíblia não legisla, além do mais, ninguém pode interferir na liberdade cristã. Ora, determinar que o crente está proibido de possuir uma árvore de natal em casa, ou ouvir música natalina, é arbitrário e extrapola os pressupostos de autoridade bíblica. Além disso, afirmar que o cristão que monta uma árvore de natal dá legalidade ao diabo, é usar de subterfúgios escusos e anticristãos cuja configuração determina no mínimo abuso de poder.

Ora,  como escrevi anteriormente o Natal nos oferece uma excelente oportunidade de evangelização.  O Natal é um Presente de Deus à Humanidade. E este presente tem um nome: Seu nome é Jesus. Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz, Santo de Deus, Cordeiro de Deus, Autor da Vida, Senhor Deus, Todo-Poderoso, Leão da Tribo de Judá, Autor e Consumador da Fé, Advogado, o Caminho, Sol Nascente, Senhor de Todos, Eu Sou, Filho de Deus, Pastor e Bisopo das Almas, Messias, a Verdade, Salvador, Pedra Angular, Rei dos reis, Reto Juiz, Luz do Mundo, Cabeça da Igreja, Estrela da Manhã, Sol da Justiça, Senhor Jesus Cristo, Supremo Pastor, Ressurreição e Vida, Plena Salvação, Guia, O Alfa e o Omega!

Pense nisso!

Fonte: http://renatovargens.blogspot.com/2010/12/pastores-que-odeiam-o-natal.html

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O crente em Jesus deve celebrar o Natal? (Parte 1)

Por Renato Vargens1

Como muitas vezes acontece, a Igreja Evangélica Brasileira polemiza sobre assuntos dos mais diversos. Na verdade, têm sido assim no decorrer recente de sua história. Ultimamente, têm-se falado demasiadamente sobre o natal, sua história e implicações. Como era de se esperar, opiniões diferentes surgiram quanto ao assunto. Existem aqueles que não vêem nenhum problema quanto à celebração da data, e outros que radicalizaram abdicando de toda e qualquer celebração relacionada ao tema em questão.

Antes de qualquer coisa , por favor façamos algumas considerações: o Natal não era considerado entre as primeiras festas da Igreja. Os primeiros indícios da festa provêm do Egito. Os costumes pagãos ocorridos durante as calendas de Janeiro lentamente modificaram-se na festa do Natal”. Foi no século V que a Igreja Católica determinou que o nascimento de Jesus Cristo fosse celebrado no dia da antiga festividade romana em honra ao nascimento do Sol, isto porque não se conhecia ao certo o dia do nascimento de Cristo. Não se pode determinar com precisão até que ponto a data da festividade dependia da brunária pagã (25 de dezembro), que seguia a Saturnália (17-24 de dezembro) celebrando o dia mais curto do ano e o “Novo Sol”. As festividades pagãs, Saturnália e Brumária estavam a demais profundamente arraigadas nos costumes populares para serem abandonadas pela influência cristã. A festividade pagã acompanhada de bebedices e orgias, agradavam tanto que os cristãos viram com benevolência uma desculpa para continuar a celebra-la em grandes alterações no espírito e na forma.

Ontem e Hoje:

A conclusão que chegamos é que o natal surgiu com a finalidade de substituir as práticas idólatras e pagãs que influenciava sociedade da época. Hoje como no passado à humanidade continua fazendo desta festa pretexto pra bebedeiras, danças e orgias. Se não bastasse isso, todos sabemos que milhões de pais em todo o mundo (Muitos destes cristãos) levam seus filhos pequenos a acreditarem em Papai Noel, dizendo-lhes que foi o bochechudo velhinho que lhes trouxe um presente. Ora, a figura do papai Noel tem origem nos países nórdicos, referindo-se a um senhor idoso, denominado Klaus, que saía distribuindo presentes a todos quanto podia. Infelizmente, numa sociedade materialista e consumista, o tal Papai Noel é mais desejado do que Jesus de Nazaré, afinal de contas, ele é o bom velhinho que satisfaz os luxos e desejos de todos quanto lhes escrevem missivas recheadas de vaidades e cobiças. Se não bastasse, junta-se a isso a centralidade em muitos lares cristãos de uma Árvore recheada de bolinhas coloridas.

O espírito consumista e mercantilista do natal, bem como a ênfase na árvore e no papai Noel, se contrapõe a mensagem do evangelho que anuncia que Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho pra morrer por nós. Aliás, esta é a grande nova! Deus enviou seu filho em forma de Gente! Sem sombra de dúvidas, sou absolutamente contra, duendes, Papai Noel e outras coisas mais que incentivam este “espírito mercantilista natalino”. No entanto, acredito que antes de qualquer posição, decisão ou dogmatização, quanto ao que fazer “do e no natal” devemos responder sinceramente pelo menos três indagações:

1. Será que existe alguma festividade ou festa no mundo que tenha o poder de convergir tanta gente em torno da família, do lar como o natal?

