segunda-feira, 16 de agosto de 2010

OS SEM-IGREJA…

por Marcos Soares

Amigos, os desprovidos se multiplicam. Primeiro vieram os sem-terra, depois os sem-teto, finalmente os sem-floresta. Agora chegaram os sem-igreja. Aqueles supostamente lutam por um pedaço de chão para plantar e colher. Digo “supostamente”, porque muitos deles nunca pegaram numa enxada na vida. Outros, mesmo depois de conseguirem o que pedem, continuam invadindo terra alheia, numa demonstração muito maior de banditismo do que de consciência social. Os sem-teto parecem ter mais coerência na suas reivindicações. Afinal, quando conseguem um teto, eles param debaixo dele e sossegam. Não viram especuladores imobiliários. Os sem-floresta, representados pelos personagens de um desenho animado, são os bichinhos expulsos de seu habitat pelo bicho-homem. E então surgiram no cenário os sem-igreja: aqueles que ainda acham que é possível ser crente em casa, que pregam que o importante é a sua relação com Deus e não com a igreja, que a igreja é uma instituição falida, hipócrita e intolerante, que eles preferem não ter compromisso com apenas uma igreja e todos os seus defeitos, mas freqüentar várias para tirar o que cada uma tem de melhor, que eles são “de Cristo” e isto basta e por aí segue. Este grupo não consigo entender bem.

Só sei que um fenômeno consoante ao pensamento da pós-modernidade, onde, mais do que nunca, cada cabeça é uma sentença, a verdade é uma questão individual, os absolutos não existem e a tolerância é sinônimo de abarcar qualquer conceito que se queira, já que o certo e o errado não existem (dependem da visão de cada um).

Nos anos 90, houve a proliferação dos Congressos e cruzeiros de pregadores famosos. Cada editora, entidade ou denominação fazia o seu nos hotéis de luxo, balneários e estâncias hidrominerais. Fora as viagens em Boeing fretado para Israel, batismo no rio Jordão e não sei mais o quê. Nessa época, eu trabalhava com livraria evangélica e era muito comum ver cristãos embasbacados na segunda-feira contando a “bênção que foi o Pastor Fulano”, a “unção do Bispo Cicrano” e assim por diante. O notável é que a maioria desses congressistas hibernava na terça-feira e só acordava às vésperas do próximo encontro. Pouco a pouco, alguns congressos acabaram ou perderam impacto. Seja porque o líder principal sofreu alguma síncope (como foi o caso dos Congressos da Vinde), outros começaram a ficar com medo de viajar para o Oriente por causa das guerras, outros viraram lugar-comum. Quando passou essa febre, sobrou pouca gente. Eram crentes de congresso.

Geramos uma geração que detesta compromisso. É muito mais fácil pagar o ingresso, ficar na arquibancada falando mal do técnico e depois ir embora para casa do que estar efetivamente envolvido no processo. Por isso, não tenho respeito por quem fala mal da igreja, aponta erros, mesmo que existentes, pratica o denuncismo vazio, se o sujeito não está pelo menos ligado a uma igreja. Se ele não diz a que veio, não faz sentido reclamar. Isso é tão hipócrita quanto a hipocrisia que ele pretende denunciar. Não digo isso como uma mera opinião. Penso assim por pelo menos quatro razões.

Primeiro, porque a igreja é uma instituição divina. Como tal, não pode estar falida. É como o casamento: embora a sociedade o ridicularize e diga que o casamento é uma massa falida, somos obrigados como gente da fé a nos levantar e dizer “não, senhores: falidos estamos nós, por causa do nosso orgulho, egoísmo e hedonismo.” O problema não é com o casamento, é com os casados.

Ciente de que contrario aqui a opinião de muitos dos meus queridos leitores, não gosto da postura de gente como Philip Yancey, que escreve livros como “Sou Cristão, Apesar da Igreja”. Se a Igreja pudesse escrever um livro, ela bem possivelmente diria “Sou Igreja, Apesar dos Cristãos”. A igreja não é uma mera instituição religiosa. Não é composta de convenções, sedes, organizações jurídicas, redes de franchising ou centrais de “aclamações apostólicas”. A igreja somos nós. Por isso, não adianta falar da igreja como se fosse uma entidade, uma terceira pessoa, aquela “de quem se fala”. Essa idéia de que posso ser cristão à parte deste processo é falsa. Se sou mesmo cristão, faço parte direta e visceralmente da coisa toda.

