domingo, 1 de agosto de 2010

IGREJA (2)

123Recentemente concluí a leitura de um dos livros mais lidos e indicados no meio evangélico e secular. Trata-se da obra “Por que você não quer mais ir à igreja?”, de Wayne Jacobsen e Dave Coleman. O livro conta a estória de um cristão comum, como eu e você, mas que depois de toda uma vida dedicando-se à Igreja e ao caminho que sempre lhe pareceu o correto, ficou diante de uma dolorosa dúvida: “Como é possível ser cristão há tanto tempo e, ainda assim, sentir-se tão vazio?” Então, num certo dia, observando uma multidão numa praça, Jake Colsen se depara com João, um homem que fala de Jesus como se O tivesse conhecido e que percebe a realidade de uma forma que desafia a visão tradicional de religião; e através deste desconhecido, Jake irá reavaliar os conceitos e crenças que norteavam seu caminho. “Levar uma vida cristã significa ter os comportamentos aprovados pelo grupo religioso a que pertencemos?” É uma pergunta-chave no livro.

Ora, com uma sinopse como esta, obviamente o livro logo chamou minha atenção, e cheguei a cogitar a possibilidade de comprá-lo algumas vezes, antes de efetivamente adquiri-lo. Finalmente, decidi matar a curiosidade e comprei-o em uma livraria evangélica próxima. Embora o livro traga alguns ensinamentos sem dúvida válidos, no sentido de levar-nos a uma reflexão sobre o Cristianismo que vivemos, cremos e ensinamos, muitas passagens da obra em questão realmente me decepcionaram. E quero neste espaço, compartilhar algumas de minhas inquietações após a leitura deste livro.

Em primeiro lugar, quero deixar claro que, em uma boa parte do livro o autor “acerta em cheio” sim, seja trazendo à luz um conceito bíblico explicado de maneira simples e didática, sendo lançando uma nova luz sobre algum ensinamento deveras complexo ou pouco compreendido das Escrituras. Portanto, não estou de forma alguma “des-recomendando” a leitura deste livro pelos cristãos evangélicos; até porque o conselho bíblico é: “Examinai tudo. Retende o bem.” (I Tessalonicenses 5:21). Porém, certamente não o recomendaria aos novos na fé, isto é, aqueles que experimentaram a conversão há pouco tempo e ainda estão recebendo os primeiros ensinamentos bíblicos, pois estes poderiam ser confundidos com algum conceito errôneo apresentado nesta obra, como por exemplos os que estarei comentando a seguir.

Embora em alguns momentos o discurso dos autores se mostra um tanto quanto retórico, meramente fraseológico, meio que “trocando seis por meia-dúzia”, o livro de Wayne Jacobsen e Dave Coleman se mostra indubitavelmente positivo em suas algumas de suas colocações, levando-nos a importantes reflexões a respeito do Cristianismo que pregamos e procuramos viver, que é o de um genuíno relacionamento com Deus:

É sobre a vida, a verdadeira vida de Deus preenchendo a sua. Pode ter certeza de que Ele está fazendo as coisas de um jeito que vai eliminar qualquer dúvida sobre a sua realidade. (…) Foi essa a vida que Jesus viveu, e ela foi suficiente para atender todas as necessidades com que Ele se deparou, desde dar de comer a multidões com dois peixes e cinco pães até curar uma mulher doente que tocou a barra de sua túnica. Essa vida não é uma mera ideia filosófica que se pode evocar pela meditação ou por alguma espécie de abstração teológica. É completude. É liberdade. É alegria e paz, não importa o que aconteça, mesmo que seu médico pronuncie uma palavra ameaçadora ao lhe dar o resultado de seu exame de ressonância magnética. É o tipo de vida que Jesus veio repartir com todos aqueles que se mostram capazes de desistir de tentar de controlar a própria vida para abraçar Sua proposta. A proposta de Jesus não é, com certeza, aquilo que tanta gente imagina, como dar duto no trabalho, reunir uma multidão de fiéis ou construir novos templos. Tem a ver com a vida que se pode enxergar, provar e tocar, algo que se pode desfrutar todos os dias.

