sexta-feira, 23 de julho de 2010

UM BURRO PARA O PASTOR

Nilonei Ramos 1

321Numa longínqua terra, num tempo igualmente distante, uma pequena igreja evangélica lutava tenazmente para manter acesa a chama do Evangelho. O pastor, um homem de tez encardida, conseqüência do labor ministerial sob sol causticante e impiedoso, já dava os primeiros sinais de cansaço.

Os irmãos daquela pequena comunidade evangélica moravam distantes uns dos outros, obrigava o pastor a andar léguas e léguas a fim de se desincumbir bem de sua tarefa pastoral. Visitava doentes, evangelizava, corria atrás de desviados, aconselhava famílias e ainda realizava cultos semanalmente em dois povoados distantes cerca de vinte quilômetros da cidade.

Certo dia, caminhando debaixo do peso de uma tarde suada e quente, viu dois vaqueiros que montados em seus cavalos velozes cortavam o vento e deixavam para trás um rastro de poeira e de santa inveja àquele homem!

Foi aí que o pastor teve uma brilhante idéia: Na próxima reunião administrativa da igreja proporia a compra de um cavalo. Não, cavalo não. Os irmãos poderiam pensar que ele quisesse luxo, boa vida! Pensou um pouco mais... e...estava decidido: proporia a compra de um burro. Não um BURRO! Mas um burrico, um jegue que pudesse levá-lo mais rápido de um lado pra outro já o satisfaria. Esta idéia fê-lo num átimo, sonhar montado no lombo dum jegue unindo as distâncias daquela terra árida.

O dealbar do dia seguinte veio sorrindo como criança quando ganha brinquedo novo. Era sábado. O sol ainda não havia atingido seu clímax quando a Diretoria da igreja começou a chegar para a reunião. O ar cansado do rosto do pastor desaparecera, em seu lugar um sorriso farto assumiu a função de recepcionista solícita.

- Bom dia meus queridos! Sejam bem vindos! - disse o pastor esbanjando simpatia - vamos orar pedindo a orientação divina para o assunto que vamos discutir.

Após a oração, o pastor fez um enorme discurso sobre a necessidade de a igreja ter um meio de transporte a fim de possibilitar a locomoção mais rápida em suas visitas. Ressaltou o número exato de quilômetros que andava por dia e quantos poderia alcançar se fosse montado num burro. Lembrou das dores nas pernas, dos inchaços dos pés de tanto andar e das dores de cabeça por passar muito tempo exposto ao torturante sol. Quando finalmente entendeu que havia sensibilizado a liderança da igreja para tão grande necessidade, fez a proposta da compra de um burro.

Um dos diretores acenou pedindo a palavra e em seguida disparou:

- Eu sou contra! Primeiro porque acho que temos coisas mais importantes para empregarmos nosso dinheiro, que já é pouco. Segundo porque esse burro do pastor além de despesas vai dar muito trabalho!

- Não meu irmão, burro não dá trabalho e se der o pastor pode se virar, afinal, o burro é pra ele. – disse outro irmãozinho bem intencionado.

- Eu não tenho nada contra a proposta; acho que o pastor até merece um burro, mas meus irmãos a gente tem que pensar em muita coisa; por exemplo: quanto a alimentação, o que é que o pastor come? Quero dizer o burro do pastor. Vamos ter de comprar ração, sal, capim ou vamos deixá-lo pastar livremente por aí?

A essa altura o sorriso fagueiro e olhar sereno desapareceram do rosto do pastor e cederam lugar ao nervosismo.

- E ainda tem mais – interveio outro – o que vamos colocar no lombo do burro do pastor: cangalha, cela... o que o pastor prefere?

- Se preciso for ando no pelo!

- Ah, Não! No pelo nem pensar! O que a cidade vai dizer da gente? Além do mais, tem o inconveniente de os pelos do burro grudarem na roupa do pastor. Nosso pastor tem que se apresentar bem!

- Meus irmãos – disse em tom solene um dos diáconos que até então havia se mantido calado – é muito importante essa discussão sobre o arreio do burro do pastor, mas eu quero lembrar que nós sequer decidimos se vamos comprar o tal burro. Portanto, proponho que primeiro a gente decida se compra ou não, depois a gente parte pra discutir a questão do arreio, da comida e até mesmo do tratamento e do lugar onde o burro do pastor vai ficar...