Segundo, porque Jesus ensinou que quem não quer compromisso na terra, não pode ter compromisso no céu. Você não precisa ser membro de uma igreja para ser salvo. Para isto basta crer no Senhor Jesus. Porém, como diria Arnaldo César Coelho, a regra é clara: se você já é salvo pelo sangue do Cordeiro, precisa estar em conexão com uma igreja local. Caso contrário, sua comunhão com Deus estará interrompida. Ser ligado na terra é estar em comunhão com os que são de Deus. Foi o que ele disse quando afirmou “o que ligardes na terra será ligado no céu e o que desligardes na terra será desligado no céu”. Ouço muita gente dizendo que para estar bem com Deus não é preciso estar em uma igreja, que isso é secundário, que o que importa é a sua devoção pessoal. Não, segundo este versículo. Esta é uma situação impossível. Quem está em comunhão com Deus necessariamente precisa estar em comunhão com seus irmãos. E a prática comprova a teoria. Quem diz esse tipo de coisa, invariavelmente não está nada bem com Deus. Usa isso como desculpa para justificar sua falta de compromisso. O que o apóstolo João disse sobre o amor é válido também para a comunhão: se você não ama a seu irmão a quem você vê, como pode amar a Deus a quem você não vê?

Terceiro, porque se todo mundo pensar assim, quem vai sobrar para cuidar de uma igreja? É muito cômoda a posição de “usuário”. Você vai à igreja “x” por causa do louvor, à igreja “y” por causa dos estudos bíblicos, à igreja “z” porque a reunião de oração é mais animada e à igreja “w” porque celebra a Ceia do Senhor de um jeito mais legal. Ótimo. Só que você se esquece de que a igreja “x” só tem um louvor bacana, bem ensaiado e inspirador porque um grupo de abnegados está ensaiando o domingo inteiro enquanto você assiste ao Campeonato Brasileiro na TV ou toma um banho de sol à beira da piscina. A igreja “y” tem bons estudos bíblicos porque pastores e mestres gastam horas em cima de um texto, pesquisando a internet ou lendo comentários enquanto você se esparrama no sofá para assistir o Jornal Nacional ou para ler a revista Veja (argh! Que mau gosto!!). Se todo mundo pensar que pode pular de galho em galho ao fragor de seus gostos pessoais, não ficaria ninguém para tomar conta da garrafa. Por isso é que eu digo que não respeito quem diz e age assim. São parasitas. São como ciganos ou hippies, que criticam o sistema para não pagar impostos, mas se utilizam das estradas, da eletricidade, da água encanada e de tudo mais que o sistema criticado lhes ofereça. Não é que o sistema seja perfeito e não tenha suas injustiças. É que eles mesmos não estão dispostos a mover uma palha para ajudar a consertar.

Quarto, porque esta onda que ganha, por óbvios motivos, cada vez mais adeptos, é uma tendência que desvirtua a graça de Deus. Virou moda agora criticar a igreja e depois sair para comunidades livres, descomprometidas com uma caminhada de mutualidade. Em geral, essa atitude é gerada por pessoas que cometem seus deslizes e depois se recusam a submeter-se ao devido tratamento. Entram naquela de “se alguém nunca errou, que atire a primeira pedra”, como se isso justificasse seus próprios erros. Erram quando tentam defender uma graça que aceita tudo, perdoa tudo, restaura tudo, que dá uma chance para um novo começo e ponto final. Esta não é a graça da Bíblia. A graça de Deus, ao invés deste ponto, coloca uma vírgula. O amor de Deus é incondicional. Mas o perdão de Deus não é. Para ser perdoado, o pecador precisa aceitar os termos que Deus estabelece. Não há perdão de pecado sem confissão e arrependimento. E tem muita gente querendo que a igreja engula seus podres e passe por cima deles, sem que passem pelo processo necessário para esta restauração. Obviamente que há pecado e pecado. Nem todo pecado deve ser tratado da mesma maneira. Não entro aqui neste mérito. Mas quando, em nome da graça, começo a ver gente como Yancey dizendo que a igreja não pode julgar o homossexualismo - entenda-se por “julgar” chamar homossexualismo de pecado e abominação diante de Deus, como a Bíblia o faz -, percebo o que está na raiz deste movimento. Outro dia, um famoso cantor e compositor cristão brasileiro deixou a mulher, foi viver com outra e queria que a igreja não fizesse nada. Tudo em nome da graça. Desculpem, mas nessa eu não entro.