2. Em virtude do grande poder e influência que o natal exerce na sociedade ocidental será que não deveríamos aproveitar a oportunidade e anunciar a todos quanto pudermos que “um Menino nos nasceu e um Filho se nos deu”?

3. Seria inteligente de nossa parte desconsiderarmos o natal extinguindo-o definitivamente do “nosso” calendário em virtude do“espírito mercantilista natalino” que impera na nossa sociedade?
Outras considerações:

Apesar de não observarmos textos bíblicos que incentivem a celebração do natal, é absolutamente perceptível em diversas passagens a importância e relevância do nascimento e encarnação do Filho de Deus. As escrituras, narram com efusão o nascimento do Messias. Se não bastasse isso, sem a sua vinda, não nos seria possível experimentarmos da salvação eterna e da vida vindoura. Portanto, comemorar o natal, (ainda que saibamos que o Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro) significa em outras palavras relembrar a toda a humanidade que Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito, pra que todo aquele que nele cresse não perecesse mais tivesse vida eterna.

Isto nos leva a seguinte conclusão:

1. O natal nos oferece uma excelente oportunidade de evangelização. Em todos os registros históricos percebemos de forma impressionante o quanto os irmãos primitivos eram apaixonados, entusiastas e extremamente corajosos na proclamação do evangelho. Estes homens e mulheres de Deus eram movidos por um desejo incontrolável de pregar as Boas Novas. Eram pessoas provenientes de classes, níveis e posições sociais das mais diversas: artesãos, sacerdotes, empresários, escravos, gente sofisticada bem como pessoas simples e iletradas. Entretanto, ainda que diferentes, todos tinham em comum o sentimento de “urgência” em anunciar a Cristo. Vale a pena ressaltar que Jesus comumente usou as festas judaicas como meio de evangelização. Os 04 evangelhos, nos mostram o Senhor pregando e ensinando coisas concernentes ao reino de Deus a um número considerável de pessoas em situações onde a nação celebrava alguma festividade. Na verdade, ele aproveitava os festejos públicos pra anunciar as boas novas da salvação eterna. Ora, tanto nosso Senhor quanto à igreja do primeiro século tinham como missão prioritária à evangelização. Portanto, acredito que o natal seja uma excelente ocasião pra anunciar a cristo aos nossos familiares e amigos. Isto afirmo, porque geralmente é no natal onde a maioria das famílias se reúnem. O natal nos propicia uma grande oportunidade de proclamarmos com intrepidez a cristo. Junta-se a isso, que o período de fim de ano é um momento de reflexão e avaliação pra muitos. E como é de se esperar, em um mundo onde a sociedade é cada vez mais competitiva e egoísta, a grande maioria, sofre com as dores e marcas deste mundo caído e mau. É comum nesta época o cidadão chegar a conclusão de que o ano não foi tão bom assim. A conseqüência disto é a impressão na psique do individuo de sentimentos tais como frustração, depressão, angústia e ansiedade.E é claro que tais sentimentos contribuem consideravelmente a uma abertura maior a mensagem do evangelho.

Abertura pro Sagrado

Um outro fator preponderante que corrobora pra evangelização é significativa abertura ao sagrado e ao sobrenatural que a geração do século XXI experimenta. No inicio do século XX, acreditava-se que quanto mais o mundo absorvesse ciência menor seria o papel da religião. De lá pra cá a tecnologia moderna se tornou parte essencial do cotidiano da maioria dos habitantes do planeta e permitiu que até os mais pobres tivessem um grau de informação inimaginável 100 anos atrás. Apesar de todas essas mudanças, no inicio do século XXI o mundo continua inesperadamente místico. O fenômeno é global e no Brasil atinge patamares impressionantes.

A Revista Veja encomendou uma pesquisa ao Instituto Vox Populi, perguntando as pessoas se elas acreditavam em Deus. A maioria absoluta ou seja, 99% dos brasileiros responderam que acreditavam. Sem dúvida, o momento é impar na história, até porque, com exceção de alguns períodos da história mundial o mundo nunca esteve tão aberto ao sagrado como agora. Diante disto, será que o natal não representa uma excelente oportunidade de evangelização?

2. O natal nos oferece uma excelente oportunidade de reconciliação e perdão.Você já se deu conta que a ambiência do natal proporciona uma abertura maior à reconciliação e perdão? Repare quantas famílias se recompõem, quantos lares são reconstruídos, quantos pais se convertem aos filhos e quantos filhos se convertem aos pais. Será que a celebração do natal não abre espaço nos corações pra reconciliação e perdão? Ora, O senhor Jesus é aquele que tem o poder de construir pontes de misericórdia bem como de destruir as cercas da indiferença e inimizade.