O irmão que inicialmente havia se posicionado contra e parecia ser o líder dos demais tomou a palavra novamente e disse:

- Bem, esta discussão é complexa, exige reflexão. Não podemos nos meter com o burro do pastor de maneira precipitada; afinal, nós somos uma igreja democrática, por isso é bom ampliarmos o fórum de discussão deste assunto, para depois não sermos acusados de termos comprado o burro do pastor sem consultar outras lideranças. Então eu proponho que a gente convide para uma próxima reunião outras pessoas interessadas em debater o assunto e em seguida levemos para a Assembléia ordinária da igreja, haja vista que não vejo necessidade de convocarmos uma Assembléia extraordinária somente com este fim.

Antes de o pastor pensar em dizer qualquer coisa, o mesmo diretor perguntou quantos eram favoráveis a sua proposta, todos foram concordes. Assim, a compra do burro do pastor seria tema de debates numa Assembléia ordinária que ocorreria três meses depois. Encolhido em seu canto, o pastor não conseguia articular nenhuma palavra. Seu burro não galopava, andava tropegamente.

Retomando a palavra, o diretor salientou que não poderiam chegar à Assembléia sem um roteiro para discussão, senão perderiam muito tempo discutindo bobagens. E o roteiro ficou assim aprovado:

1. A comida do burro do pastor. Teriam que discutir todas as possibilidades: milho, capim, sal, resto de comida caseira, pastagem livre ou se combinariam um tanto de cada;

2. Quem vai alimentar o burro do pastor. Poderia ser o corpo diaconal, um rodízio entre os departamentos da igreja, rodízio entre famílias da igreja, iriam pagar alguém ou o próprio pastor se encarregaria desta tarefa;

3. O arreio do burro do pastor. Sugestões: cangalha, cela, um tipo de arreio especial ou pelo;

4. O local onde o burro do pastor se hospedaria. Sugestões: um curral alugado ou emprestado, a compra de um curral novo ou se moraria nos fundos da igreja. Era verdade que nos fundos da igreja não estava tão bem assim, mas nada que uma demão de cal não resolvesse;

5. O preço do burro do pastor. Sugestões: fazer pesquisa de mercado para ver a cotação de burros na cidade e em cidades vizinhas; pesquisar se outras igrejas não tinham burro que quisessem vender ou mesmo dar;

6. A idade do burro do pastor. Sugestões: que não seja nem muito velho nem muito novo. Novo demais não é bom porque pode-se correr o risco de um animal arredio, cheios de novidades, que não se submeta a direção de quem o monta... Mas também não pode ser muito velho, pois, corre-se o risco da mesmice, do cansaço e da falta de forças para o trabalho;

7. A inteligência do burro do pastor. Este ponto foi sugerido por um irmão que justificou dizendo que existe burro, burro; e, existe burro que é inteligente;

8. Outros pontos também importantes levantados pela Assembléia sobre o burro do pastor.

Após todo o roteiro escrito e mais algumas ponderações sérias, a reunião foi encerrada com a decisão de que no dia seguinte se instalaria um fórum com a participação de vários membros da igreja para discutirem a compra do burro do pastor. E, dali a três meses, numa Assembléia, retomariam o assunto para finalmente decidirem se era ou não da vontade de Deus comprar o burro do pastor.

Mais cansado do que em suas andanças, o pastor se despediu de cada irmão recebendo destes um aperto de mão e um abraço de amor verbalizado.

Ao sair à porta viu cada um deles montados em seus belos e fortíssimos cavalos, primorosamente arreados, galoparem em direção as suas casas. Neste momento, foi assombrado pela visão impiedosa da estrada poeirenta e seca, sob sol causticante que teria de vencer a pé em seus 100 quilômetros. Antes que desanimasse completamente, sonhou que dali a três meses, quem sabe, poderia ter um descanso, montado no lombo de um burro.

