sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O Verdadeiro Natal

Porque um Menino nos nasceu, e um Filho se nos deu, e o reino está sobre os Seus ombros, e o Seu nome será: ‘Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz’.” (Isaías 9:6)

Ao se aproximar o final do ano, começam os preparativos para a celebração alusiva ao nascimento do Salvador do mundo. A origem dessa festividade é polêmica, e muitos cristãos enxergam nela elementos do paganismo e da cultura romana pré-cristã; alguns vão ainda mais longe e enxergam em alguns de seus símbolos verdadeira transgressão ao segundo Mandamento. Observamos ainda que, para alguns, não se trata de simples ressalva à comemoração natalina, e sim a uma completa rejeição à sua celebração, sob o mais astuto dos argumentos: Cristo não nos teria ordenado comemorar o Seu nascimento, e sim, apenas a Sua morte e ressurreição (através da instituição da Santa Ceia). Tal argumento não merece grande consideração, uma vez que as Escrituras também não prescrevem explicitamente uma série de coisas, e não obstante nós as fazemos e temos como tais coisas boas e agradáveis, e dignas de louvor, sendo portanto lícitas de acordo com os princípios bíblicos (Filipenses 4:8).

Feita essa consideração inicial, entendemos que a celebração do Natal como importante festa no calendário cristão faz parte da vida comunitária na maioria das igrejas cristãs da atualidade. É comum em muitas igrejas a realização de várias programações alusivas a esta data, variando conforme a identidade confessional de cada denominação. De qualquer forma, essa data é marcada anualmente pela alegria e confraternização das famílias e amigos, que geralmente se reúnem na véspera de Natal para um jantar especial seguido de trocas de presentes e de muitos abraços. Esta certamente tem sido uma alegria memorável para muitos seguidores de Jesus de Nazaré em todas as gerações.

Mas temos que nos perguntar qual tem sido o principal motivador para esta festa? É certo que para muitos se trata de mera tradição, e para outros um simples catalisador comercial. Nessa época, certamente acontece um grande aquecimento nas vendas, onde muitas vezes o foco da celebração se perde em meio ao interesse insensato de obtenção de lucros e de vantagens indevidas. Nem por isso devemos deixar de comemorar essa tão importante data, e nosso dever como cristãos é o de realinhá-la ao seu propósito primordial de anunciar ao mundo que o Salvador veio, veio em carne, andou por onde nós andamos, se vestiu e viveu como um dos nossos, e não maculou-se com a corrupção desse mundo, antes veio servir de modelo de perfeita dignidade perante Deus.

Há uma rica tradição protestante de se oferecer à comunidade nessa época as centenárias peças musicais natalinas, e que a cada ano vêm com novos arranjos musicais, e eventualmente acompanhadas de encenações teatrais e coreográficas retratando os acontecimentos que culminaram no nascimento de Cristo, há mais de dois mil anos atrás. As cantatas de Natal são riquíssimas oportunidades de se enriquecer a comunhão entre os membros da igreja local, pois estão lado a lado às apresentações dos solistas, dos corais, todos os que dedicam os seus dons e talentos especiais, quer sejam na elaboração dos textos, de figurinos, cenários, na iluminação ou na sonoplastia, e é certamente que na união de todos que se viabiliza uma apresentação de musical natalino que se tornará inesquecível a todos. Além disso, trata-se de uma importantíssima ferramenta evangelizadora. Através das cantatas muitas pessoas têm se encontrado com Cristo, aceitando-O como Seu Salvador pessoal, e devotando-lhe completamente a sua vida e a sua existência.

O texto de Isaías 9:6 que citamos no início vem como uma forte inspiração a tudo isso. Afinal de contas, é porque Ele nasceu, é porque Ele veio ao mundo, ainda como um Bebê, humilde, nascido num estábulo, que nós hoje podemos celebrar a vida nova que temos através da fé no Filho de Deus. E não nos importa nenhum pouco que esta data não seja precisamente a data do Seu nascimento, pois é certo que Ele nasceu, em algum dia do ano, e é porque Ele nasceu, cresceu, exerceu Seu ministério, curou enfermos e expulsou demônios, morreu na Cruz e ressuscitou ao terceiro dia, ascendeu aos céus e enviou em seguida o Seu Espírito Santo sobre a Sua igreja, que hoje nós podemos nos alegrar em sermos Cristãos. E é essa alegria que devemos partilhar com as demais pessoas, quer seja através do nosso testemunho, quer seja pela pregação do Evangelho, quer seja pela música ou qualquer outra forma de arte.

Que a lembrança da “Noite Feliz” nos faça meditar sobre o verdadeiro sentido do Natal, que o Natal é o próprio Senhor Jesus Cristo, nascendo Homem! Que o glorioso mistério da Encarnação nos envolva, desperte em nós verdadeira paixão evangelizadora e nos impulsione mais ainda a bradar aos habitantes da Terra:

♪ “Povos, cantai: nasceu Jesus / Saudai o grande Rei! / Sim, todo ser que respirar, / Alegres adorai, alegres adorai / Rendei louvor ao nosso Rei!” ♫

Soli Deo Gloria.


*Texto publicado também no Jornal Há Esperança 19ª Edição (página 14), de Montes Claros-MG, mantido pela Web Rabio Há Esperança.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Da Importância do Debate Teológico


Quem diz que debater Teologia não é importante, geralmente diz isso porque não consegue enxergar nela nenhuma aplicação prática. Consideram a Teologia algo para saciar a sede de nossa curiosidade intelectual, algo que supostamente 'esfria o fogo' da verdadeira fé e distrai o foco de coisas mais importantes. O que eles esquecem é que, intrinsecamente, o estudo da Teologia cristã existe em função da ética e vida cristãs. Em outras palavras, a Teologia é uma ciência prática e precisa ser entendida dessa forma.

Nessa perspectiva, o debate histórico de calvinistas e arminianos ou a discussão em torno do neopentecostalismo (tomemos os exemplos mais populares) torna-se útil. Veja, leitor, não estou dizendo que esses debates são imprescindíveis à salvação (até porque não somos salvos por ter uma confissão de fé ortodoxa, mas pela graça, mediante a fé) ou que conhecer e se posicionar quanto a isso é essencial à vida cristã. Estou dizendo que esse tipo de debate é útil, por pelo menos duas razões, descritas a seguir.

Em primeiro lugar, esse debate é útil porque, como já foi dito e deverá ser melhor desenvolvido, a teologia é uma ciência prática. E é prática porque - de forma natural - gera em nós um tipo de espiritualidade, que gera um tipo de vivência. A posição calvinista gera um tipo de espiritualidade, que gera um tipo de vivência; da mesma forma que a posição arminiana gera um tipo de espiritualidade, gerando um tipo de vivência. Alguns amigos meus arminianos costumam dizer que "os calvinistas missionários ou evangelistas não parecem levar seu calvinismo tão a sério assim". Afinal de contas, se você entende que os eleitos vão ser irresistivelmente salvos, você pregando ou não; e que os não-eleitos vão ser incondicionalmente condenados, você pregando ou não: qual seria a real importância de você sair de sua zona de conforto, indo até um lugar terrivelmente distante a fim de pregar o Evangelho? Quem percebe isso é o pastor anglicano e teólogo arminiano John Wesley, em seu sermão intitulado "Graça Livre". O alvo de Wesley, nesse sermão, é criticar a teoria calvinista, com base na conclusão lógica de sua prática. 

Outro bom exemplo é o neopentecostalismo. Alguns pastores que seguem essa linha de pensamento creem que um bom cristão deve ser rico e saudável. Se ele não for rico e saudável, ele provavelmente está sob o jugo de um demônio. Ou é falta de fé em Deus. Que tipo de vida e ética cristã esse tipo de 'teo'logia vai gerar? Possivelmente uma missão comprometida com as coisas desse mundo, e não com as coisas eternas. Não é minha pretensão emitir juízo de valor sobre o calvinismo ou sobre o neopentecostalismo. Só fiz isso a fim de comprovar a minha tese de que um posicionamento doutrinário deve possuir uma conclusão prática, a fim de poder ser bem debatida e provocar a edificação mútua dos irmãos. Essa é uma das razões pelas quais o debate teológico é importante: porque, debatendo a teoria, poderemos aprimorar as nossas relações práticas com Deus e, claro, com o nosso próximo.