3. O natal nos oferece uma excelente oportunidade de sermos solidários em uma terra de solitários.Por acaso você já percebeu que no natal as pessoas estão mais abertas a desenvolver laços de fraternidade e compaixão com o seu próximo? Tenho para mim que o natal pode nos auxiliar a lembrarmos que a vida deve ser menos solitária e mais solidária. Isto afirmo porque o natal nos aponta o desprendimento de Deus em dar o seu filho por amor a cada de um nós. O Nosso Deus se doou, se sacrificou e amou pensando exclusivamente no nosso bem estar e salvação eterna. Você já se deu conta que o natal é uma excelente oportunidade pra nos aproximarmos daqueles que ninguém se aproxima além de exercermos solidariedade com aqueles que precisam de amor e compaixão?

Conclusão

Sem qualquer sombra de dúvida devemos repulsar tudo aquilo que seja reflexo deste “espírito mercantilista natalino”. Duendes, Papai Noel, devem estar bem longe da nossa prática cristã. Entretanto, acredito que como portadores da Verdade Eterna, devemos aproveitar toda e qualquer oportunidade pra semear na terra árida dos corações a semente da esperança. Jesus é esta semente! Ele é a vida eterna! O Filho de Deus, que nasceu, morreu e ressuscitou por cada um de nós. A missão de pregar o Evangelho nos foi dada, e com certeza, cada um de nós deve fazer do natal uma estratégia de proclamação e evangelização.

Celebremos, irmãos, e anunciemos que o Salvador nasceu e vive pelos séculos dos séculos, amém.

Soli Deo Gloria!

1 Renato Vargens é conferencista Internacional e escritor com doze livros publicados, colunista e articulista de revistas, jornais e diversos sites protestantes, e Pastor Presidente da Igreja Cristã da Aliança em Niterói, RJ.

Fonte: http://renatovargens.blogspot.com/2010/12/serie-natal-parte-1-o-crente-em-jesus.html

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O “pecado” do natal...

Por Ruy Cavalvante1

Aproveitando esta data convencionada como o dia do nascimento do nosso Senhor Jesus Cristo como homem, pois sabemos que Jesus existe desde o princípio, ou melhor, “tudo que existe foi feito por Ele e sem Ele nada do que foi feito se fez” (João 1:3), resolvi “teologar” a respeito das comemorações referentes ao natal, consciente de ser este um assunto um tanto controverso e polêmico, especialmente no meio evangélico.

A história nos conta que os símbolos e tradições natalinas de fato se originaram em festas pagãs geralmente ligadas a adoração de ídolos. Analisemos alguns:

A festa do Natal: A celebração do Natal antecede o cristianismo em cerca de 2000 anos. Tudo começou com um antigo festival mesopotâmico que simbolizava a passagem de um ano para outro, o Zagmuk. Para os mesopotâmios, o Ano Novo representava uma grande crise. Devido à chegada do inverno, eles acreditavam que os monstros do caos enfureciam-se e Marduk, seu principal deus, precisava derrotá-los para preservar a continuidade da vida na Terra. O festival de Ano Novo, que durava 12 dias, era realizado para ajudar Marduk em sua batalha. A tradição dizia que o rei devia morrer no fim do ano para, ao lado de Marduk, ajudá-lo em sua luta. Para poupar o rei, um criminoso era vestido com suas roupas e tratado com todos os privilégios do monarca, sendo morto e levando todos os pecados do povo consigo, restabelecendo, segundo a crença, a ordem natural das coisas. Claro que existem outras versões para a origem do natal, mas todos semelhantes a esta.

Papai noel: A crença no Papai Noel, tem origem na Igreja Católica, como uma homenagem prestada ao padre Saint Claus, que conforme relatos, em data próxima ao natal, distribuía presentes entre a população. Inclusive, nos Estados Unidos, o Papai Noel é conhecido por: “Santa Claus”. O bom velhinho, sutilmente toma para si, atributos exclusivos do Todo Poderoso, como a onisciência, pois conhece o comportamento e os pedidos de todas as crianças, e a eternidade, pois se mantém o mesmo sempre. Observo muitos pastores e evangélicos em geral se referir ao papai noel como o inimigo disfarçado o qual com a sua astúcia vem minando e destruindo espiritualmente a humanidade. Há ainda quem diga que o papai noel surgiu de uma estratégia de marketing da empresa de refrigerantes multinacional, Coca-Cola.