Escrito em estilo romanceado (deixando claro que, não tenho absolutamente nada contra o uso de tal estilo na literatura cristã), o livro traz como um de seus protagonistas a figura de João, um cristão “desigrejado” (não ligado à nenhuma igreja institucional) que sai pelo país (no caso, os EUA) disseminando a sua doutrina, a sua visão particular da Bíblia e da pessoa de Jesus, inclusive entre os cristãos “igrejados” tais quais o outro personagem central da trama, Jake Colsen. Só por este fato, percebo aí uma tentativa não muito louvável de transmitir seu pensamento religioso discordante com os cristãos de igrejas institucionais. Uma expressão que nomeia este tipo de atitude, comum até nos dias de hoje, é a de “pescar em aquário dos outros”, isto é, ao invés de se pregar o Evangelho de Cristo às pessoas que ainda não O conhecem, ele “prega” aos crentes já convertidos, ligados a igrejas com teologias diversas da sua, uma prática chamada “proselitismo” (apesar de, neste caso, ser um proselitismo “às avessas”, isto é, visando “tirar” o crente de sua igreja institucional, o que acaba de fato acontecendo com Jake Colsen e sua família), prática esta completamente dispensável aos verdadeiros cristãos. Imagine você se a moda pega, e os crentes presbiterianos saem por ai tentando converter os batistas, ou vive-versa, e deixando de lado as pessoas que mais precisam ouvir a mensagem de conversão: os não-cristãos. Será que é isto que desejamos? Ou esta é a atitude a nós recomendada biblicamente?

O  livro em comento apresenta algumas evidentes contradições entre o “Jesus” apresentados por João, e o que nos é mostrado nas Sagradas Escrituras. Eis uma parte da descrição de Cristo feita por João:

Jesus não tinha nada de especial(1). Poderia andar por esta rua hoje e nenhum de vocês sequer O notaria(2) (…). Nunca intimidou ninguém(3), nunca chamou a atenção para Ele mesmo(4) nem fingiu gostar do que Lhe fazia mal à alma. Era autêntico até o amago do Seu ser.”

Não preciso nem dizer que discordo completamente da primeira frase destacada. Jesus era, obviamente, a Pessoa mais especial de todas no mundo. E ainda é. Pelo menos para nós, cristãos.

Será que se Ele andasse entre nós hoje nós sequer O notaríamos? Então, porque multidões e mais multidões O seguiam por toda a parte, onde quer que Ele fosse? Mesmo as pessoas que não concordavam com Seus ensinamentos, certamente O notaram; tanto que O perseguiram até conseguirem através de uma verdadeira conspiração, a Sua condenação. A Sua morte. E morte de Cruz.

Jesus nunca intimidou ninguém? E porque tinha tantos inimigos? Por acaso o termo “raça de víboras” (Mateus 3:7; 12:34; 23:33; Lucas 3:7) utilizado com frequência pelo Mestre para dirigir-se aos fariseus, era um elogio? Rsrs… E quanto aos mercadores no Templo? Não foram eles chamados  de “ladrões” (Marcos 11:17)? Isto não os intimidou, nem mesmo após ter Cristo destruído seus balcões de negócio na Casa de Deus? Francamente…

Jesus não chamou a atenção para Si mesmo? Os Evangelhos estão recheados de passagens que afirmam o contrário:

Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra autoridade para perdoar pecados (disse então ao paralítico): Levanta-te, toma a tua cama, e vai para tua casa.” (Mateus 9:6)

Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por seus filhos.” (Mateus 11:19)

Porque o Filho do homem até do sábado é Senhor. (…) Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra.” (Mateus 12:8,40)

E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” (Mateus 16:13).

Eis que vamos para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e condená-lo-ão à morte. (…)  Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.” (Mateus 20:18,28)

(…) Está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não houvera nascido. (…) Então chegou junto dos seus discípulos, e disse-lhes: Dormi agora, e repousai; eis que é chegada a hora, e o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores.” (Mateus 26:24,45)

“E começou a ensinar-lhes que importava que o Filho do homem padecesse muito, e que fosse rejeitado pelos anciãos e príncipes dos sacerdotes, e pelos escribas, e que fosse morto, mas que depois de três dias ressuscitaria.” (Marcos 8:31)

“Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem.” (Lucas 6:22)

“Desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de Deus.” (Lucas 22:69)

“E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado” (João 3:14)

“E Jesus lhes respondeu, dizendo: É chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado.(João 12:23)

Respondeu-lhe a multidão: Nós temos ouvido da lei, que o Cristo permanece para sempre; e como dizes tu que convém que o Filho do homem seja levantado? Quem é esse Filho do homem?” (João 12:34)

“Tendo ele, pois, saído, disse Jesus: Agora é glorificado o Filho do homem, e Deus é glorificado nele.(João 13:31) Etc., etc. e etc. …

Por conseguinte, o livro traz inúmeras críticas infundadas à igreja cristã evangélica institucional de uma forma geral, e inclusive dedica um capítulo inteiro a uma de suas instituições mais antigas  e frutíferas, que é a da Escola Bíblica Dominical (e em especial a educação cristã infantil). Posso dizer que, embora entenda alguns de seus questionamentos, a sua crítica é gratuita e desprovida de fundamento; ele faz um contraponto que simplesmente não existe: quando criança, Jack participou e venceu uma maratona de memorização versículos bíblicos. E João afirma que isto em nada contribuiu para que Jack conhecesse melhor o Pai. Ora, em primeiro lugar é obvio que a memorização de versículos, por si só, não garantem que você terá uma experiência com Deus, mas de maneira nenhuma impossibilita isto; pelo contrario, nós conhecemos a Deus através de Sua Palavra: tanto de Sua Palavra (ou Verbo) Viva, que é Cristo, quanto por Sua Palavra escrita, que é a Bíblia Sagrada. É esta a resposta para qualquer pessoa que pergunte: “Como eu posso conhecer a Deus?”. Eu diria a ela: “Em primeiro lugar, leia a Bíblia!” Pois é a Bíblia que aponta para o único Caminho que nos leva a Deus: Cristo Jesus. (João 14:6)