A segunda razão pela qual vemos que o debate teológico é importante é que Ele nos aproxima da revelação de Deus, a partir da pessoa de Jesus Cristo e das Sagradas Escrituras. Eu não ligava tanto para a leitura da Bíblia, até que descobri que havia gente usando a Bíblia como instrumento para enganar pessoas e levá-las a darem dinheiro para as suas igrejas. Ora, isso é diabólico e terrivelmente antibíblico. A partir daí, pela graça de Deus, formou-se em mim uma imensa sede em estudar o que a Bíblia diz sobre essas questões. Em minha humilde e ignorante opinião, insisto em dizer que essas bobajadas neopentecostais, como teologia da prosperidade, judaização do culto, confissão positiva etc., são as principais causas que tem levado os jovens de hoje aos Seminários e Faculdades de Teologia. E glória a Deus por isso. 

Como a Escritura nos diz: "...e até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós" (1 Coríntios 11:19). E mesmo com todos os pilantras e mercadores da fé proclamando um falso evangelho, a ordem é clara: 
"Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu. Porque desde criança você conhece as sagradas letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus." (2 Timóteo 3:14-15)
Com isso, concluo que o debate teológico é útil para a nossa edificação (apesar de não ser imprescindível à salvação ou essencial à prática cristã), porque, conforme vimos, a teologia deve ser encarada como uma ciência prática, aprimorando a nossa espiritualidade e vivência com Deus e o com o nosso próximo; bem como nos aproximando das verdades reveladas por Deus para nós, em sua Palavra e em Cristo Jesus, nosso Senhor, Redentor e Mestre.

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¹ Lucas Martins, por Lucas Martins: "Cristão batista, nordestino, escritor e leve ameaça aos mercantes da fé. Porque o que não tem preço não pode ser vendido." Publicou este texto em seu perfil social no Facebook. Publicado com a autorização do autor.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Por que será que você não vai à igreja?

Eu acredito que tem gente que não frequenta nenhuma igreja e tem um caráter muito melhor do que muita gente que está dentro da igreja.” (Sarah Sheeva)
Desde a entrevista da pastora (pastora?) Sarah Sheeva no programa De Frente Com Gabi, onde a mesma proferiu as palavras acima, vejo muita gente compartilhando essa frase nas redes sociais. Bem, e daí? Qual o problema disso?

Bem, a princípio nenhum, a frase está corretíssima. Trata-se, pois, de simples constatação, bastando para isso que as pessoas frequentem por algum tempo a igreja e conheçam de perto alguns de seus frequentadores (dos quais eu sou um), e, digo isso com total certeza, certamente acabarão tendo algum tipo de decepção ou frustração em relação a isso.

Sem entrar profundamente no mérito da questão, que os cristãos devem ser imitadores de Cristo em todas as áreas, espelhando o Seu caráter em suas atitudes cotidianas, isso é fato. Acontece que, nem sempre isso ocorre... Por quê? Porque a caminhada cristã é comparada à luz do amanhecer, que começa aos poucos até atingir a plenitude. A Escritura diz: “Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Provérbios 4.18). Acreditamos que a plenitude pode não ocorrer nesta vida terrena, sendo algo a ser alcançado apenas na eternidade. Isso não significa que não temos um ideal a atingir, e devemos sob o influxo da Graça divina nos esforçar diariamente a alcançar esse objetivo. Foi o que nos ensinou Jesus: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mateus 5:48).

Mas, voltando ao foco da frase, vejo dois problemas implícitos nessa frase. Não estou falando dentro do contexto em que ela foi proferida, mas em referência às inúmeras citações dela nas redes socais, que se dá, evidentemente, fora de contexto. Vejo, inclusive, cristãos assíduos na igreja citando-a, bem como ex-frequentadores de igreja e não-cristãos. Então, vejo que posso falar algo a respeito dela em diversos ângulos.

Por exemplo, a frase pode muito bem ser entendida como um desincentivo a ir à igreja regularmente. Os cristãos estão atentos às exortações bíblicas quanto ao dever de congregar (Hebreus 10:25). Quanto a isto, não merece qualquer discussão. Porém, pessoas de fora podem ouvir essa citação da Sarah Sheeva (ainda que não tenha sito essa a intenção dela ao proferi-la) como um desincentivo até mesmo a ir à igreja uma única vez, já que é comum a referência de algumas pessoas que não simpatizam com o cristianismo aos cristãos de uma maneira geral como pessoas hipócritas, legalistas, retrógradas moralmente, alienadas culturalmente, etc. Sobre os motivos mais comuns que as pessoas alegam para não irem à igreja, é que trata este vídeo (original, em inglês), intitulado “Por que será que você não vai à igreja?”. Alguns amigos e conhecidos meus fizeram uma versão deste vídeo em Português, vale a pena conferir!

Por outro lado, a aludida frase apresenta um falso paradoxo (ou falso dilema), a saber: pessoas que frequentam a igreja devem ser pessoas de bom caráter, e pessoas que não frequentam a igreja, não necessariamente. Oras, isto é um absurdo! Afinal de contas, o que é caráter? Caráter é, em essência, aquilo que você realmente é em relação às escolhas que você faz. Boas escolhas, bom caráter. Más escolhas, mau caráter. Ocorre que Deus tem dotado o ser humano com a capacidade de fazer tais escolhas. Ele nos aconselha: “Escolhe pois a vida, para que vivas” (Deuteronômio 30:19), porém não nos força a escolher o bem sempre. Essa escolha cabe a nós, bem como as suas consequências.

Outrossim, ter bom caráter é uma qualidade que todas (!) as pessoas devem ter, ou buscar ter. Essa obrigação não se torna maior pelo fato de você frequentar uma igreja, nem menor por não frequenta-la. É algo que faz parte da Ética geral da humanidade.

Por outro lado, a frase acima me traz ainda uma preocupação ainda maior. Ela sugere, ainda que sutilmente, que uma pessoa de bom caráter não precisa frequentar uma igreja, e mais sutilmente ainda, que ela não precisa de Cristo. Não precisa colocar a sua fé e confiança pessoal no sacrifício vicário de Cristo na cruz do Calvário, pois, afinal de contas, ela já é uma pessoa de 'bom caráter'. Como se isto, por si só, fosse suficiente para agradar a Deus. Ocorre que a Bíblia nos ensina: “Sem fé é impossível agradar a Deus” (Hebreus 11:6).

As Sagradas Letras nos ensinam que, aos olhos de Deus, “todas as nossas justiças como trapo da imundícia” (Isaías 64:6), e ainda, que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:23). Portanto, todos nós necessitamos de um Salvador, um Redentor, portanto, não somos salvos porque somos bonzinhos, na verdade todos nós mereceríamos o castigo eterno no inferno, se não fosse o sacrifício de Cristo na cruz em nosso favor. Portanto, ao Senhor pertence a nossa salvação (Jonas 2:9), e isto não vem de nós mesmos, é dom de Deus, para quem ninguém se glorie de suas próprias boas obras (Efésios 2:8), e isto se dá mediante a fé que temos depositado em Cristo.

Soli Deo Gloria.

(Originalmente publicado no Facebook.)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Uma ardente expectativa

O ser humano sempre esteve em busca de um sentido para a sua existência, e desde os primórdios da civilização empreende esforços para formular perguntas e investigar as possíveis respostas. A filosofia grega ofereceu pistas às grandes questões existenciais tais como: de onde viemos, quem somos e para onde iremos; porém tais pistas acabam por se mostrar insuficientes, tanto que a cada nova resposta que é ofertada, uma nova pergunta é formulada, num ciclo sem fim. Também a Ciência acaba por oferecer algumas respostas às grandes inquietações humanas, oferecendo explicações racionais a certos fenômenos antes entendidos apenas sob o manto do mistério. No entanto, nem a filosofia nem a Ciência, nem qualquer outra tentativa humana, tem-se revelado capaz de saciar de uma vez por todas a sede humana por conhecer-se a si mesmo e ao universo que o cerca.