Árvore de Natal: A origem da árvore de Natal é mais antiga que o próprio nascimento de Jesus Cristo, ficando entre o segundo e o terceiro milênio A.C. Naquela época, uma grande variedade de povos indo-europeus que estavam se expandindo pela Europa e Ásia consideravam as árvores uma expressão da energia de fertilidade da “Mãe Natureza”, por isso lhes rendiam culto. O carvalho foi, em muitos casos, considerado a rainha das árvores. No inverno, quando suas folhas caíam, os povos antigos costumavam colocar diferentes enfeites nele para atrair o espírito da natureza, que se pensava que havia fugido. A árvore de Natal moderna surgiu na Alemanha e suas primeiras referências datam do século 16. Foi a partir do século 19 que a tradição chegou à Inglaterra, França, Estados Unidos, Porto Rico e depois, já no século 20, virou tradição na Espanha e na maioria da América Latina.

Existem ainda outros símbolos como os enfeites de natal e o presépio, todos extraídos de cultos ou crenças pagãs (entenda-se pagã como uma sociedade que não acredita no Deus Todo-poderoso, o Deus de Israel) e diante destes fatos, que me parecem irrefutáveis levando-se em conta as pesquisas já realizadas neste sentido, com vasta publicação pela internet ou em livros relacionados, eu sou tentado a fazer o seguinte questionamento:

E daí?

Qual o problema em festejarmos o nascimento de nosso Salvador numa data convencionada mesmo sabendo não corresponder com a data correta? Ou o que temos a ver com o fato de pessoas haverem, num determinado momento da história, utilizado alguns dos objetos presentes nas festas natalinas para adorar outros deuses? Afinal nós, os evangélicos, comemoramos nesta data o deus sol ou o nosso Eterno e Supremo Senhor Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e que por seu grande amor se entregou a morte pra nos salvar de toda condenação que tínhamos em conseqüências de um dia sermos idólatras e termos servido a outros deuses? Ou não é verdade que foi Cristo quem criou TODAS as coisas assim como afirmou João, o discípulo amado de Jesus?

O salmo 148 afirma que toda a criação deve louvar ao Senhor, pois com esse propósito todas as coisas foram criadas, desde os seres viventes até os seres inanimados. Por outro lado, o papel de satanás foi sempre “Matar, roubar e destruir” (João 10:10), e é exatamente isso que ele vem tentando fazer, tomar para si aquilo que pertence a Deus, inclusive a adoração. Foi exatamente isto que ele tentou fazer no deserto, oferecendo todos os reinos do mundo em troca da adoração de Jesus e isso é o que ele tem conseguido fazer com aqueles que não conhecem a Cristo. Porém nós o conhecemos e o natal é para nós muito mais do que a comemoração do nascimento do homem Jesus, mas é a data em que comemoramos o nascimento de Jesus Cristo em nossas vidas, nos justificando e nos redimindo do pecado e nos livrando de toda a maldição da lei, sofrendo em nosso lugar todo aquilo que deveríamos sofrer e pagando toda a dívida que era contra nós. Dessa forma não pertencemos mais a satanás e sim ao Senhor detentor de todo o poder no céu e na terra, Jesus Cristo (Mateus 28:18).

O pecado, ensina a palavra de Deus, habita na intenção do coração e a respeito disso Tito também afirma que “Todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes o seu entendimento e consciência estão contaminados”. (Tito 1:15)

É preciso conhecer a palavra de Deus para não desviarmos da verdadeira fé e assim estarmos propensos a todo tipo de vã doutrina usada com o pretexto de tornar as pessoas mais espirituais, como um falso ascetismo, trazendo com isso o famoso fardo dos usos e costumes que, a meu ver, substituem os jugos da lei, dos quais Jesus também nos livrou. Se assim não fosse, inúmeras atitudes e costumes comuns a nossa sociedade e aos cristãos evangélicos estariam impedindo de alcançarmos a santidade exigida por Deus, afastando-nos da pureza a qual deveríamos andar (Hebreus 12:14) como por exemplo uma grande parte dos animais que completam nossa alimentação diária, pois era assim antes de Jesus nos libertar (I Timóteo 4:1-5).

Nesse sentido redijo minha conclusão, afirmando não reconhecer algum pecado nesta comemoração, salvo quando esquecemos Cristo e dedicamos o nosso dia de natal exclusivamente a nós mesmos, aos presentes e símbolos, sem lembrar Quem de fato nasceu para nos salvar. Deus seja conosco.

1Ruy Cavalcante de Oliveira Sobrinho é casado com Caren Oliveira, pai de uma princesa (Débora Oliveira), evangélico, apologeta, bacharel em Teologia e Bacharelando em Ciências Sociais.

Fonte: http://intervalocristao.blogspot.com/2006/12/o-pecado-do-natal.html

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Os demagogos dos palanques e dos púlpitos

Gutierres Siqueira

Os governos de esquerda e populistas, especialmente na América Latina, se colocam como defensores dos pobres e inimigos das elites. Ainda por cima contam com vários “intelectuais progressistas” que defendem esse maniqueismo político dos “bons” contra os “maus”. Mas esses políticos e intelectuais realmente amam os pobres?