Não preciso defender a igreja. Seu Noivo a defenderá melhor do que eu. Mas deixo claro para a geração que me lê, mesmo correndo o risco de ser rotulado, que continuo crendo na Igreja do Deus vivo como a única coluna e baluarte da verdade. A única referência para um mundo pluralista, rebelde e pagão. Faço minhas as palavras do Credo Apostólico: “Eu creio na igreja, pura, santa e verdadeira”.

O resto é balela de recalcados.

Fonte: http://www.irmaos.com/artigos/index.php?id=1397

terça-feira, 10 de agosto de 2010

PENTECOSTAL DECENTE

Por: Marcelo Lemos

bl_pent_decenteGosto muito do Orkut. Ultimamente tenho andado menos tempo no site de relacionamento, porém, em dias idos, era ali o lugar onde minhas reflexões se tornavam públicas; e também onde travei inúmeros debates sobre os mais variados temas teológicos, e até mesmo políticos – ferrenho inimigo que sou do comunismo e de suas principais vertentes socialistas, criei alguns desafetos com gente ligada ao PT, Governo Lula, MST, e por aí vai…

Um dia desses, surfando ‘de bobeira’ pela página que lista as comunidades das quais sou membro, me deparei com um nome bem sugestivo, e do qual não mais recordava: “Pentecostal Decente”. Não pude deixar de rir com meus botões ao me dar conta da mensagem subliminar por trás da nomenclatura. Quem idealizou a comunidade, e provavelmente todos que a ela se filiaram, assumem que há algo de errado no atual uso do termo “pentecostal”; sim, de outra forma a escolha do título não faria o menor sentido.

A expressão ‘pentecostal decente’, nos fala que há pentecostais indecentes, seja lá qual for o critério que cada um utiliza para tal conclusão. E eu posso imaginar, e ser solidário, com vários possíveis critérios.

Existe um pentecostalismo indecente que transforma manias culturais em dogmas de fé. Foi dentro de um pentecostalismo assim que eu fui criado. Trata-se de uma religião de culpa e medo, que domina a consciência das pessoas por meio do legalismo religioso. Não pretendo descrever os abusos espirituais que presenciei, até porque, todas as vezes que tendei comentar o assunto, muitos imaginaram que eu estava apenas sendo rancoroso. O caso é que este tipo de pentecostalismo, ou melhor, de religião indecente, causa grandes prejuízos emocionais e culturais para a sociedade como um todo. E como toda falsa religião, deve ser sumariamente combatido.

Existe um pentecostalismo indecente que transforma a defesa da fé em sectarismo religioso. Você sabia que muitos pentecostais não interagem com cristãos de outras confissões? Do mesmo modo que muitos fundamentalistas consideram os demais cristãos como apostatas; alguns pentecostais pretendem fazer crer que o resto da cristandade não possui o Espírito Santo, a salvação, a santidade… Por incrível que pareça, existem ministérios dentro das Assembleia de Deus – só para dar um exemplo – que não interagem com outros ministérios dentro da própria Assembleia de Deus, mesmo que os dois pertençam à mesma convenção nacional! Talvez elas tenham bons motivos para o sectarismo, como por exemplo, uma aceita o uso de brincos, e a outra não…

Existe um pentecostalismo indecente que converte a experiência pentecostal em misticismo antibíblico, e portanto, irracional. E aqui eu incluo todas as vertentes pseudopentecostais que mistificaram rituais, pessoas, objetos, campanhas, frases… O leitor certamente conhece alguém que segue a cartilha mística. Pode ser aquele seu vizinho que colou na porta de casa o diploma de dizimista; ou o pessoal da casa da frente que antes de viajar nunca deixa de ouvir “uma palavra de Deus” com a profetisa da rua de cima, e assim por diante.