O Cristianismo oferta ao homem não apenas as respostas existenciais como também aponta para a necessidade do ser humano buscar no Ser Supremo a sua própria redenção, uma vez que esta cosmovisão faz uma acusação ao homem quanto ao seu estado pecaminoso e depravado. Uma vez que essa acusação é feita, ao mesmo tempo a Cruz é evidenciada; e por isto o cristão encontra Sua paz interior ao recepcionar a mensagem do Salvador como a sua maior e mais importante proposta de vida. Os valores proclamados por Cristo passam a ser os seus valores. Evidentemente, tais mudanças não costumam ocorrer do dia para a noite, pois como preleciona o Apóstolo Paulo, o “velho” homem empreende uma guerra a todo momento contra o novo homem (Efésios 4:22).

Neste mister, entendemos que essa tensão entre a antiga e a nova natureza da qual o cristão é revestido no momento do seu novo nascimento (João 3:7), gera no âmago do seu ser uma ardente expectativa por sua plena e total redenção. O Senhor Jesus, no seu célebre Sermão da Montanha, nos ensinou: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” (Mateus 5:6). Essa justiça a qual o Mestre se refere, e pela qual nós devemos ter sede e fome, não é outra senão aquela do Reino de Deus, perfeita, cujo ápice de sua consumação é na Cruz do Calvário, no qual o Filho de Deus satisfaz plenamente a justiça divina. Devemos nós, cristãos, portando, ter sede por esta justiça divina, muito mais do que pela “justiça” humana, que inúmeras vezes se revela débil e ineficaz. Porque “a ardente expectação da criação espera a manifestação dos filhos de Deus” (Romanos 8:19).

A cosmovisão cristã apresenta uma maneira bíblica de enxergar a realidade que nos cerca, de tal forma que a interpretamos conforme a Revelação divina que nos foi ofertada em Cristo, a Palavra viva de Deus, e Sua verbalização nas Escrituras. Daí a necessidade de o cristão amoldar sua própria vida e existência ao prumo das Sagradas Letras, buscando evidenciar na sua pregação de vida os valores do Reino de Deus. Não há cristianismo autêntico sem a proclamação das virtudes do Evangelho, uma vez que somos chamados de “a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9).

Nesse sentido, a música cristã passa a ter um papel preponderante na proclamação das virtudes do Salvador. Precisamos cantar mais canções que O exaltem como o Supremo Criador e Redentor, deixando de lado os cânticos que foram introduzidos no nosso meio cuja temática não remete aos valores do Cristianismo bíblico. O cristão deve exercer o discernimento corretamente apurado pelo conhecimento bíblico-teológico de que dispõe através das obras de grandes servos de Deus do passado e do presente, bem como do próprio Espírito do Senhor que nele habita, a fim de examinar todas as coisas, reter o que é bom (I Tessalonicenses 5:21), e dessa maneira glorificar o Pai que está nos céus.

O cristão encontra a plena satisfação de sua sede de justiça nAquele que é o Justo Juiz, e em quem não há mudança e nem sombra de variação. O salmista Davi declara: “Ó Deus, Tu és o meu Deus, eu Te busco intensamente; a minha alma tem sede de Ti! Todo o meu ser anseia por Ti, numa terra seca, exausta e sem água” (Salmo 63:1). Embora tenhamos que empreender por todos os dias de nossas vidas terrenas a batalha contra a natureza pecaminosa que ainda nos prende a este mundo, a nossa sede é expressa pela Oração do Pai-Nosso que declara: “Venha o Teu Reino”. Que a nossa vida, que a nossa música, que a nossa pregação, que a nossa celebração comunitária, enfim, que toda a nossa vida eclesial venham a ser uma expressão dessa ardente expectativa. Que o Senhor da Igreja continue nos guiando às Suas águas tranquilas (Salmo 23:2), nos apascentando em Seus pastos verdejantes. E que, ao aprendermos a descansar nEle e em Suas promessas, possamos saciar completamente a nossa fome e sede de justiça.  

Soli Deo Gloria.

*Texto publicado também no Jornal Há Esperança 18ª Edição (página 14), de Montes Claros-MG, mantido pela Web Rabio Há Esperança.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Músicos Cristãos aprovados por Deus

André de Araújo Neves

"Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade." (2 Timóteo 2:15)

microfoneDesde cedo nas nossas igrejas, é fácil perceber que uma das áreas que mais atrai a atenção dos crentes e visitantes, é o louvor congregacional. As igrejas contemporâneas há algum tempo vêm abandonando os tradicionais corais e hinos orquestrados, nos quais havia a necessidade de envolver uma enorme quantidade de pessoas nos serviços religiosos, ensaios e demais eventos, e optado por uma simplificação da sua estrutura musical. Algumas igrejas ainda mantêm os coros e bandas de música, porém é fácil perceber que a ênfase maior recai sobre as equipes de música, comumente denominadas de ministérios de louvor. Essas equipes geralmente são formadas por uma pequena banda de base, constituídas por um tecladista, um baterista, um contrabaixista e um violonista, um pequeno backing vocal, com três até seis integrantes divididos em três naipes, e sendo dirigida e conduzida por um líder de louvor. É geralmente papel do líder de louvor selecionar os cânticos para o repertório, conduzir os ensaios e ministrações, além de zelar pela parte espiritual da equipe, sendo para tanto acompanhado pelo pastor ou por um conselheiro por ele designado.

Descrevemos a princípio como é o funcionamento dos ministérios de louvor das igrejas locais, sendo que a estes elementos podem ser acrescidos mais alguns, como instrumentistas do naipe de metais, e até de cordas ou de percussão ou, ainda, uma maior quantidade de backing vocals, possibilitando dessa forma a elaboração de escalas de serviço, de forma a dar oportunidade a mais pessoas da igreja local, ao mesmo tempo em que possibilita evitar o sobrecarregamento dos membros da equipe. Numa igreja local com muitos cultos semanais, ou que eventualmente precise atender uma congregação próxima, toda essa divisão de tarefas pode ser vista com bons olhos. No entanto, se há poucos trabalhos semanais, há de se repensar a necessidade de se ter uma equipe muito grande, em que podem eventualmente ocorrer desgastes de ordem emocional ou até mesmo espiritual.

Por conseguinte, devemos ter em mente que o momento de louvor no culto é um dos mais importantes em nossa vida cristã, pois nos dá a oportunidade de agradecer ao Senhor por Suas tão valiosas bênçãos, além de nos predispor a ouvir a pregação da Palavra que virá em seguida com um coração muito mais receptivo e alegre (1 Tessalonicenses 1:6), desde que ministrada sob a unção sobrenatural do Espírito. A música devocional nos ajuda, ainda, a enfrentar momentos de aflição e angústia (Mateus 26:30), ainda que acompanhado da oração (Tiago 5:13) e do acolhimento dos irmãos, sendo assim, inegável o seu efeito terapêutico no indivíduo. O louvor a Deus é, também, naturalmente uma parte intrínseca de notórios momentos de vitórias do povo de Deus: “E cantavam juntos por grupo, louvando e rendendo graças ao Senhor, dizendo: ‘porque Ele é bom; porque a Sua benignidade dura para sempre sobre Israel’. E todo o povo jubilou com altas vozes, quando louvaram ao Senhor, pela fundação da casa do Senhor” (Esdras 3:11).

Uma relevante pergunta que deve ser feita constantemente em nossos grupos de louvor é: será que o que temos realizado tem agradado o coração de Deus? Será que temos conseguido crescer como uma equipe coesa, que goza de plena comunhão com Deus e uns com os outros, e que por isso tem conseguido alcançar seus objetivos, quais sejam:

(1) adorar a Deus em espírito e em verdade (João 4:23) e influenciado positivamente a congregação a fazer o mesmo;

(2) executar arranjos de qualidade e com destreza musical, ainda que após exaustivos ensaios e, ainda, com unção e júbilo (Salmo 33:3b);

(3) incentivar os seus integrantes, uma vez que são chamados a meditar na Palavra do Senhor de dia e de noite (Salmo 1:2), a buscar uma constante capacitação bíblica e doutrinária;

(4) exercer o dom da criatividade e inteligência musical que Deus lhes outorgou para compor cânticos que exaltem ao Senhor na beleza da Sua santidade (1 Crônicas 16:29), com letras bíblicas e cristocêntricas;

(5) contribuir para a formação teológica e musical dos crentes, através de cânticos coerentes com as Escrituras (Salmo 119:54) e de fácil memorização, facilitando a participação de todos no momento do louvor congregacional;

(6) exercer o espírito cristão de mútua edificação, exortação e consolação, gerando entre os integrantes da equipe um sincero amor não movido por interesses egoístas (1 Coríntios 13:5), mas motivado pelo bem-estar do seu companheiro de ministério; etc.?