Ora, quem defende demandas por um Estado forte não pode negar que essa ideologia resulta altos impostos para a sustentação das políticas paternalistas. Isso é ser a favor dos pobres? Vamos ao exemplo do Brasil: O mesmo governo que dá “bolsa disso e bolsa daquilo” é o mesmo que retira metade da renda do pobre para o pagamento de impostos.

No Brasil, um pai de família que ganha 1000 reais paga 539 reais em impostos! Vou repetir: o pobre pai de família que ganha 1000 reais paga escandalosamente 53,9% do seu salário em impostos! Ou seja, o brasileiro mais pobre trabalha 200 dias para pagar o governo! Ora, por muito menos os romanos eram odiados em Jerusalém na época de Cristo. Isso é amar o povo? E ainda o patrão desse pobre trabalhador paga 900 reais para o governo em impostos, ou seja, o seu funcionário custa quase o dobro!

E pior. Quando mais pobre é o brasileiro, mas ele paga imposto! E o que recebe em troca? Transporte mega-lotado, hospitais em péssimas condições, educação de quinta categoria etc. Isso é amar o pobre? Esso é o governo defensor dos oprimidos como muitos evangélicos progressistas proclamam por aí? Amigo assim é melhor ter inimigos. Em Israel da época de Cristo esses cobradores de impostos eram detestados, mas já no Brasil são tratados como salvadores.

Ah, mas o governo dá as bolsas... Sei! E ainda se porta com o messias salvador do povo enquanto dá 90 reais e toma metade do valor do quilo de arroz em impostos, por exemplo.

Sabe como podemos chamar esse discurso? DEMAGOGIA! Os políticos são mestres nessa arte.

Demagogia é o uso do discurso popular para fins nada nobres.

Nos púlpitos

Pego esse exemplo da política e passo agora para os púlpitos das igrejas pentecostais. Cansei de ouvir demagogos dizendo que não estudaram teologia com ar de anti-intelectualismo e ainda posam como coitadinhos. Gente que não estuda porque não quer, mesmo tendo condições financeiras para tal. Se portam como mais “espirituais” por possuírem a “virtude” da ignorância. Isso é discurso baixo e sem vergonha daqueles que têm preguiça de estudar. E em uma sociedade que não dá valor aos estudos, esses discursos soam como música em muitos ouvidos.

Demagogia engana duplamente, pois usa o discurso mentiroso e mostra virtudes que o demagogo não possui.

Fonte: http://teologiapentecostal.blogspot.com/2010/11/os-demagogos-dos-palanques-e-dos.html

domingo, 31 de outubro de 2010

Martinho Lutero: "Não me envergonho do Evangelho"

Franklin Ferreira

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A época em que Lutero viveu foi de grandes mudanças e inquietações. Foi o tempo do descobrimento das Américas. Imperadores, reis, generais e papas lutavam entre si, para tentar moldar a Europa moderna. A igreja católica era espiritual, cultural e politicamente soberana, e as tentativas de Reforma de uma Igreja corrompida, como as de Wycliffe e Huss, foram esmagadas. Surgiram gênios como Erasmo de Roterdã, Michelangelo, Leonardo da Vinci, Rafael, Cristóvão Colombo, Copérnico. Mas a Baixa Idade Média foi marcada por uma inquietação profunda com a morte, a culpa e a perda de sentido. A teologia de Martinho Lutero foi uma resposta às ansiedades dessa época.

A peregrinação espiritual

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Martinho Lutero nasceu em 10 de novembro de 1483, na Alemanha, na vila de Eisleben, filho de um minerador de prata, mas foi criado em Mansfeld, na Turíngia. Teve uma infância de grandes privações, que o marcaram profundamente. Com 14 anos, foi enviado para Magdeberg, para estudar com os Irmãos da Vida Comum, e ali iniciou-se na piedade pessoal. Foi nessa escola que Lutero viu pela primeira vez uma Bíblia. Ele ficou pouco tempo na ordem, pois uma enfermidade o obrigou a voltar para casa.

Quando Lutero tinha 18 anos, em 1501, seu pai, desejando torná-lo um jurista, o enviou para a Universidade de Erfurt. Ele adquiriu um grande conhecimento de gramática, lógica, metafísica e música. Mas logo se interessou pela teologia escolástica de William de Ockham e especialmente pela de Gabriel Biel, que afirmava que Deus não haveria de negar sua graça ao homem que fizesse tudo quanto estivesse em seu poder, e pelo humanismo, que era a redescoberta da cultura clássica. Em 1502, recebeu o grau de bacharel em artes, e em fevereiro de 1505 recebeu o título de mestre. No mesmo ano ingressou no curso de direito.

