domingo, 10 de março de 2013

A Oração Do Senhor Como Nosso Pão Diário

André de Araújo Neves

Tenho passado os últimos dias pensando a respeito do quão paradoxalmente o pensamento cristão hodierno parece não estar alinhado com os ideias do cristianismo primitivo. Podemos ver claramente algumas passagens do Novo Testamento que, ao olhar do cristão moderno, soam até mesmo “exóticas”, por causa não apenas da distância entre o que está ali retratado e do “mundo” que vivemos hoje, mas principalmente porque nos parecem completamente impraticáveis, e até mesmo “erradas”, se partirmos dos pressupostos de que a igreja hodierna é mais evoluída, ou que a nossa cultura hoje é mais privilegiada em termos de conhecimento ou no aspecto patrimonial. Na verdade, soa-nos estranho passagens como Atos 2: 44-47:

E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. (…)”

Ora, por que eu digo que tal coisa nos soa de modo exótico? Porque para a nossa realidade, achamos que o dever se assistir o irmão mais necessitado é do Governo, das ONGs, ou mesmo do departamento de assistência social da Igreja (se é que temos um), afinal, não é para isso que doamos os nossos dízimos e ofertas para a Casa do Senhor? Mas, veja bem, nós verdermos as nossas propriedades e bens, e repartirmos com todos? Isso é uma novidade para nós, criados sob a égide do capitalismo. Veja bem, não estou aqui defendendo nenhuma cor ou bandeira político-econômica. Estou apenas tentando evidenciar que o princípio da solidariedade patrimonial, que estava presente na comunidade cristã primitiva, nos dias atuais não passa de uma utopia.

Já tive o desprazer de ouvir pessoas que, utilizando-se do púlpito de suas igrejas, ao invés de pregarem a Palavra de Salvação aos perdidos ou uma Palavra de edificação à igreja, usa o precioso tempo do culto ao Senhor para explanar sobre sua própria vida, suas conquistas, suas qualidades, tendo quase sempre como pano de fundo a falaciosa teologia da prosperidade. Infelizmente, em uma dessas ocasiões, ouvi de um pregador, que também era empresário, a afirmação de que ele conseguia comprar, em média, cinco automóveis novos por ano. Não sei quanto ao leitor, mas a mim, aquilo chocou profundamente. Veja bem: não estou dizendo que isto seja errado, não estou dizendo que seja impossível Deus abençoar Seus servos com automóveis, desde que isso seja, em última análise, para a Sua glória, e não para a glória e deleites egoístas do indivíduo. De qualquer forma, não vi nenhuma necessidade de o referido “pregador” (se é que o podemos designar dessa forma) ter mencionado tal fato, digamos assim, tão narcisístico. Afinal de contas, qual é o ser humano que tem necessidade de ter cinco veículos, e de trocá-los anualmente?

Uma das coisas que me leva a refletir a respeito disso, é a Oração do Senhor, conhecida mundialmente como a “Oração do Pai-Nosso”, que nos foi ensinada pelo próprio Senhor Jesus, e na qual o Meste afirma categoricamente: “Portanto, vós orareis assim” (Mateus 6:9). Vejo nestas palavras de Jesus, algo que vai além de simples recomendação ou conselho, mas sim um mandamento, mesmo porque Ele o faz em resposta a uma solicitação da multidão (Lucas 11:1). Não estou afirmando que o Cristão deve sempre recitar a oração-modelo a cada momento devocional seu, mas sim que devemos usar essa oração como uma espécie de “norte”, para os nossos momentos de diálogo com o Senhor, quer individualmente, quer coletivamente. Significa que, se uma oração que fazemos ao Senhor, não contiver os mesmos elementos da Oração do Pai-Nosso, ou não os conviver nas mesmas proporções, algo está errado de nossa parte, e creio que é isso que o Senhor Jesus estava nos ensinando.