É importante salientar que a finalidade última em alcançar estes objetivos é a glorificação do Senhor, e não a nossa (2 Coríntios 4:5-7). Destarte, devemos nós como cristãos nos posicionar em relação a nosso papel enquanto integrantes de uma equipe de louvor da nossa comunidade cristã, sendo de suma importância nos conscientizar do importante papel que desempenhamos na vida litúrgica da igreja. Dessa forma, é necessário incentivar cada componente a buscar uma constante melhoria no seu labor ministerial, seja através dos ensaios, do preparo de novos arranjos musicais, da prática constante de exercícios vocais ou de exercícios no seu respectivo instrumento, e ainda, a participação em cursos e oficinas de capacitação musical, visando a busca da excelência ministerial. Não esquecendo ainda que o aspecto espiritual é preponderante sobre o aspecto teórico-musical, embora aquele não substitua a importância deste. É necessária uma busca constante da unção do Espírito Santo de Deus, buscando um enchimento diário de Sua presença e da manutenção da comunhão com Ele, visando a sua capacitação sobrenatural para o exercício do ministério. Dessa forma, teremos a aprovação do Senhor, ao reconhecer que sem Ele nada podemos fazer (João 15:5), e por este motivo, jamais devemos nos esquecer de que os nossos dons e talentos, quer sejam eles naturais ou sobrenaturais, têm o Senhor como a sua fonte, uma vez que “toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17).

Soli Deo Gloria.


*Texto publicado também no Jornal Há Esperança 17ª Edição (página 14), de Montes Claros-MG, mantido pela Web Rabio Há Esperança.

domingo, 1 de setembro de 2013

O Tesouro do Cristão e a Música Cristã

André de Araújo Neves

Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (Mat 6:19-21)

cofre-del-tesoroTalvez este seja um dos textos mais conhecidos do Novo Testamento. Certamente, poucos cristãos o desconhecem, e mesmo alguns simpatizantes do evangelho vez ou outra fazem referência a ele; entretanto, é notório que o mandamento nele contido tem sido frequentemente mal compreendido e não praticado. Como podemos como Cristãos perceber se de fato compreendemos a mensagem do Salvador nessas sucintas palavras? Duvido que o meigo Nazareno poderia ter sido mais claro, no entanto, nós titubeamos para colocar Seu desejo em prática nas nossas vidas. Uma das áreas da vida cristã – e certamente não a única – que temos falhado em cumprir a prescrição bíblica contida neste texto áureo é a da Música, como tentarei explicar mais adiante. Por hora, quero que atentemos à primeira frase: “Não ajunteis tesouro na terra”, que só pra início de conversa, é um versículo claramente apologético contra a teologia da prosperidade, que é a ideia de que Deus quer que todos os Seus filhos, indistintamente, sejam ricos materialmente nessa vida, sendo que a eventual pobreza na vida do Cristão só pode ser resultado ou de sua falta de fé, ou de alguma maldição ainda não quebrada, ou, ainda, de algum pecado escondido. Ora, esta ideia não passa pelo crivo bíblico mais simples, e grandes apologistas cristãos se esforçam para defender a verdade bíblica contra essa doutrina de demônios.

John Piper, sem hesitar, afirma que o evangelho da prosperidade “é um outro evangelho, e basta ir à Bíblia e ver o que Paulo fala sobre aqueles que querem ser ricos (I Tim 6:9,10); as pessoas são amaldiçoadas pelas riquezas, os que desejam ser ricos caem em muitas tentações e traspassam a si mesmos com muitas dores, mas os pregadores da prosperidade dizem: ‘Sim, Deus realmente quer que vocês sejam ricos, seguir Jesus é o caminho para as riquezas! Riquezas são o sinal da bênção de Deus’, estes estão em mútua contradição e isto é mortal. ” Vejam o vídeo na íntegra abaixo:

John Piper - Por que eu abomino o evangelho da prosperidade?

Bem, dando uma olhada no cenário musical cristão dos dias atuais, percebemos uma forte tendência na entronização do homem e de seus desejos, em detrimento da vontade revelada de Deus e de Sua glória. Em muitos cânticos, aliás, a glorificação de Deus é apenas o resultado da glorificação humana, como no famoso hit gospel “Sabor de Mel”, que entre outras incongruências teológicas, declara: “Quem te viu passar na prova e não te ajudou, quando ver você na bênção vai se arrepender, vai estar entre a plateia e você no palco!” Ora, será que isto não seria uma apologia à vingança pessoal, ou, na pior das hipóteses, um contentamento com o insucesso alheio? Vejamos o que a Bíblia nos ensina: “Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; Eu retribuirei’, diz o Senhor.” (Rom 12:19) Ou, ainda: “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.” (Mat 5:39).

Outro exemplo de canção antropocêntrica entoada em nossos dias é “Eu vou viver uma virada”, de um conhecido grupo de louvor carioca, e cujos versos rezam nos seguintes termos: “Onde era tristeza se verá a dupla honra me ornar. Com boas novas proclamar-lhe uma nova história celebrar! É chegada a minha hora, meu silêncio já acabou! Ouça o som da minha grande festa!” Acrescenta-se o fato de que esta canção é bem animada, que faz com que muitos de seus ouvintes deixem de exercer um completo discernimento a respeito da mensagem que ela transmite em virtude de seu frenético ritmo dançante. Ocorre que estão dançando não em virtude de um real desejo de louvar o Senhor pelo simples fato de Ele ser digno de ser louvado, mas sim por causa desta tal “dupla honra”. Aliás, essa expressão vétero-testamentária tem sido muito mal compreendida pela Igreja brasileira, que tem transformado esta promessa divina circunstancial para o povo hebreu (Isa 61:7) em promessa universal e onitemporal para a Igreja, e, pior que isso, confundidas com honrarias e glórias humanas e efêmeras! A respeito dessa música, o pastor Renato Vargens comenta: “Em que lugar dessa letra Cristo está sendo glorificado? Em nenhum momento dessa canção nosso Senhor está sendo reverenciado! Na verdade, a canção está focada nas bênçãos de Deus e na necessidade daquele que canta ser honrado pelo Criador. Nesse tipo de mensagem, Deus é nada mais, nada menos do que um outorgador de bênçãos a todos aqueles que invocam Seu nome”.

Lutero, o grande reformador do século XVI, declarou: “Aquilo, pois, a que prendes o coração e te confias, isso, digo, é propriamente o teu Deus”. Portanto, creio que há uma necessidade urgente de revermos grande parte dos repertórios musicais que estão sendo utilizados nos cultos nas nossas igrejas, visando identificarmos canções com letras que depõem contra a ortodoxia bíblica, especialmente no campo da glorificação do ser humano em detrimento da glória de Deus. Precisamos nos lembrar sempre de que Ele é Deus e merece toda a nossa adoração, independemente das circunstâncias que venham se abater sobre nós. O Apóstolo Paulo, falando acerca da nossa Salvação e da mensagem que pregamos, a saber, o Evangelho bendito e eterno, declara: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós.” (2 Cor 4:7) Precisamos entender, ainda, que o nosso tesouro nessa vida é o próprio Deus e o Seu santo Evangelho, e que o nosso coração precisa estar voltado a Ele! E, sendo assim, as nossas canções que são entoadas em nosso culto a Deus, precisam refletir essa teologia! A Glória de Deus é por causa de quem Ele é, do que Ele fez por nós e por Suas preciosas promessas!

Soli Deo Gloria.