Mas uma convulsão assaltou Lutero. Filipe Melanchthon disse: "Amiúde ao pensar na ira de Deus e em seus juízos, ficava tão atemorizado que quase perdia o alento". Contra a ira de Deus, Lutero não tinha onde buscar refúgio. Na Páscoa de 1503, ele se feriu gravemente, e depois confessou: "Teria morrido, apoiando-me em Maria". O fato decisivo que o levou a ingressar, na manhã de 18 de julho de 1505, no convento dos Eremitas Agostinianos foi uma tempestade violenta que desabou perto dele, quando ia de casa para a Universidade. Tinha então 22 anos. Ao perceber sua fragilidade, a consciência clamou: "Eu, Martinho Lutero, como serei salvo?". Em suas palavras: "Eu me dizia continuamente: Oh! se pudesse ser verdadeiramente piedoso, satisfazer teu Deus, merecer a graça! Eis os pensamentos que me lançaram no convento!".

A ordem monástica que Lutero havia escolhido se distinguia ao mesmo tempo pela seriedade de seu labor teológico e pela dureza de sua regra. Em 1507, foi ordenado, na Catedral de Santa Maria. Mas, no centro de seu pensamento gravita Deus, o Deus de majestade, o Deus que tem seu trono nos altos céus, o todo-poderoso, o Juiz, o Vivo, o Santíssimo, o Senhor que odeia o pecado e condena o pecador. Lutero, na tentativa de tornar-se justo, descreveu-se:

"Eu guardei a regra da minha ordem tão estritamente que posso dizer que se algum monge fosse ao céu pelo monasticismo seria eu... Se tivesse continuado por mais tempo, teria me matado com vigílias, orações, leituras e outros trabalhos."

Ele tinha um espírito quebrantado e estava sempre triste.

O caminho da Reforma

Lutero - O Filme

Por causa de sua piedade e inteligência, em 1511, ocorreu um fato que mudaria para sempre sua vida. Johann von Staupitz, o superior da ordem agostiniana na Alemanha, disse que ele precisava preparar-se para a carreira de pregador e tornar-se doutor em Teologia. Lutero, a princípio, não aceitou, mas Staupitz encerrou a questão:

"Tudo deixa entrever que dentro em pouco nosso Senhor terá muito trabalho no céu e na terra. Então, precisará de um grande número de jovens doutores laboriosos. Que vivas, pois, ou que morras, Deus tem necessidade de ti em seu conselho".

Em 19 de outubro de 1512, Lutero obteve o grau de doutor em Teologia. Em suas palavras: "Eu, dr. Martin, fui chamado e forçado a tornar-me doutor, contra a minha vontade, por pura obediência e tive de aceitar um cargo de ensino como doutor, e prometo e voto pelas Sagradas Escrituras, que tanto amo, pregar e ensiná-las fiel e sinceramente".

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No inverno de 1512, Lutero começou a se preparar para as suas preleções sobre Salmos (1513-1515), Romanos (1515-1516), Gálatas (1516-1517), Hebreus (1517) e novamente Salmos (1518-1519). Ele começou a trilhar o caminho da Reforma, como observou mais tarde: "No transcorrer desses estudos, o papado soltou-se de mim". Abandonou o método de interpretação alegórico, que era dominante, e os comentários dos teólogos escolásticos, pois não contribuíam para uma compreensão do texto. E passou a apoiar-se nos comentários de Agostinho, o grande pregador da doutrina da livre graça de Deus.

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Augustus Nicodemus Lopes disse que a hermenêutica de Lutero resgatou as Escrituras do cativeiro da exegese medieval. Qualquer estudante que conheça as obras de Lutero, especialmente os seus comentários, "percebe que o método gramático-histórico moderno de interpretação está, muitas vezes, apenas aperfeiçoando a obra do grande reformador". Através de laboriosos estudos das Escrituras, Lutero chegou a ver que a culpa que o consumia não poderia ser retirada por mais religião, e o Deus que ele tanto temia não era o Deus revelado por Cristo. Disparado de Romanos 1.17, outro relâmpago cruzou seu caminho:

Noite e dia eu ponderei, até que vi a conexão entre a justiça de Deus e a afirmação de que "o justo viverá pela fé". Então eu compreendi que a justiça de Deus era aquela pela qual, pela graça e pura misericórdia, Deus nos justifica através da fé. Com base nisso eu senti estar renascido e ter passado através de portas abertas para dentro do paraíso. Toda a Escritura teve um novo significado, e se antes a justiça me enchia de ódio, agora ela se tornou para mim inexprimivelmente doce em um maior amor. Essa passagem de Paulo se tornou para mim um portão para o céu.