Existe um pentecostalismo indecente que convence os incautos de que o conhecimento bíblico pode ser perigoso. Esta é uma das formas mais blasfemas de falsa religião, e está intimamente ligada ao misticismo do qual falamos no parágrafo anterior. Neste pecado caem até mesmo diversos ministros do pentecostalismo clássico, que mesmo combativos aos misticismos da moda, não resistem a clichês do tipo: “Hoje não vim falar de teologia com vocês, eu vim lhes trazer uma mensagem do céu”. Toda vez que ouço alguém falando coisas assim, e normalmente estão sobre o púlpito quanto assim procedem, tenho vontade de vomitar. Uma pessoa, ou instituição, que se acha no direito de desdenhar o conhecimento de Deus que se adquire por meio de Sua Palavra, não é digna de ser chamada de cristã.

Existe um pentecostalismo indecente que alugou seus púlpitos como barraquinha de votos. Não sou contra política, muito pelo contrário. Sou, aliás, da opinião de que boa parte dos ministros brasileiros é politicamente covarde, e vendida a qualquer um que esteja no Governo. E é exatamente por tal covardia, aliada a um crescente mercantilismo, que muitos líderes oferecem suas ovelhas aos lobos de gravata. Não sou profeta, mas posso perfeitamente prever o que acontecerá no ano que vem, e nos anos que virão: muitos candidatos sendo convidados a sentarem no púlpito, enquanto recebem orações, elogios e agradecimentos!

A Igreja deve se envolver com política? Deve, ou melhor, tem obrigação de fazê-lo! Mas, é aqui que mora o problema: a maioria dos ministros evangélicos, incluindo pentecostais, não faz política, faz negócio…

Existe um pentecostalismo indecente que gerou a consagração por nepotismo. Como muitos líderes pentecostais, e pseudo-pentecostais, imaginam que são os coronéis deste ou daquele ministério, nada mais natural que lutem para perpetuar a herança familiar! Nada mais justo, não é mesmo? E é aqui que entra o nepotismo ministerial… Não importa se o rapaz esteve até ontem fora da Igreja, frequentando motéis, bordeis e orgias mil – o que importa é que hoje ele foi ‘escolhido’ pelo Senhor para assumir alguma liderança da Igreja. E, temos visto, não é incomum, que algum ‘profeta’ valide a decisão, com alguma oportuna ‘mensagem do céu’

Filho de pastor pode ser pastor? Pode, é perfeitamente possível. Filho de pastor é pastor? Não, é peixe, e na peixada pode garantir seu lugar ao sol, mas não é por consanguinidade pastor.

Existe um pentecostalismo indecente que substituiu a experiência carismática por técnicas de manipulação. Constate isso visitando alguns congressos famosos, sempre prestigiados por grandes (sic) e também famosos pregadores… Observem que boa parte dos pregadores não se contenta mais em falar de Cristo, e nem de gritar sobre Cristo! Agora eles têm descoberto uma nova, e muito mais rentável vocação: animadores de auditório. Algumas vezes eu fico cansado só de ver as pessoas obedecerem a determinados pregadores. Levante, sente, bata palma, fale com o vizinho, abrace o da frente, feche a mão, abra a mão, estenda a mão, recolha a mão, grite, feche os olhos, veja o anjo, veja a tocha, bata o pé, pise no Encardido, dê um salto, repita comigo, mais alto, repita novamente… Ufa!