*Texto publicado também no Jornal Há Esperança 16ª Edição (página 14), de Montes Claros-MG, mantido pela Web Rabio Há Esperança.

domingo, 18 de agosto de 2013

Música e o Culto Cristão

André de Araújo Neves

Cantai ao SENHOR um cântico novo, cantai ao SENHOR toda a terra. Cantai ao Senhor, bendizei o seu nome; anunciai a sua salvação de dia em dia. Anunciai entre as nações a sua glória; entre todos os povos as suas maravilhas. Porque grande é o Senhor, e digno de louvor, mais temível do que todos os deuses.” (Sl 96:1-4)

clavedesolamb1Desde que nos tornamos novas criaturas em Cristo Jesus (II Co 5:17), geralmente aprendemos em nossos cursos de discipulado e/ou de preparação para o Batismo a importância de procurarmos nos fazer presentes nas programações de nossa igreja local, com especial proeminência aos cultos e reuniões de oração. Tal admoestação nos ensina desde cedo que devemos dar especial prioridade às atividades espirituais de nossas congregações, produzindo em nós o desejo e a motivação de prosseguirmos com tal procedimento em nosso cotidiano, levando-nos a buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e a Sua justiça, e, como nos ensina o Evangelho, todas as nossas reais necessidades seriam supridas (Mt 6:33).

Observamos que a Escritura nos admoesta quanto a importância de nos reunirmos como povo de Deus (Hb 10:25), a fim de que nos edificarmos mutuamente e de oferecermos ao Senhor um culto vivo, santo e racional (Rm 12:1,2). Neste ínterim, temos que reconhecer que a música se fez presente desde os primórdios do Cristianismo como um relevante elemento litúrgico, sendo que o Novo Testamento incentiva o seu uso, desde que sirva seus propósitos determinados por Deus para o santo culto. “Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração.” (Ef 5:19-20a)

Hoje, a música cristã ocupa uma visível proeminência, tendo em vista o crescente mercado de música gospel e sua expansão até mesmo nos meios de comunicação secular. Temos que ter um correto entendimento bíblico-teológico a fim de saber aproveitar esse momento na máxima divulgação do Evangelho, haja vista a ordenança de Jesus de pregarmos a tempo e fora de tempo (II Tm 4:2), porém com a prudência mais do que necessária para identificarmos e repelirmos eventuais heresias presentes nas músicas que cantamos em nossos cultos. Neste ínterim, costuma-se dizer que a música litúrgica (isto é, a música entoada no culto público ao Senhor), tem como função:

(1) Adoração e louvor: Quando cantamos, queremos expressar nossos sentimentos e emoções através da música, oferecendo ao Senhor a nossa alma e a nossa arte, e assim sendo, as canções que cantamos precisam conter como elementos essenciais declarações de reconhecimento do Senhorio de Cristo sobre a Igreja, exaltando a Sua Pessoa e a Sua obra nas nossas vidas, sobre a Sua criação, etc.

(2) Edificação, exortação e consolação: Note que aqui eu destaco a tripla função da profecia (1 Co 14:3), haja vista que em várias passagens das Escrituras, especialmente no Antigo Testamento, vemos que o ministério profético fazia-se acompanhar de músicos e cantores (1 Sm 10:5; 2 Re 3:15), embora isto não seja uma regra. Entretanto, vemos que vários cânticos na Bíblia faziam as vezes de trazer consigo essa atribuição, como no caso de Jesus com Seus discípulos, que logo após cearem a última Ceia, cantaram um hino (Mt 26:30), preparando os seus corações para o que aconteceria em seguida no monte das Oliveiras; e, ainda, o relato de Atos a respeito de Paulo e Silas encarcerados, entoando louvores a Deus (At 16:25); ou ainda podemos citar o exemplo do rei Davi quando trazia de volta à cidade a Arca do Senhor, tendo ordenado que se entoassem louvores a Deus em comemoração por tal glorioso momento em seu reinado (1 Cr 15:16).

(3) Didático-doutrinária: Temos uma tremenda facilidade de assimilar os conceitos teológicos que cantamos (bem mais do que aqueles que apenas ouvimos em um sermão ou estudo bíblico). Já foi dito por alguém que é possível conhecer a teologia de uma igreja local, isto é, no que ela crê e ensina, através das letras dos cânticos que esta igreja canta. Esse último aspecto é deveras preocupante, e talvez o mais ignorado em nossas muitas igrejas. Não é de hoje que percebemos que nos últimos anos a preocupação pelo conteúdo teológico nas letras das canções vem caindo, ou até mesmo desaparecendo, dando lugar à lógica de mercado que diz que, se algo é vendável, então merece ser produzido. Muitos cantores e compositores cristãos têm se perdido nessa prática, o que vem ocasionando às igrejas uma crise confessional e até mesmo bíblica. É o caso das canções que evocam temas estranhos às Escrituras, como a teologia da prosperidade e a falsa ideia de que o crente possui “direitos” inerentes à sua condição de servo de Deus, sendo, por conseguinte, exigíveis de Deus. Palavras como “restituição” e “decretar” estão muito presentes em algumas peças da nossa atual hinódia, sendo estranhas até mesmo à nossa identidade histórica evangelical e protestante. Martinho Lutero, por exemplo, em seu clássico hino “Castelo Forte”, declara em uma de suas estrofes: “Se temos de perder família, bens, poder; e, embora a vida vá, por nós Jesus está, e dar-nos-á Seu reino.” Nos atuais cânticos, a antibíblica ideia de que Deus tem que nos restituir o que perdemos está sempre presente, inclusive com expressões de “determinar” ou “declarar” (no sentido de exigir, decretar), por exemplos.

Portanto, entendemos que a música na igreja tem o seu mister e aqueles que trabalham neste labor precisam ser reconhecidos verdadeiramente como servos de Deus, comissionados para esta árdua tarefa, necessitando de constante acompanhamento pastoral, ensino e discipulado, a fim de evitar a inclusão no repertório de canções que não coadunem com a sã doutrina bíblica. Lembrando ainda que, cada igreja local e cada denominação possui uma identidade confessional, e os cânticos precisam de alguma maneira refletir isso, para transmitir verdades bíblicas importantes e consolidas os convertidos. Evitar desnecessárias repetições e uso de sílabas sem significado algum (ô-ô-ô, ah-ah-ah, yeh), que tomam tempo no culto e não edificam, tampouco transmitem mensagem alguma. Nos concentremos no que é bom e agradável. “Louvai ao Senhor, porque o Senhor é bom; cantai louvores ao Seu nome, porque é agradável.” (Sl 135:3) Deus seja louvado!


*Texto publicado também no Jornal Há Esperança 15ª Edição (páginas 13-14), de Montes Claros-MG, mantido pela Web Rabio Há Esperança.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A velha cruz e a nova cruz

A. W. Tozer1

Sem fazer-se anunciar e quase despercebida uma nova cruz introduziu-se nos círculos evangélicos dos tempos modernos. Ela se parece com a velha cruz, mas é diferente; as semelhanças são superficiais; as diferenças, fundamentais.

Uma nova filosofia brotou desta nova cruz com respeito à vida cristã, e desta nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica – um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Este novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior.

A velha cruz não fazia aliança com o mundo. Para a carne orgulhosa de Adão ela significava o fim da jornada, executando a sentença imposta pela lei do Sinai. A nova cruz não se opõe à raça humana; pelo contrário, é sua amiga íntima e, se compreendermos bem, considera-a uma fonte de divertimento e gozo inocente. Ela deixa Adão viver sem qualquer interferência. Sua motivação na vida não se modifica; ela continua vivendo para seu próprio prazer, só que agora se deleita em entoar coros e a assistir filmes religiosos em lugar de cantar canções obcenas e tomar bebidas fortes. A ênfase continua sendo o prazer, embora a diversão se situe agora num plano moral mais elevado, caso não o seja intelectualmente.

