domingo, 1 de setembro de 2013

O Tesouro do Cristão e a Música Cristã

André de Araújo Neves

Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (Mat 6:19-21)

cofre-del-tesoroTalvez este seja um dos textos mais conhecidos do Novo Testamento. Certamente, poucos cristãos o desconhecem, e mesmo alguns simpatizantes do evangelho vez ou outra fazem referência a ele; entretanto, é notório que o mandamento nele contido tem sido frequentemente mal compreendido e não praticado. Como podemos como Cristãos perceber se de fato compreendemos a mensagem do Salvador nessas sucintas palavras? Duvido que o meigo Nazareno poderia ter sido mais claro, no entanto, nós titubeamos para colocar Seu desejo em prática nas nossas vidas. Uma das áreas da vida cristã – e certamente não a única – que temos falhado em cumprir a prescrição bíblica contida neste texto áureo é a da Música, como tentarei explicar mais adiante. Por hora, quero que atentemos à primeira frase: “Não ajunteis tesouro na terra”, que só pra início de conversa, é um versículo claramente apologético contra a teologia da prosperidade, que é a ideia de que Deus quer que todos os Seus filhos, indistintamente, sejam ricos materialmente nessa vida, sendo que a eventual pobreza na vida do Cristão só pode ser resultado ou de sua falta de fé, ou de alguma maldição ainda não quebrada, ou, ainda, de algum pecado escondido. Ora, esta ideia não passa pelo crivo bíblico mais simples, e grandes apologistas cristãos se esforçam para defender a verdade bíblica contra essa doutrina de demônios.

John Piper, sem hesitar, afirma que o evangelho da prosperidade “é um outro evangelho, e basta ir à Bíblia e ver o que Paulo fala sobre aqueles que querem ser ricos (I Tim 6:9,10); as pessoas são amaldiçoadas pelas riquezas, os que desejam ser ricos caem em muitas tentações e traspassam a si mesmos com muitas dores, mas os pregadores da prosperidade dizem: ‘Sim, Deus realmente quer que vocês sejam ricos, seguir Jesus é o caminho para as riquezas! Riquezas são o sinal da bênção de Deus’, estes estão em mútua contradição e isto é mortal. ” Vejam o vídeo na íntegra abaixo:

John Piper - Por que eu abomino o evangelho da prosperidade?

Bem, dando uma olhada no cenário musical cristão dos dias atuais, percebemos uma forte tendência na entronização do homem e de seus desejos, em detrimento da vontade revelada de Deus e de Sua glória. Em muitos cânticos, aliás, a glorificação de Deus é apenas o resultado da glorificação humana, como no famoso hit gospel “Sabor de Mel”, que entre outras incongruências teológicas, declara: “Quem te viu passar na prova e não te ajudou, quando ver você na bênção vai se arrepender, vai estar entre a plateia e você no palco!” Ora, será que isto não seria uma apologia à vingança pessoal, ou, na pior das hipóteses, um contentamento com o insucesso alheio? Vejamos o que a Bíblia nos ensina: “Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; Eu retribuirei’, diz o Senhor.” (Rom 12:19) Ou, ainda: “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.” (Mat 5:39).

Outro exemplo de canção antropocêntrica entoada em nossos dias é “Eu vou viver uma virada”, de um conhecido grupo de louvor carioca, e cujos versos rezam nos seguintes termos: “Onde era tristeza se verá a dupla honra me ornar. Com boas novas proclamar-lhe uma nova história celebrar! É chegada a minha hora, meu silêncio já acabou! Ouça o som da minha grande festa!” Acrescenta-se o fato de que esta canção é bem animada, que faz com que muitos de seus ouvintes deixem de exercer um completo discernimento a respeito da mensagem que ela transmite em virtude de seu frenético ritmo dançante. Ocorre que estão dançando não em virtude de um real desejo de louvar o Senhor pelo simples fato de Ele ser digno de ser louvado, mas sim por causa desta tal “dupla honra”. Aliás, essa expressão vétero-testamentária tem sido muito mal compreendida pela Igreja brasileira, que tem transformado esta promessa divina circunstancial para o povo hebreu (Isa 61:7) em promessa universal e onitemporal para a Igreja, e, pior que isso, confundidas com honrarias e glórias humanas e efêmeras! A respeito dessa música, o pastor Renato Vargens comenta: “Em que lugar dessa letra Cristo está sendo glorificado? Em nenhum momento dessa canção nosso Senhor está sendo reverenciado! Na verdade, a canção está focada nas bênçãos de Deus e na necessidade daquele que canta ser honrado pelo Criador. Nesse tipo de mensagem, Deus é nada mais, nada menos do que um outorgador de bênçãos a todos aqueles que invocam Seu nome”.

Lutero, o grande reformador do século XVI, declarou: “Aquilo, pois, a que prendes o coração e te confias, isso, digo, é propriamente o teu Deus”. Portanto, creio que há uma necessidade urgente de revermos grande parte dos repertórios musicais que estão sendo utilizados nos cultos nas nossas igrejas, visando identificarmos canções com letras que depõem contra a ortodoxia bíblica, especialmente no campo da glorificação do ser humano em detrimento da glória de Deus. Precisamos nos lembrar sempre de que Ele é Deus e merece toda a nossa adoração, independemente das circunstâncias que venham se abater sobre nós. O Apóstolo Paulo, falando acerca da nossa Salvação e da mensagem que pregamos, a saber, o Evangelho bendito e eterno, declara: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós.” (2 Cor 4:7) Precisamos entender, ainda, que o nosso tesouro nessa vida é o próprio Deus e o Seu santo Evangelho, e que o nosso coração precisa estar voltado a Ele! E, sendo assim, as nossas canções que são entoadas em nosso culto a Deus, precisam refletir essa teologia! A Glória de Deus é por causa de quem Ele é, do que Ele fez por nós e por Suas preciosas promessas!

Soli Deo Gloria.


*Texto publicado também no Jornal Há Esperança 16ª Edição (página 14), de Montes Claros-MG, mantido pela Web Rabio Há Esperança.

Um comentário:

  1. Amém, irmão. É isso que precisamos fazer.

    Conheci teu blog através dos teus comentários no blog do Maurício Zágari. Deus lhe abençoe, espero estar a aprender de ti.
    Abraços.

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