Não pretendo aqui fazer um estudo completo e exasutivo sobre a Oração do Senhor, porém, gostaria de me ater ao quesito Petição, que, sem dúvida, está presente na oração-modelo. Podemos designar petição como o ato da parte daquele que ora ao Senhor de pedir-lhe, solicitar-lhe, suplicar-lhe algo que lhe seja necessário para a subsistência material ou espiritual. Assim, temos as seguintes frases petitórias na Oração do Pai-Nosso:

(1) Venha o Teu reino, seja feita a Tua vontade assim na Terra como no Céu;

(2) O pão nosso de cada dia nos dai hoje;

(3) Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores;

(4) Não nos deixes cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

Observemos que, dessas quatro petições, três delas são de cunho espiritual, e apenas uma delas (o que talvez represente, em termos estatísticos, menos de 15% do total) tem como plataforma a necessidade material daquele que ora: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”, e mesmo assim, este apenas contempla a necessidade mais básica do ser humano, que é o alimento. O próprio Senhor nos admoesta que:

Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?” (Mateus 6:25)

Quanta discrepância vejo hoje em dia nas orações proferidas em nossas igrejas, onde a necessidade material, sem dúvida, ocupa lugar de destaque nas petições que os crentes costumam fazer ao Senhor. E veja bem, não que seja errado pedir, a petição é uma parte normal e importante da oração, claro. Porém, o papel que tem sido dado a ela, em detrimento das demais, tem sido no mínimo preocupante. Necessidades espirituais tem sido esquecidas em muitas orações, quando elas deveriam ter um papel preponderante, sem nos esquecer logicamente das ações de graças, do louvor, do reconhecimento e confissão dos pecados em sincero arrependimento, etc., que são, sem dúvida, parte da vida de oração normal de qualquer cristão, e que, sem elas, podemos dizer que NÃO há oração! Na verdade, infelizmente, hoje em dia podemos afirmar que muitos cristãos (e muitas igrejas) não oram, não obstante terem seus momentos de dirigirem palavras à divindade. E isso ocorre simplesmente porque, nessas orações, apenas há petições, e, na maioria das vezes, pedidos de ordem material, e não espiritual. Esta é a razão pela qual muitas dessas orações não são ouvidas: “Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.” (Tiago 4:3) Enquanto não houver um sentido maior de solidariedade e desejo de estender os benefícios que temos recebido do Senhor ao nosso próximo, não obteremos resposta aos nossos pedidos, pelo menos não da mão do Senhor.

Não obstante tudo que dizemos até aqui, temos que reconhecer que a própria Palavra nos ensina a pedirmos ao Senhor tudo aquilo que sentimos que temos necessidade de pedir-lhe, sempre reconhecendo que o Senhor é soberano e sabedor do que é o melhor para os Seus filhos (e nesse ínterim, é que descobrimos que muitas vezes aquilo que pedimos ao Pai pode não ser o melhor para nós). Mesmo assim, é mister que lhe peçamos aquilo que necessitamos, sendo subimissos à Sua perfeita e agradável vontade (Romanos 12:2), lembrando ainda que a resposta às nossas orações petitórias podem ser três: (1) Sim; (2) Não; ou (3) Espere. Na nossa cultura moderna, não temos aprendido o valor da espera, mas para uma vida cristã normal e saudável, precisamos exercitar esta virtude!

“Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças.” (Filipenses 4:6)

Portanto, que possamos refletir sobre o ensinamento do Senhor Jesus ao nos deixar esta magna oração, que ao mesmo tempo é tão singela, fazendo com que nós aprendamos a moldar nossas orações neste padrão deixado pelo Messias. Temos que reconehcer que nossas orações, especialmente aquelas proferidas no culto público, precisam acima de tudo glorificar ao Senhor em todos os aspectos, tanto quanto ao seu teor devocional quanto ao seu rigor escriturístico. Não devemos ultrapassar o que está escrito (1 Coríntios 4:6), e creio que, certamente, este princípio vale também para as nossas orações. Que este possa ser um tempo de recomeço para muitos que tem sido despertados para uma vida de oração correta biblicamente, mais busca de santidade pessoal em meio às tentãções, e de zelo na busca dos dons espirituais e ministeriais necessários à Igreja dos nossos dias.

2 comentários:

  1. Muito bom, amigo!

    Deus continue lhe dando sabedoria e discernimento acerca do Reino e do povo deste Reino.

    Mantenha-se assim, pois breve o Noivo virá para tirar a sua Noiva deste mundo que jaz no maligno.

    nAquele que sonda a todos,
    Paz do Senhor!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pelo comentário, querido amigo manauara Marcio Cruz! Que Deus em Cristo continue abençoando você e sua família! Graça e paz!

      Excluir