Aqui entre nós: – diversas vezes fico duplamente constrangido, por mim, e por alguns pregadores. Mas, qual minha culpa se eles acham que tenho obrigação de obedecer as suas macaquices? Não senhores; não tenho tal obrigação! Tenho obrigação e gosto em ouvir a Palavra de Deus, mas não de ficar participando de técnicas motivacionais. Por isso, já deixo o meu aviso: nunca se dirijam a mim solicitando algum malabarismo, eu não farei; os únicos ‘exercícios físicos’ que faço na Igreja são: ajoelhar ao entrar no templo, caminhar para o púlpito quando é o caso, colocar-me em pé para as intercessões, levar a mão ao bolso para a oferta (e só quando tenho), levantar-me para a Leitura, e estender a mão para a Benção Apostólica.

Não é confortável falar sobre o erro que vemos diante de nós, até porque estou certo que todos desejamos uma Igreja fiel e comprometida com a Palavra do Senhor. Criticar é sempre uma tarefa dolorida. Ouvi alguém dizer que quando criticamos alguma coisa na Igreja, devemos sempre ter em mente que ela é a Noiva de Cristo, e que nenhum esposo aceitaria afrontas contra a sua Amada; de modo que o único modo de criticar a Igreja é com lágrimas nos olhos…

E, não poderia ser diferente, são lágrimas que nos assaltam a alma todas as vezes que estes erros se apresentam, e todas as vezes que se fazem combater. Que nenhuma critica seja dirigida ao povo de Deus, como se falássemos de uma coisa qualquer, antes, na certeza de que o Senhor “corrige o que ama; e açoita a qualquer que recebe por filho” (Hebreus 12.6).

Paz e bem.

Fonte: http://olharreformado.wordpress.com/2009/08/08/pentec ostal-decente/

domingo, 1 de agosto de 2010

IGREJA (2)

123Recentemente concluí a leitura de um dos livros mais lidos e indicados no meio evangélico e secular. Trata-se da obra “Por que você não quer mais ir à igreja?”, de Wayne Jacobsen e Dave Coleman. O livro conta a estória de um cristão comum, como eu e você, mas que depois de toda uma vida dedicando-se à Igreja e ao caminho que sempre lhe pareceu o correto, ficou diante de uma dolorosa dúvida: “Como é possível ser cristão há tanto tempo e, ainda assim, sentir-se tão vazio?” Então, num certo dia, observando uma multidão numa praça, Jake Colsen se depara com João, um homem que fala de Jesus como se O tivesse conhecido e que percebe a realidade de uma forma que desafia a visão tradicional de religião; e através deste desconhecido, Jake irá reavaliar os conceitos e crenças que norteavam seu caminho. “Levar uma vida cristã significa ter os comportamentos aprovados pelo grupo religioso a que pertencemos?” É uma pergunta-chave no livro.

Ora, com uma sinopse como esta, obviamente o livro logo chamou minha atenção, e cheguei a cogitar a possibilidade de comprá-lo algumas vezes, antes de efetivamente adquiri-lo. Finalmente, decidi matar a curiosidade e comprei-o em uma livraria evangélica próxima. Embora o livro traga alguns ensinamentos sem dúvida válidos, no sentido de levar-nos a uma reflexão sobre o Cristianismo que vivemos, cremos e ensinamos, muitas passagens da obra em questão realmente me decepcionaram. E quero neste espaço, compartilhar algumas de minhas inquietações após a leitura deste livro.

Em primeiro lugar, quero deixar claro que, em uma boa parte do livro o autor “acerta em cheio” sim, seja trazendo à luz um conceito bíblico explicado de maneira simples e didática, sendo lançando uma nova luz sobre algum ensinamento deveras complexo ou pouco compreendido das Escrituras. Portanto, não estou de forma alguma “des-recomendando” a leitura deste livro pelos cristãos evangélicos; até porque o conselho bíblico é: “Examinai tudo. Retende o bem.” (I Tessalonicenses 5:21). Porém, certamente não o recomendaria aos novos na fé, isto é, aqueles que experimentaram a conversão há pouco tempo e ainda estão recebendo os primeiros ensinamentos bíblicos, pois estes poderiam ser confundidos com algum conceito errôneo apresentado nesta obra, como por exemplos os que estarei comentando a seguir.