Ele descobriu que na Escritura, como diz a Confissão de Augsburgo, Ensina-se também que não podemos alcançar remissão do pecado e justiça diante de Deus por mérito, obra e satisfação nossos, porém que recebemos remissão do pecado e nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé, quando cremos que Cristo padeceu por nós e que por sua causa os pecados nos são perdoados e nos são dadas justiça e vida eterna. Pois Deus quer considerar e atribuir essa fé como justiça diante de si, conforme diz São Paulo em Romanos 3 e 4.

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Lutero afirmou depois que a justificação pela graça é "o artigo pelo qual a igreja se mantém ou cai". E desvencilhou-se daquilo que foi chamado como "o pior erro gramatical do mundo", isto é, a idéia medieval de que o homem faz-se justo. Erroll Hulse afirmou que a única vez, no Novo Testamento, em que lemos que a expressão anátema - "seja maldito" - sendo repetida duas vezes se encontra em Gálatas 1.9. O apóstolo declara que quem quer que perverta a justificação pela fé "seja maldito". Não importa quão notório seja o ministro, mesmo que seja um anjo do céu, seja ele maldito.

Lutero também era o pastor da igreja da cidade de Wittenberg, e começou a pregar sua fé recém-descoberta para a congregação. Mas, ao mesmo tempo, um monge chamado Johann Tetzel, representante do papa Leão X, estava vendendo indulgências para levantar dinheiro para a construção da Catedral de São Pedro, em Roma. As indulgências eram cartas de absolvição que garantiam o perdão dos pecados. Tetzel afirmava: "Não vale a pena atormentar-te: podes resgatar teus pecados com dinheiro! Pagando, podes escapar dos sofrimentos do purgatório e aliviar os dos outros!", e tudo embalado pelo cântico: "A alma sai do purgatório no preciso momento em que a moeda ressoa na caixa". Para Lutero, isso era uma perversão do evangelho.

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Em 31 de outubro de 1517, Lutero afixou, na porta da Igreja do Castelo, em Wittenberg, o Debate para o esclarecimento do valor das indulgências, que haveria de marcar o princípio da Reforma. Escolhe¬ra intencionalmente aquela data, pois o dia seguinte seria a festa de Todos os Santos, e o príncipe eleitor Frederico ofereceria à veneração de seu povo sua preciosa coleção de 17.443 relíquias — que incluí¬am um dente de Jerônimo, quatro partes do corpo de João Crisóstomo, quatro fios de cabelo da Virgem Maria, um retalho das fraldas de Jesus, um cabelo de sua barba, um prego de sua cruz, entre outros —, cuja veneração valia para os fiéis 127.779 anos de indulgência! O fato de afixar tese não era grande coisa, pois os eruditos naquele tempo faziam isso; mas, com a invenção da imprensa, essas teses se espalharam pela Europa, dando início à batalha. Estas são algumas das teses:

Ao dizer "Fazei penitência" [o original presenta "penitentiam agite", que é citação da Vulgata. O texto grego usa "metanoeite", que Almeida RA reproduz mais adequadamente por "arrependei-vos" (Mt 4.17)] etc, nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

Pregam doutrina humana aqueles que dizem, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório].

Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão plena de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência.

Vã é a confiança de salvação conferida pelas cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa dessem sua alma como garantia [por elas].

Admoestem-se os cristãos que procuram seguir seu cabeça, Cristo, através de penas, da morte e do inferno.

E assim confiem entrar no céu passando antes por muitas tribulações do que pela segurança da paz infundada.

Traduzidas para o alemão, em poucas semanas essas teses se espalharam por toda a Europa.

Diante de reis e príncipes

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Os eventos se sucedem com rapidez. Em 1518, Lutero recebe o apoio de Frederico, príncipe eleitor da Saxônia. Em 1519, partici¬pa do debate de Leipzig, contra Johann Eck. Em 1520, escreve três obras importantes: A nobreza cristã da nação alemã, contra a hierar¬quia romana, Do cativeiro babilónico da igreja, contra o sistema sa¬cramental de Roma, e Sobre a liberdade cristã, afirmando o sacerdócio de todos os crentes. Em 10 de dezembro de 1520, queima os livros de direito canónico e a bula papal que o ameaçava de excomunhão. No início de 1521, foi convocado a Worms, perante o imperador Carlos V e os príncipes da Alemanha, para prestar contas de seu ensino. Depois de dois dias de debates, no qual o que estava em jogo era a autoridade das Escrituras, ao ser instado a retratar-se e retornar à comunhão com Roma, Lutero exclama:

Já que me pede uma resposta simples, darei uma que não deixa margem a dúvidas. A não ser que alguém me convença pelo testemunho da Escritura Sagrada ou com razões decisivas, não posso retratar-me. Pois não creio nem na infalibilidade do papa, nem na dos concílios, porque émanifesto que freqüentemente se têm equivocado e contradito. Fui vencido pelos argumentos bíblicos que acabo de citar e minha consciência está presa na Palavra de Deus. Não posso e não quero revogar, porque é perigoso, e não é certo agir contra sua própria consciência. Que Deus me ajude. Amém.