A nova cruz encoraja uma abordagem evangelística nova e por completo diferente. O evangelista não exige a renúncia da velha vida antes que a nova possa ser recebida. Ele não prega contrastes mas semelhanças. Busca a chave para o interesse do público, mostranto que o cristianismo não faz exigências desagradáveis; mas, pelo contário, oferece a mesma coisa que o mundo, somente num plano superior. O que quer que o mundo pecador esteja idolizando no momento é mostrado como sendo exatamente aquilo que o evangelho oferece, sendo que o produto religioso é melhor.

lote-103_pcvA nova cruz não mata o pecador, mas dá-lhe nova direção. Ela o faz engrenar em um modo de vida mais limpo e agradável, resguardando o seu respeito próprio. Para o arrogante ela diz: "Venha e mostre-se arrogante a favor de Cristo"; e declara ao egoísta: "Venha e vanglorie-se no Senhor". Para o que busca emoções, chama: "Venha e goze da emoção da fraternidade cristã". A mensagem de Cristo é manipulada na direção da moda corrente a fim de torná-la aceitável ao público.

A filosofia por trás disso pode ser sincera, mas na sua sinceridade não impede qe seja falsa. É falsa por ser cega, interpretando erradamente todo o significado da cruz.

A velha cruz é um símbolo da morte. Ela representa o fim repentino e violento de um ser humano. O homem, na época romana, que tomou a sua cruz e seguiu pela estrada já se despedira de seus amigos. Ele não mais voltaria. estava indo para seu fim. A cruz não fazia acordos, não modificava nem poupava nada; ela acabava completamente com o homem, de uma vez por todas. Não tentava manter bons termos com sua vítima. Golpeava-a cruel e duramente e quando terminava seu trabalho o homem já não existia.

A raça de Adão está sob sentença de morte. Não existe comutação de pena nem fuga. Deus não pode aprovar qualquer dos frutos do pecado, por mais inocentes ou belos que pareçam aos olhos humanos. Deus resgata o indivíduo, liquidando-o e depois ressucitando-o em novidade de vida.

O evangelismo que traça paralelos amigáveis entre os caminhos de Deus e os do homem é falso em relação à bíblia e cruel para a alma de seus ouvintes. A fé manifestada por Cristo não tem paralelo humano, ela divide o mundo. Ao nos aproximarmos de Cristo não elevamos nossa vida a um plano mais alto; mas a deixamos na cruz. A semente de trigo deve cair no solo e morrer.

Nós, os que pregamos o evangelho, não devemos julgar-nos agentes ou relações públicas enviados para estabelecer boa vontade entre Cristo e o mundo. Não devemos imaginar que fomos comissionados para tornar Cristo aceitável aos homens de negócio, à imprensa, ao mundo dos esportes ou à educação moderna. Não somos diplomatas mas profetas, e nossa mensagem não é um acordo mas um ultimato.

Deus oferece vida, embora não se trate de um aperfeiçoamento da velha vida. A vida por Ele oferecida é um resultado da morte. Ela permanece sempre do outro lado da cruz. Quem quiser possuí-la deve passar pelo castigo. É preciso que repudie a si mesmo e concorde com a justa sentença de Deus contra ele.

O que isto significa para o indivíduo, o homem condenado quer encontrar vida em Cristo Jesus? Como esta teologia pode ser traduzida em termos de vida? É muito simples, ele deve arrepender-se e crer. Deve esquecer-se de seus pecados e depois esquecer-se de si mesmo. Ele não deve encobrir nada, defender nada, nem perdoar nada. Não deve procurar fazer acordos com Deus, mas inclinar a cabeça diante do golpe do desagrado severo de Deus e reconhecer que merece a morte.

Feito isto, ele deve contemplar com sincera confiança o salvador ressurreto e receber dEle vida, novo nascimento, purificação e poder. A cruz que terminou a vida terrena de Jesus põe agora um fim no pecador; e o poder que levantou Cristo dentre os mortos agora o levanta para uma nova vida com Cristo.

Para quem quer que deseje fazer objeções a este conceito ou considerá-lo apenas como um aspecto estreito e particular da verdade, quero afirmar que Deus colocou o seu selo de aprovação sobre esta mensagem desde os dias de Paulo até hoje. Quer declarado ou não nessas exatas palavras, este foi o conteúdo de toda pregação que trouxe vida e poder ao mundo através dos séculos. Os místicos, os reformadores, os revivalistas, colocaram aí a sua ênfase, e sinais, prodígios e poderosas operações do Espírito Santo deram testemunho da operação divina.

Ousaremos nós, os herdeiros de tal legado de poder, manipular a verdade? Ousaremos nós com nossos lápis grossos apagar as linhas do desenho ou alterar o padrão que nos foi mostrado no Monte? Que Deus não permita! Vamos pregar a velha cruz e conhecermos o velho poder.

Fonte: O Melhor de A. W. Tozer, Editora Mundo Cristão, pg 151 a 153.

1A. W. Tozer (1897-1963) pastoreou igrejas da Aliança Cristã e Missionária por mais de 30 anos. Apesar de não ter freqüentado seminário, seu amplo conhecimento bíblico, o forte impacto de sua pregação e a prolífica criação literária (escreveu mais de 40 livros) renderam-lhe a concessão de dois doutorados honorários. Tozer é reputado entre os maiores pregadores de todos os tempos.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Reflexão

"Você jejua? Dê-me prova disto por suas obras.
Se você vê um homem pobre, tenha piedade dele.
Se você vê um amigo sendo honrado, não o inveje.
Não deixe que somente a sua boca jejue, mas também o olho e o ouvido e o pé e as mãos e todos os membros do seu corpo.
Que as mãos jejuem, sendo livres de avareza.
Que os pés jejuem, cessando de correr atrás do pecado.
Que os olhos jejuem, disciplinando-os a não fitarem o que é pecaminoso.
Que os ouvidos jejuem, não ouvindo conversas más e fofocas.
Que a boca jejue de palavras vis e de criticismo injusto.
Porque, qual é o proveito se nos abstemos de aves e peixes, mas mordemos e devoramos os nossos irmãos?
Possa Aquele que veio ao mundo para salvar pecadores nos fortalecer para completarmos o jejum com humildade, tendo misericórdia de nós e nos salvando."

São João Crisóstomo (347407 d.C.)

domingo, 31 de março de 2013

Consciência Cristã lança Carta aos evangélicos brasileiros

A VINACC – Visão Nacional Para a Consciência Cristã – promotora do Encontro Para a Consciência Cristã há 15 anos em Campina Grande-PB, lançou, nesta sexta-feira (15/03/2013), uma carta endereçada aos evangélicos brasileiros, exortando-os a não se conformarem com este século, conforme mensagem do apóstolo Paulo aos Romanos, capítulo 12, versículo 2.

A Carta é resultado de obervações feitas durante as sete ministrações noturnas do XV Encontro Para a Consciência Cristã, realizado de 6 a 12 de fevereiro de 2013, pelos pastores: Hernandes Dias Lopes, Geremias do Couto, Renato Garcia Vargens, Aurivan Marinho, Mauro Meister, José Bernardo e Ricardo Bitun

Eis a carta na íntegra:


Não vos conformeis
Carta da 15ª Consciência Cristã

A Igreja Brasileira, solidamente representada no XV Encontro para a Consciência Cristã, realizado em Campina Grande de 6 a 12 de fevereiro de 2013, incumbiu-se de avaliar a situação do movimento evangélico em nossa nação, à luz da convocação que o apóstolo Paulo fez aos crentes em Roma, para a prática da teologia que ensinou nos onze primeiros capítulos da carta que lhes escreveu: "Portanto, irmãos, rogo pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional  de vocês.  Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus."

Vivemos tempos de grande inquietude para aqueles que decidiram conhecer, praticar e ensinar as Escrituras como a Palavra de Deus. Por todo lado se ouve de heresias, mundanismo, desvio e promiscuidade com toda sorte de ideias de homens: Por fraqueza e ignorância, por conveniência e prazer, por ganância e apostasia. Os lobos passeiam livremente pelo meio do rebanho e dilaceram as ovelhas e o dano que fazem nos horroriza; não podemos observá-lo passivamente. Exortamos e animamos a igreja a tomar-se de um inconformismo santo que a impulsione à mudança. Nós chamamos a noiva a encher-se de um descontentamento que a leve à transformação no íntimo, cremos que somente assim experimentaremos as coisas boas e desejáveis que Deus quer para nós.