Embora em alguns momentos o discurso dos autores se mostra um tanto quanto retórico, meramente fraseológico, meio que “trocando seis por meia-dúzia”, o livro de Wayne Jacobsen e Dave Coleman se mostra indubitavelmente positivo em suas algumas de suas colocações, levando-nos a importantes reflexões a respeito do Cristianismo que pregamos e procuramos viver, que é o de um genuíno relacionamento com Deus:

É sobre a vida, a verdadeira vida de Deus preenchendo a sua. Pode ter certeza de que Ele está fazendo as coisas de um jeito que vai eliminar qualquer dúvida sobre a sua realidade. (…) Foi essa a vida que Jesus viveu, e ela foi suficiente para atender todas as necessidades com que Ele se deparou, desde dar de comer a multidões com dois peixes e cinco pães até curar uma mulher doente que tocou a barra de sua túnica. Essa vida não é uma mera ideia filosófica que se pode evocar pela meditação ou por alguma espécie de abstração teológica. É completude. É liberdade. É alegria e paz, não importa o que aconteça, mesmo que seu médico pronuncie uma palavra ameaçadora ao lhe dar o resultado de seu exame de ressonância magnética. É o tipo de vida que Jesus veio repartir com todos aqueles que se mostram capazes de desistir de tentar de controlar a própria vida para abraçar Sua proposta. A proposta de Jesus não é, com certeza, aquilo que tanta gente imagina, como dar duto no trabalho, reunir uma multidão de fiéis ou construir novos templos. Tem a ver com a vida que se pode enxergar, provar e tocar, algo que se pode desfrutar todos os dias.

Escrito em estilo romanceado (deixando claro que, não tenho absolutamente nada contra o uso de tal estilo na literatura cristã), o livro traz como um de seus protagonistas a figura de João, um cristão “desigrejado” (não ligado à nenhuma igreja institucional) que sai pelo país (no caso, os EUA) disseminando a sua doutrina, a sua visão particular da Bíblia e da pessoa de Jesus, inclusive entre os cristãos “igrejados” tais quais o outro personagem central da trama, Jake Colsen. Só por este fato, percebo aí uma tentativa não muito louvável de transmitir seu pensamento religioso discordante com os cristãos de igrejas institucionais. Uma expressão que nomeia este tipo de atitude, comum até nos dias de hoje, é a de “pescar em aquário dos outros”, isto é, ao invés de se pregar o Evangelho de Cristo às pessoas que ainda não O conhecem, ele “prega” aos crentes já convertidos, ligados a igrejas com teologias diversas da sua, uma prática chamada “proselitismo” (apesar de, neste caso, ser um proselitismo “às avessas”, isto é, visando “tirar” o crente de sua igreja institucional, o que acaba de fato acontecendo com Jake Colsen e sua família), prática esta completamente dispensável aos verdadeiros cristãos. Imagine você se a moda pega, e os crentes presbiterianos saem por ai tentando converter os batistas, ou vive-versa, e deixando de lado as pessoas que mais precisam ouvir a mensagem de conversão: os não-cristãos. Será que é isto que desejamos? Ou esta é a atitude a nós recomendada biblicamente?

O  livro em comento apresenta algumas evidentes contradições entre o “Jesus” apresentados por João, e o que nos é mostrado nas Sagradas Escrituras. Eis uma parte da descrição de Cristo feita por João:

Jesus não tinha nada de especial(1). Poderia andar por esta rua hoje e nenhum de vocês sequer O notaria(2) (…). Nunca intimidou ninguém(3), nunca chamou a atenção para Ele mesmo(4) nem fingiu gostar do que Lhe fazia mal à alma. Era autêntico até o amago do Seu ser.”

Não preciso nem dizer que discordo completamente da primeira frase destacada. Jesus era, obviamente, a Pessoa mais especial de todas no mundo. E ainda é. Pelo menos para nós, cristãos.