1 Evangelista na Igreja Evangélica Assembleia de Deus Central, Ministério de Madureira, professor e coordenador da EBD, coordenador e professor do Curso Modular de Teologia por extensão da FATAD (Faculdade Teológica das Assembleias de Deus), pregador do Evangelho, ensinador pentecostal, editor dos blogs Teologia Devocional, Devocional 365 e Escatologia Futura. Fonte: Blog Teologia Devocional: http://niloneiramos.blogspot.com

2 comentários:

  1. Paz, Graça e Fé em Jesus, o Senhor dos apologistas (I Pedro 3:15). Bem, eu sou o Co-Fundador do blog Guardian Faith, Eduardo França, chamado para Evangelista (Efésios 4:11). Gostaria de agradecer-lhe pela postagem e pelo seu interesse acerca da apologética. Mas gostaria de lhe dizer que sua ideia sobre a "coluna de vidro" do adventismo é errônea, visto que não se baseia sobre a verdade acerca da referida crença de que Jesus é o arcanjo Miguel e isso, se fosse verdade, rechaçaria a doutrina da Trindade e, consequentemente, a deidade de Cristo. Pois o autor de Hebreus nos informa: A qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho? E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem (1:5,6). Assim, ou Cristo é um anjo (criatura) ou Deus (Criador). Isso com certeza absoluta define o papel da Segunda Pessoa da Trindade. Jesus não pode ser anjo e Deus ao mesmo tempo, ou um, ou outro. Realmente a crença de que os livros de Ellen Gould White são tão inspirados quanto a Bíblia é outro dogma herético terrível que afasta continuamente os adventistas de serem cristãos genuínos. Mas dizer que apenas isso é um fator primaz do afastamento do adventismo, incorre em desconhecimento das doutrinas adventistas. Não sei se é do seu conhecimento, mas o adventismo também tem outros dogmas terríveis que os afastam ainda mais da Palavra de Deus: a crença no Juízo Investigativo (que ensina que Jesus ainda está efetuando perdão dos nossos pecados no Céu), o sono da alma (que revela que todos depois da morte estão dormindo: os adventistas aguardando a ressurreição, os não-adventistas serão destruídos), a negação do inferno eterno, a doutrina do bode expiatório (que ensina que um dos bodes apresentados a Deus é Satanás, tornando-o co-redentor com Cristo dos nossos pecados), e, por fim, a crença adventista de que é a porta da salvação. Feito isso, vemos que o adventismo é uma seita herética e pseudo-cristã, inimiga do Corpo e sendo necessário o combate ferrenho por parte da Igreja de Cristo e resgate das almas enganadas. (Judas 22,23).

    No Deus Tríúno,

    Apologeta!

    Evangelista Eduardo França é autor do DVD: Milagres: De onde eles procedem? (CATEGORIA: APOLOGÉTICA. À venda nos sites CACP e MCK) Co-Fundador e Articulista do blog Guardian Faith: www.guardianfaith.blogspot.com

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  2. Sim é Verdade. Se não hovesse essa afirmação de White como Espírito de Profecia ou "luz menor para luz maior" (Bíblia), seria incoerente e estúpido (que já o é) crer nessas "afirmações".

    Penso que deveria tirar esse "meu ponto de vista" do seu comentário. Isso demonstra subjetivismo, o que não é o seu caso, pois deves estar firmado na Verdade (João 14:6; 17:17).
    Mesmo se eles dissesem que anjo significa mensageiro, seria fútil e inútil essa "defesa", pois não possui suporte bibliocêntrico. Estarão apenas andando em círculos tal qual relógio, com a diferença da função do mesmo que serve-nos para mostrar as horas, mas, seus argumentos (ao contrário) para nada edificam, são ventos de doutrina (Efésios 4:14).

    Que Deus continue iluminando-o através do Seu Santo Espírito e tu continues combatendo o bom combate da Fé Evangélica (I Timóteo 1:18; 6:12; II Timóteo 4:7).

    No Onibenevolente,

    Apologeta!

    Evangelista Eduardo França é autor do DVD: Milagres: De onde eles procedem? (CATEGORIA: APOLOGÉTICA. À venda nos sites CACP e MCK) Co-Fundador e articulista do blog Guardian Faith: www.guardianfaith.blogspot.com

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