Não vos conformeis com a amargura
A felicidade exaustivamente propagandeada nos comerciais de televisão é fugidia. De fato, vivemos em um mundo cada vez mais infeliz, amargurado, cheio de angústias, desespero e perplexidade. A infelicidade serve apenas aos mercadores de sonhos e envolve as pessoas em uma inútil e ansiosa corrida. Nesse cenário a depressão é uma pandemia que afeta a Igreja tanto quanto o mundo e enfraquece a motivação para a transformação e para o serviço. Sabemos que a alegria do Senhor é a nossa força, mas nossa alegria é roubada todos os dias: 
a) pelas circunstâncias, quando não conhecemos a grandeza de Deus; 
b) pelas pessoas, quando não exercemos o perdão; 
c) pelo dinheiro, quando amamos as coisas materiais; 
d) pela preocupação quando nos falta fé. 
Deixemos de lado essa tristeza mundana e abracemos a alegria no Senhor nosso Deus.

Não vos conformeis com a soberba
A arrogância do ser humano chega a tal ponto que ele se achou dono da verdade, cada um de sua própria e particular verdade. As pessoas tornaram-se tão evidentes aos próprios olhos que não podem mais enxergar o próximo e são incapazes de ver Deus. A Igreja tem sido afetada por esse orgulho, por essa vaidade, e sofrido as mesmas consequências que em Babel: Como Igreja, estamos separados, divididos, não nos entendemos e não servimos a Deus, porque estamos cultuando mais a homens e aos desejos da carne, porque estamos construindo para nossa própria glória, achando que podemos atingir o céu por nossos próprios méritos. Deus, em sua graça insuperável, poderia nos lembrar de que somos pó, mas temos fugido disso:
a) quando rejeitamos o sofrimento;
b) quando desprezamos o autocontrole;
c) quando valorizamos nossos próprios desejos;
d) quando ignoramos os planos de Deus para nós. 
Venha Igreja! Gloriemo-nos em nossas fraquezas, pois quando estamos fracos é que somos fortes.

Não vos conformeis com o pecado
Ló, separando-se de Abrão, escolhendo as campinas verdejantes, tão aprazíveis que se pareciam com o Jardim do Senhor, ficando cada vez mais perto de Sodoma e Gomorra e finalmente perdendo tudo, é um modelo do que acontece com a Igreja e com os crentes hoje. A cobiça dos olhos tem atraído, seduzido, gerado pecado e morte. A ganância pelas coisas materiais, pelo sucesso a todo custo, a busca insana pela aceitação do mundo e pela fama têm sido tão envolventes e ilusórias que os crentes se aproximam do pecado achando que estão encontrando a bênção de Deus. O pecado se torna aceitável e tão comum que às vezes parece obrigatório. Nesses dias chamamos a Igreja para reagir, nós a conclamamos a: 
a) odiar o pecado como Deus o odeia; 
b) fugir do pecado como Deus ordenou; 
c) buscar a santidade como Deus é santo; 
d) denunciar o pecado falando o que Deus diz sobre ele. 
Confiados de que temos recebido na graça os recursos para uma vida em santidade, chamamos os crentes a serem amigos de Deus, porque os amigos do mundo são inimigos de Deus.

Não vos conformeis com a igreja
Quando as igrejas estão se conformando com o mundo, não podemos nos conformar com elas. A Igreja sempre lutou contra heresias: Os judaizantes e os gnósticos no primeiro século, os ataques à humanidade ou à divindade de Cristo, a mercantilização da salvação na Idade Média, a negação da Verdade na modernidade, a contaminação da verdade na pós-modernidade. A diferença é que hoje a crise que a Igreja enfrenta é eclesial. As pessoas percebem que as igrejas têm se desviado do plano de Deus e, com isso, as abandonam e menosprezam. O inconformismo que a Palavra de Deus exige de nós nada tem a ver com essa atitude de descompromisso. A Igreja é uma instituição divina e se expressa institucionalmente. Somos chamados a enfrentar o mundanismo e o pecado dentro dela, não pelo abandono, mas lutando para que seja a Igreja que Cristo quer:
a) igreja com a missão de Cristo;
b) igreja com a confissão de Cristo;
c) igreja com a revelação de Cristo;
d) igreja com a autoridade de Cristo. 
Não nos conformemos! Há esperança para a Igreja do século XXI pois é Deus quem estabelece a revelação que a mantém. Portanto, trabalhemos por uma igreja que cumpra o propósito dado pelo Senhor segundo os recursos que Ele mesmo provê.

Não vos conformeis com o culto
O culto que oferecemos a Deus nesse mundo tem sido marcado pela alienação e pelo simplismo. As pessoas nos conhecem mais por nossas obrigações do que por nossas motivações, mais por nossos costumes do que por nosso pensamento. Nossa adoração a Deus não tem produzido os resultados que Deus espera de nós, em nossas vidas ou nas vidas daqueles que nos observam. Mas Deus nos chama para um culto em que nos ofereçamos continuamente em santidade ao Senhor, de modo que isso seja primeiro agradável a ele e, assim, se torne agradável a nós. Esse culto que devemos oferecer a Deus deve ser:
a) fundamentado em sólido conhecimento das Escrituras;
b) caracterizado pelo dar de nós mesmos;
c) distinguido pela renovação de nossa mente;
d) resultante na experimentação da vontade de Deus. 
Não nos conformemos com um culto que não seja aceitável a Deus. Seja o nosso culto um sinal da presença de Deus para todos os homens, um testemunho incontestável da graça salvadora de Deus. Ofereçamos a Ele um culto que o agrade verdadeiramente e comecemos isso, como Paulo, pelo ensino da sã doutrina.

Não vos conformeis com o silêncio
A Igreja foi chamada para comunicar o Evangelho e ensinada por Cristo a fazê-lo na pregação, no ensino, no testemunho e na representação. Como crentes em Cristo não podemos nos calar a qualquer pretexto ou em qualquer situação. Devemos obedecer a Deus primeiro, não aos homens, e responder a quem quer que questione a esperança que recebemos em Cristo. Mas a Igreja tem se calado nas escolas e universidades, nos locais de trabalho e nos lugares públicos, com os amigos e os vizinhos, às vezes com a própria família. Os crentes têm emudecido por causa das leis, para não perder os amigos ou clientes, para não perder o status ou o emprego, temendo multas e prisão. A Igreja tem sido afrontada com mentiras e calúnias, ameaçada e desprezada, e não tem sido capaz de responder, porque teme coisa que acha pior. Nesse cenário somos chamados a: 
a) não ter medo como as pessoas do mundo; 
b) não ficarmos alarmados diante da perseguição; 
c) termos Cristo como único Senhor, único dono de nossa vida; 
d) nos prepararmos para responder a qualquer pessoa que questione a esperança que temos em Cristo. 
Rompamos o silêncio e anunciemos o Evangelho, respondamos a qualquer pessoa e em qualquer situação, a tempo e fora de tempo!

Não vos conformeis com a morte
Muitos líderes têm deixado uma lacuna de integridade, um vazio de direção, uma ausência de paz no meio da Igreja. Nosso povo, muitas vezes está perplexo, confuso, inseguro e isso causa temor e angústia acerca do futuro da Igreja. Essa era a situação de Israel no início do livro de Isaías. O inimigo estava às portas, o pecado consumia o povo e o rei morreu deixando um trono vago. Nessa situação o profeta teve uma visão que a Igreja Brasileira também precisa ter: 
a) uma visão da soberania de Deus; 
b) uma visão da santidade de Deus;
c) uma visão da miséria humana; 
d) uma visão dos meios para a salvação. 
Depois dessa visão Isaías pode ser comissionado para o ministério que denuncia o pecado e que anuncia a restauração. Diante dos problemas e dificuldades que enfrentamos na Igreja nesses dias, não podemos nos conformar com a mesmice, não podemos nos entregar à estagnação, não podemos nos conformar com uma igreja morta. Deus reina soberano, Ele é santo, Ela ama a nós pecadores e proveu meios para nos salvar, portanto, apresentemo-nos para a missão que Ele anuncia. A revelação dessas coisas deve ser continuamente enfatizada aos crentes, até que, inconformados, clamem contra o pecado e celebrem a alegria da salvação.

Aos trinta dias do encerramento do 15° Encontro para a Consciência Cristã, em 12 de março de 2013, nós reafirmamos juntos que não nos conformamos com a estagnação da presente era, antes buscamos mudança pela renovação de nossa mente.