Será que se Ele andasse entre nós hoje nós sequer O notaríamos? Então, porque multidões e mais multidões O seguiam por toda a parte, onde quer que Ele fosse? Mesmo as pessoas que não concordavam com Seus ensinamentos, certamente O notaram; tanto que O perseguiram até conseguirem através de uma verdadeira conspiração, a Sua condenação. A Sua morte. E morte de Cruz.

Jesus nunca intimidou ninguém? E porque tinha tantos inimigos? Por acaso o termo “raça de víboras” (Mateus 3:7; 12:34; 23:33; Lucas 3:7) utilizado com frequência pelo Mestre para dirigir-se aos fariseus, era um elogio? Rsrs… E quanto aos mercadores no Templo? Não foram eles chamados  de “ladrões” (Marcos 11:17)? Isto não os intimidou, nem mesmo após ter Cristo destruído seus balcões de negócio na Casa de Deus? Francamente…

Jesus não chamou a atenção para Si mesmo? Os Evangelhos estão recheados de passagens que afirmam o contrário:

Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra autoridade para perdoar pecados (disse então ao paralítico): Levanta-te, toma a tua cama, e vai para tua casa.” (Mateus 9:6)

Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por seus filhos.” (Mateus 11:19)

Porque o Filho do homem até do sábado é Senhor. (…) Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra.” (Mateus 12:8,40)

E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” (Mateus 16:13).

Eis que vamos para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e condená-lo-ão à morte. (…)  Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.” (Mateus 20:18,28)

(…) Está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não houvera nascido. (…) Então chegou junto dos seus discípulos, e disse-lhes: Dormi agora, e repousai; eis que é chegada a hora, e o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores.” (Mateus 26:24,45)

“E começou a ensinar-lhes que importava que o Filho do homem padecesse muito, e que fosse rejeitado pelos anciãos e príncipes dos sacerdotes, e pelos escribas, e que fosse morto, mas que depois de três dias ressuscitaria.” (Marcos 8:31)

“Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem.” (Lucas 6:22)

“Desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de Deus.” (Lucas 22:69)

“E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado” (João 3:14)

“E Jesus lhes respondeu, dizendo: É chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado.(João 12:23)

Respondeu-lhe a multidão: Nós temos ouvido da lei, que o Cristo permanece para sempre; e como dizes tu que convém que o Filho do homem seja levantado? Quem é esse Filho do homem?” (João 12:34)

“Tendo ele, pois, saído, disse Jesus: Agora é glorificado o Filho do homem, e Deus é glorificado nele.(João 13:31) Etc., etc. e etc. …

Por conseguinte, o livro traz inúmeras críticas infundadas à igreja cristã evangélica institucional de uma forma geral, e inclusive dedica um capítulo inteiro a uma de suas instituições mais antigas  e frutíferas, que é a da Escola Bíblica Dominical (e em especial a educação cristã infantil). Posso dizer que, embora entenda alguns de seus questionamentos, a sua crítica é gratuita e desprovida de fundamento; ele faz um contraponto que simplesmente não existe: quando criança, Jack participou e venceu uma maratona de memorização versículos bíblicos. E João afirma que isto em nada contribuiu para que Jack conhecesse melhor o Pai. Ora, em primeiro lugar é obvio que a memorização de versículos, por si só, não garantem que você terá uma experiência com Deus, mas de maneira nenhuma impossibilita isto; pelo contrario, nós conhecemos a Deus através de Sua Palavra: tanto de Sua Palavra (ou Verbo) Viva, que é Cristo, quanto por Sua Palavra escrita, que é a Bíblia Sagrada. É esta a resposta para qualquer pessoa que pergunte: “Como eu posso conhecer a Deus?”. Eu diria a ela: “Em primeiro lugar, leia a Bíblia!” Pois é a Bíblia que aponta para o único Caminho que nos leva a Deus: Cristo Jesus. (João 14:6)