Era a noite de 18 de abril de 1521, e um novo dia raiou para a cristandade. Proscrito pelo imperador, Lutero foi posto em segurança por Frederico, através de um seqüestro simulado durante sua viagem de retorno, e escondido no Castelo de Wartburgo, nas proximidades de Eisenach. Sua principal realização nesse período foi a tradução do Novo Testamento grego para um alemão fluente. Os primeiros cinco mil exemplares esgotaram-se em três meses. Em cerca de dez anos houve cinqüenta e oito edições.

200px-Hans_Holbein_d._J._047Em 1524, Erasmo entrou no debate com Lutero sobre o livre-arbítrio, escrevendo um tratado sobre o tema. Erasmo entendia a salvação como resultado da graça de Deus, mas agindo em cooperação com a vontade humana. Lutero respondeu com Da vontade cativa. "Apenas você", ele disse, "atacou a questão verdadeira, isto é, a questão inicial [...]. Apenas você percebeu o eixo ao redor do qual tudo gira, e apontou para o alvo vital". Ele afirmou que, depois da queda, a humanidade está incapacitada de optar pelo bem, confessando que a salvação é totalmente pela graça.

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Para Lutero, não podemos entender o mistério da predestinação: "Todas as objeções à predestinação procedem da sabedoria da carne!". Não se pode permitir que Deus seja julgado pela justiça humana: "Deixe Deus ser Deus!". Para ele, Da vontade cativa foi sua obra mais importante, porque o que estava em jogo era a questão da salvação e da soberania de Deus.

Em junho de 1525, Lutero casou-se com Katharina von Bora, uma jovem freira que abandonara o convento de Nimbschen. Juntos eles tiveram seis filhos e criaram quatro órfãos. Ele escreveu que "o casamento é uma escola muito melhor para o caráter do que qualquer monastério".

Expansão e consolidação

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Em 1529, os príncipes luteranos reuniram-se em torno de uma resolução que impedia a introdução da Reforma em seus territórios, mas exigia liberdade de culto romano nos territórios conquistados pela Reforma. A recusa solene dos príncipes de fé evangélica — como se chamavam — de concordar com essa imposição tornou-os conhecidos como protestantes.

Os últimos anos da vida de Lutero não foram tão dramáticos como os anos del517al525. Muitos livros e sermões continuaram sendo produzidos. De todos os livros, o favorito do próprio Lutero era o Catecismo menor, de 1529, que, com perguntas e respostas simples, explicava os Dez Mandamentos, o Credo dos Apóstolos e a Oração do Senhor, além de alguns princípios para a vida cristã à luz do seu entendimento do evangelho. No prefácio ao Catecismo maior, ele escreveu:

wartburg-lutherstube-smallFaço como criança a que se ensina o Catecismo: de manhã, e quando quer que tenha tempo, leio e profiro, palavra por palavra, o Pai-Nosso, os Dez Mandamentos, o Credo, alguns salmos etc. Tenho de continuar diariamente a ler e estudar, e, ainda assim, não me saio como quisera, e devo permanecer criança e aluno do Catecismo. Também me fico prazerosamente assim. [...] Existe multiforme proveito e fruto em ler e exercitá-lo todos os dias em pensamento e recitação. É que o Espírito Santo está presente com esse ler, recitar e meditar, e concede luz e devoção sempre nova e mais abundante, de tal forma que a coisa de dia em dia melhora em saber e é recebida com apreço cada vez maior.

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Lutero faleceu aos 62 anos de idade, em 18 de fevereiro de 1546, em sua cidade natal, Eisleben. Com um grande cortejo fúnebre, e ao som de todos os sinos, ele foi sepultado sob as lajes da Igreja do Castelo de Wittenberg, onde sempre pregou o evangelho. Filipe Melanchthon celebrou o serviço fúnebre em 22 de fevereiro. Por essa época, a influência de Lutero já se havia espalhado não só pela Alemanha, mas também por partes da Holanda, Suécia, Dinamarca e Noruega. A Reforma seguia seu curso de forma poderosa.

Karl Barth, ao entender que o verdadeiro legado de Lutero residia em sua percepção da livre graça de Deus em Cristo, que alcança o homem em seu estado de rebelião, morte e idolatria, afirmou: "Que mais foi Lutero, além de um professor da igreja cristã que não se pode celebrar de outra maneira senão ouvindo-o?".

Fonte: http://www.josemarbessa.com/2010/08/martinho-lutero-nao-me-envergonho-do.html