Outra passagem polêmica do livro é a controversa afirmação de João de que Cristianismo não tem nada a ver com ética. Jake arregala os olhos e pensa consigo mesmo: “Se não tinha nada a ver com ética, com o que teria?”. Confesso que me ocorreu exatamente o mesmo pensamento. Embora o diálogo que vem a seguir é um tanto quanto paradoxal, e também meio sem sentido, embora haja concordância minha em alguns pontos. Mas quero ater-me a essa “esdrúxula” afirmação:  “Cristianismo não tem nada a ver com ética.” Em primeiro lugar, entendamos que a Ética (do grego ethos, que significa modo de ser, caráter, comportamento) é o ramo do conhecimento que busca indicar o melhor modo de viver no cotidiano e na sociedade. Um dos princípios éticos basilares é o que devemos agir para com outrem da mesma forma como desejaríamos que os outros ajam para conosco. Jesus assim nos ensinou: “E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também.” (Lucas 6:31) Logicamente, o Cristianismo em muito ultrapassa o sentido ético deste preceito (mas, obviamente, não o invalida) quando nos ordena: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Marcos 12:31).

Em relação às críticas à igreja-instituição, é até aceitável que se questione muitas coisas que são, de fato, resultados das imperfeições humanas. Como qualquer instituição formada por pessoas, a igreja será sempre falha em alguns momentos, e o que se vê muitas vezes são propostas de “modelos alternativos”, que a meu ver, podem até visivelmente atenuar alguns problemas, mas definitivamente nada resolvem, como o próprio livro nos mostra em suas últimas páginas.  É o caso do modelo dos “sem-igreja” ou “desigrejados”, isto é, cristãos que se reúnem em casas, sem filiação alguma a determinada denominação evangélica, sem uma liderança estabelecida e sem uma “liturgia” formalmente  concebida.

Não cabe a mim julgar os que assim procedem, mas posso sem dúvida verificar alguns pontos críticos neste modelo. Por se reunirem em casas particulares, sempre estarão limitados a um pequeno número de possíveis comungantes, sendo pouco provável que até mesmo um vizinho adentre a estas reuniões sem um convite formalmente realizado. O mesmo problema não ocorre numa igreja local (templo), onde podem adentrar quaisquer pessoas e cultuar a Deus, independentemente de conhecer ou de manter amizade com alguém da referida comunidade. Os que se reúnem em casas correm o risco constante de que seus cultos se tornem meramente encontros sociais, o que acaba sendo incrementado pelas refeições que são servidas após os serviços religiosos. Certamente, as igrejas institucionais também correm o mesmo risco, porém em uma escala muito menor. Ademais, que mal há em algumas formalidades, tais como um número de registro no CNPJ, estatuto próprio, etc. conforme preconizam as nossas leis civis? Enfim, são questões tão insignificantes, mas que em nada desautorizam as igrejas institucionais (ou as “igrejas caseiras”) de serem legítimas representantes do Reino de Deus onde quer que elas estejam. O que importa não é tanto a forma, mas sim o conteúdo, ou seja, o que é pregado e vivido nestas comunidades cristãs. E logicamente que é possível viver o autêntico Cristianismo, congregando-se até mesmo milhares de pessoas em um determinado local; mas não é importante a quantidade de pessoas, mas sim, em nome de Quem nos reunimos. Jesus prometeu que onde quer que se reúnam duas ou três pessoas em Seu nome, ali Ele se faria presente! (Mateus 18:20) Glorifiquemos o Seu nome eternamente!

Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração. Dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Efésios 5:19,20)

Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele Dia.” (Hebreus 10:25) 

A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao SENHOR com graça em vosso coração.” (Colossenses 3:16)

Finalizando, vejo que muitas pessoas acabam enxergando em argumentos como os apresentados no livro a desculpa perfeita para não congregarem em igreja alguma. Longe de ser uma Fé a ser vivida solitariamente, o Cristianismo exige de nós uma co-participação em uma comunidade de fiéis, com os quais devemos ter comunhão e discipulado constantes. Por isto, o Senhor pensou na Igreja, um organismo vivo que vai muito além da instituição, e que gera vida entre os seus membros, os quais não podem viver e continuar gerando vida sem estarem todos bem ajustados:

Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor.” (Efésios 4:15,16)

Soli DEO Gloria!

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