Fonte: http://geremiasdocouto.blogspot.com.br/2013/03/vinacc-lanca-carta-exortando-os.html

domingo, 10 de março de 2013

A Oração Do Senhor Como Nosso Pão Diário

André de Araújo Neves

Tenho passado os últimos dias pensando a respeito do quão paradoxalmente o pensamento cristão hodierno parece não estar alinhado com os ideias do cristianismo primitivo. Podemos ver claramente algumas passagens do Novo Testamento que, ao olhar do cristão moderno, soam até mesmo “exóticas”, por causa não apenas da distância entre o que está ali retratado e do “mundo” que vivemos hoje, mas principalmente porque nos parecem completamente impraticáveis, e até mesmo “erradas”, se partirmos dos pressupostos de que a igreja hodierna é mais evoluída, ou que a nossa cultura hoje é mais privilegiada em termos de conhecimento ou no aspecto patrimonial. Na verdade, soa-nos estranho passagens como Atos 2: 44-47:

E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. (…)”

Ora, por que eu digo que tal coisa nos soa de modo exótico? Porque para a nossa realidade, achamos que o dever se assistir o irmão mais necessitado é do Governo, das ONGs, ou mesmo do departamento de assistência social da Igreja (se é que temos um), afinal, não é para isso que doamos os nossos dízimos e ofertas para a Casa do Senhor? Mas, veja bem, nós verdermos as nossas propriedades e bens, e repartirmos com todos? Isso é uma novidade para nós, criados sob a égide do capitalismo. Veja bem, não estou aqui defendendo nenhuma cor ou bandeira político-econômica. Estou apenas tentando evidenciar que o princípio da solidariedade patrimonial, que estava presente na comunidade cristã primitiva, nos dias atuais não passa de uma utopia.

Já tive o desprazer de ouvir pessoas que, utilizando-se do púlpito de suas igrejas, ao invés de pregarem a Palavra de Salvação aos perdidos ou uma Palavra de edificação à igreja, usa o precioso tempo do culto ao Senhor para explanar sobre sua própria vida, suas conquistas, suas qualidades, tendo quase sempre como pano de fundo a falaciosa teologia da prosperidade. Infelizmente, em uma dessas ocasiões, ouvi de um pregador, que também era empresário, a afirmação de que ele conseguia comprar, em média, cinco automóveis novos por ano. Não sei quanto ao leitor, mas a mim, aquilo chocou profundamente. Veja bem: não estou dizendo que isto seja errado, não estou dizendo que seja impossível Deus abençoar Seus servos com automóveis, desde que isso seja, em última análise, para a Sua glória, e não para a glória e deleites egoístas do indivíduo. De qualquer forma, não vi nenhuma necessidade de o referido “pregador” (se é que o podemos designar dessa forma) ter mencionado tal fato, digamos assim, tão narcisístico. Afinal de contas, qual é o ser humano que tem necessidade de ter cinco veículos, e de trocá-los anualmente?

Uma das coisas que me leva a refletir a respeito disso, é a Oração do Senhor, conhecida mundialmente como a “Oração do Pai-Nosso”, que nos foi ensinada pelo próprio Senhor Jesus, e na qual o Meste afirma categoricamente: “Portanto, vós orareis assim” (Mateus 6:9). Vejo nestas palavras de Jesus, algo que vai além de simples recomendação ou conselho, mas sim um mandamento, mesmo porque Ele o faz em resposta a uma solicitação da multidão (Lucas 11:1). Não estou afirmando que o Cristão deve sempre recitar a oração-modelo a cada momento devocional seu, mas sim que devemos usar essa oração como uma espécie de “norte”, para os nossos momentos de diálogo com o Senhor, quer individualmente, quer coletivamente. Significa que, se uma oração que fazemos ao Senhor, não contiver os mesmos elementos da Oração do Pai-Nosso, ou não os conviver nas mesmas proporções, algo está errado de nossa parte, e creio que é isso que o Senhor Jesus estava nos ensinando.

Não pretendo aqui fazer um estudo completo e exasutivo sobre a Oração do Senhor, porém, gostaria de me ater ao quesito Petição, que, sem dúvida, está presente na oração-modelo. Podemos designar petição como o ato da parte daquele que ora ao Senhor de pedir-lhe, solicitar-lhe, suplicar-lhe algo que lhe seja necessário para a subsistência material ou espiritual. Assim, temos as seguintes frases petitórias na Oração do Pai-Nosso:

(1) Venha o Teu reino, seja feita a Tua vontade assim na Terra como no Céu;

(2) O pão nosso de cada dia nos dai hoje;

(3) Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores;

(4) Não nos deixes cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

Observemos que, dessas quatro petições, três delas são de cunho espiritual, e apenas uma delas (o que talvez represente, em termos estatísticos, menos de 15% do total) tem como plataforma a necessidade material daquele que ora: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”, e mesmo assim, este apenas contempla a necessidade mais básica do ser humano, que é o alimento. O próprio Senhor nos admoesta que:

Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?” (Mateus 6:25)

Quanta discrepância vejo hoje em dia nas orações proferidas em nossas igrejas, onde a necessidade material, sem dúvida, ocupa lugar de destaque nas petições que os crentes costumam fazer ao Senhor. E veja bem, não que seja errado pedir, a petição é uma parte normal e importante da oração, claro. Porém, o papel que tem sido dado a ela, em detrimento das demais, tem sido no mínimo preocupante. Necessidades espirituais tem sido esquecidas em muitas orações, quando elas deveriam ter um papel preponderante, sem nos esquecer logicamente das ações de graças, do louvor, do reconhecimento e confissão dos pecados em sincero arrependimento, etc., que são, sem dúvida, parte da vida de oração normal de qualquer cristão, e que, sem elas, podemos dizer que NÃO há oração! Na verdade, infelizmente, hoje em dia podemos afirmar que muitos cristãos (e muitas igrejas) não oram, não obstante terem seus momentos de dirigirem palavras à divindade. E isso ocorre simplesmente porque, nessas orações, apenas há petições, e, na maioria das vezes, pedidos de ordem material, e não espiritual. Esta é a razão pela qual muitas dessas orações não são ouvidas: “Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.” (Tiago 4:3) Enquanto não houver um sentido maior de solidariedade e desejo de estender os benefícios que temos recebido do Senhor ao nosso próximo, não obteremos resposta aos nossos pedidos, pelo menos não da mão do Senhor.

Não obstante tudo que dizemos até aqui, temos que reconhecer que a própria Palavra nos ensina a pedirmos ao Senhor tudo aquilo que sentimos que temos necessidade de pedir-lhe, sempre reconhecendo que o Senhor é soberano e sabedor do que é o melhor para os Seus filhos (e nesse ínterim, é que descobrimos que muitas vezes aquilo que pedimos ao Pai pode não ser o melhor para nós). Mesmo assim, é mister que lhe peçamos aquilo que necessitamos, sendo subimissos à Sua perfeita e agradável vontade (Romanos 12:2), lembrando ainda que a resposta às nossas orações petitórias podem ser três: (1) Sim; (2) Não; ou (3) Espere. Na nossa cultura moderna, não temos aprendido o valor da espera, mas para uma vida cristã normal e saudável, precisamos exercitar esta virtude!

“Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças.” (Filipenses 4:6)

Portanto, que possamos refletir sobre o ensinamento do Senhor Jesus ao nos deixar esta magna oração, que ao mesmo tempo é tão singela, fazendo com que nós aprendamos a moldar nossas orações neste padrão deixado pelo Messias. Temos que reconehcer que nossas orações, especialmente aquelas proferidas no culto público, precisam acima de tudo glorificar ao Senhor em todos os aspectos, tanto quanto ao seu teor devocional quanto ao seu rigor escriturístico. Não devemos ultrapassar o que está escrito (1 Coríntios 4:6), e creio que, certamente, este princípio vale também para as nossas orações. Que este possa ser um tempo de recomeço para muitos que tem sido despertados para uma vida de oração correta biblicamente, mais busca de santidade pessoal em meio às tentãções, e de zelo na busca dos dons espirituais e ministeriais necessários à Igreja dos nossos dias.