Outra passagem polêmica do livro é a controversa afirmação de João de que Cristianismo não tem nada a ver com ética. Jake arregala os olhos e pensa consigo mesmo: “Se não tinha nada a ver com ética, com o que teria?”. Confesso que me ocorreu exatamente o mesmo pensamento. Embora o diálogo que vem a seguir é um tanto quanto paradoxal, e também meio sem sentido, embora haja concordância minha em alguns pontos. Mas quero ater-me a essa “esdrúxula” afirmação:  “Cristianismo não tem nada a ver com ética.” Em primeiro lugar, entendamos que a Ética (do grego ethos, que significa modo de ser, caráter, comportamento) é o ramo do conhecimento que busca indicar o melhor modo de viver no cotidiano e na sociedade. Um dos princípios éticos basilares é o que devemos agir para com outrem da mesma forma como desejaríamos que os outros ajam para conosco. Jesus assim nos ensinou: “E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também.” (Lucas 6:31) Logicamente, o Cristianismo em muito ultrapassa o sentido ético deste preceito (mas, obviamente, não o invalida) quando nos ordena: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Marcos 12:31).

Em relação às críticas à igreja-instituição, é até aceitável que se questione muitas coisas que são, de fato, resultados das imperfeições humanas. Como qualquer instituição formada por pessoas, a igreja será sempre falha em alguns momentos, e o que se vê muitas vezes são propostas de “modelos alternativos”, que a meu ver, podem até visivelmente atenuar alguns problemas, mas definitivamente nada resolvem, como o próprio livro nos mostra em suas últimas páginas.  É o caso do modelo dos “sem-igreja” ou “desigrejados”, isto é, cristãos que se reúnem em casas, sem filiação alguma a determinada denominação evangélica, sem uma liderança estabelecida e sem uma “liturgia” formalmente  concebida.

Não cabe a mim julgar os que assim procedem, mas posso sem dúvida verificar alguns pontos críticos neste modelo. Por se reunirem em casas particulares, sempre estarão limitados a um pequeno número de possíveis comungantes, sendo pouco provável que até mesmo um vizinho adentre a estas reuniões sem um convite formalmente realizado. O mesmo problema não ocorre numa igreja local (templo), onde podem adentrar quaisquer pessoas e cultuar a Deus, independentemente de conhecer ou de manter amizade com alguém da referida comunidade. Os que se reúnem em casas correm o risco constante de que seus cultos se tornem meramente encontros sociais, o que acaba sendo incrementado pelas refeições que são servidas após os serviços religiosos. Certamente, as igrejas institucionais também correm o mesmo risco, porém em uma escala muito menor. Ademais, que mal há em algumas formalidades, tais como um número de registro no CNPJ, estatuto próprio, etc. conforme preconizam as nossas leis civis? Enfim, são questões tão insignificantes, mas que em nada desautorizam as igrejas institucionais (ou as “igrejas caseiras”) de serem legítimas representantes do Reino de Deus onde quer que elas estejam. O que importa não é tanto a forma, mas sim o conteúdo, ou seja, o que é pregado e vivido nestas comunidades cristãs. E logicamente que é possível viver o autêntico Cristianismo, congregando-se até mesmo milhares de pessoas em um determinado local; mas não é importante a quantidade de pessoas, mas sim, em nome de Quem nos reunimos. Jesus prometeu que onde quer que se reúnam duas ou três pessoas em Seu nome, ali Ele se faria presente! (Mateus 18:20) Glorifiquemos o Seu nome eternamente!

Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração. Dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Efésios 5:19,20)

Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele Dia.” (Hebreus 10:25) 

A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao SENHOR com graça em vosso coração.” (Colossenses 3:16)

Finalizando, vejo que muitas pessoas acabam enxergando em argumentos como os apresentados no livro a desculpa perfeita para não congregarem em igreja alguma. Longe de ser uma Fé a ser vivida solitariamente, o Cristianismo exige de nós uma co-participação em uma comunidade de fiéis, com os quais devemos ter comunhão e discipulado constantes. Por isto, o Senhor pensou na Igreja, um organismo vivo que vai muito além da instituição, e que gera vida entre os seus membros, os quais não podem viver e continuar gerando vida sem estarem todos bem ajustados:

Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor.” (Efésios 4:15,16)

Soli DEO Gloria!