domingo, 18 de agosto de 2013

Música e o Culto Cristão

André de Araújo Neves

Cantai ao SENHOR um cântico novo, cantai ao SENHOR toda a terra. Cantai ao Senhor, bendizei o seu nome; anunciai a sua salvação de dia em dia. Anunciai entre as nações a sua glória; entre todos os povos as suas maravilhas. Porque grande é o Senhor, e digno de louvor, mais temível do que todos os deuses.” (Sl 96:1-4)

clavedesolamb1Desde que nos tornamos novas criaturas em Cristo Jesus (II Co 5:17), geralmente aprendemos em nossos cursos de discipulado e/ou de preparação para o Batismo a importância de procurarmos nos fazer presentes nas programações de nossa igreja local, com especial proeminência aos cultos e reuniões de oração. Tal admoestação nos ensina desde cedo que devemos dar especial prioridade às atividades espirituais de nossas congregações, produzindo em nós o desejo e a motivação de prosseguirmos com tal procedimento em nosso cotidiano, levando-nos a buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e a Sua justiça, e, como nos ensina o Evangelho, todas as nossas reais necessidades seriam supridas (Mt 6:33).

Observamos que a Escritura nos admoesta quanto a importância de nos reunirmos como povo de Deus (Hb 10:25), a fim de que nos edificarmos mutuamente e de oferecermos ao Senhor um culto vivo, santo e racional (Rm 12:1,2). Neste ínterim, temos que reconhecer que a música se fez presente desde os primórdios do Cristianismo como um relevante elemento litúrgico, sendo que o Novo Testamento incentiva o seu uso, desde que sirva seus propósitos determinados por Deus para o santo culto. “Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração.” (Ef 5:19-20a)

Hoje, a música cristã ocupa uma visível proeminência, tendo em vista o crescente mercado de música gospel e sua expansão até mesmo nos meios de comunicação secular. Temos que ter um correto entendimento bíblico-teológico a fim de saber aproveitar esse momento na máxima divulgação do Evangelho, haja vista a ordenança de Jesus de pregarmos a tempo e fora de tempo (II Tm 4:2), porém com a prudência mais do que necessária para identificarmos e repelirmos eventuais heresias presentes nas músicas que cantamos em nossos cultos. Neste ínterim, costuma-se dizer que a música litúrgica (isto é, a música entoada no culto público ao Senhor), tem como função:

(1) Adoração e louvor: Quando cantamos, queremos expressar nossos sentimentos e emoções através da música, oferecendo ao Senhor a nossa alma e a nossa arte, e assim sendo, as canções que cantamos precisam conter como elementos essenciais declarações de reconhecimento do Senhorio de Cristo sobre a Igreja, exaltando a Sua Pessoa e a Sua obra nas nossas vidas, sobre a Sua criação, etc.

(2) Edificação, exortação e consolação: Note que aqui eu destaco a tripla função da profecia (1 Co 14:3), haja vista que em várias passagens das Escrituras, especialmente no Antigo Testamento, vemos que o ministério profético fazia-se acompanhar de músicos e cantores (1 Sm 10:5; 2 Re 3:15), embora isto não seja uma regra. Entretanto, vemos que vários cânticos na Bíblia faziam as vezes de trazer consigo essa atribuição, como no caso de Jesus com Seus discípulos, que logo após cearem a última Ceia, cantaram um hino (Mt 26:30), preparando os seus corações para o que aconteceria em seguida no monte das Oliveiras; e, ainda, o relato de Atos a respeito de Paulo e Silas encarcerados, entoando louvores a Deus (At 16:25); ou ainda podemos citar o exemplo do rei Davi quando trazia de volta à cidade a Arca do Senhor, tendo ordenado que se entoassem louvores a Deus em comemoração por tal glorioso momento em seu reinado (1 Cr 15:16).

(3) Didático-doutrinária: Temos uma tremenda facilidade de assimilar os conceitos teológicos que cantamos (bem mais do que aqueles que apenas ouvimos em um sermão ou estudo bíblico). Já foi dito por alguém que é possível conhecer a teologia de uma igreja local, isto é, no que ela crê e ensina, através das letras dos cânticos que esta igreja canta. Esse último aspecto é deveras preocupante, e talvez o mais ignorado em nossas muitas igrejas. Não é de hoje que percebemos que nos últimos anos a preocupação pelo conteúdo teológico nas letras das canções vem caindo, ou até mesmo desaparecendo, dando lugar à lógica de mercado que diz que, se algo é vendável, então merece ser produzido. Muitos cantores e compositores cristãos têm se perdido nessa prática, o que vem ocasionando às igrejas uma crise confessional e até mesmo bíblica. É o caso das canções que evocam temas estranhos às Escrituras, como a teologia da prosperidade e a falsa ideia de que o crente possui “direitos” inerentes à sua condição de servo de Deus, sendo, por conseguinte, exigíveis de Deus. Palavras como “restituição” e “decretar” estão muito presentes em algumas peças da nossa atual hinódia, sendo estranhas até mesmo à nossa identidade histórica evangelical e protestante. Martinho Lutero, por exemplo, em seu clássico hino “Castelo Forte”, declara em uma de suas estrofes: “Se temos de perder família, bens, poder; e, embora a vida vá, por nós Jesus está, e dar-nos-á Seu reino.” Nos atuais cânticos, a antibíblica ideia de que Deus tem que nos restituir o que perdemos está sempre presente, inclusive com expressões de “determinar” ou “declarar” (no sentido de exigir, decretar), por exemplos.

Portanto, entendemos que a música na igreja tem o seu mister e aqueles que trabalham neste labor precisam ser reconhecidos verdadeiramente como servos de Deus, comissionados para esta árdua tarefa, necessitando de constante acompanhamento pastoral, ensino e discipulado, a fim de evitar a inclusão no repertório de canções que não coadunem com a sã doutrina bíblica. Lembrando ainda que, cada igreja local e cada denominação possui uma identidade confessional, e os cânticos precisam de alguma maneira refletir isso, para transmitir verdades bíblicas importantes e consolidas os convertidos. Evitar desnecessárias repetições e uso de sílabas sem significado algum (ô-ô-ô, ah-ah-ah, yeh), que tomam tempo no culto e não edificam, tampouco transmitem mensagem alguma. Nos concentremos no que é bom e agradável. “Louvai ao Senhor, porque o Senhor é bom; cantai louvores ao Seu nome, porque é agradável.” (Sl 135:3) Deus seja louvado!


*Texto publicado também no Jornal Há Esperança 15ª Edição (páginas 13-14), de Montes Claros-MG, mantido pela Web Rabio Há Esperança.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A velha cruz e a nova cruz

A. W. Tozer1

Sem fazer-se anunciar e quase despercebida uma nova cruz introduziu-se nos círculos evangélicos dos tempos modernos. Ela se parece com a velha cruz, mas é diferente; as semelhanças são superficiais; as diferenças, fundamentais.

Uma nova filosofia brotou desta nova cruz com respeito à vida cristã, e desta nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica – um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Este novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior.

A velha cruz não fazia aliança com o mundo. Para a carne orgulhosa de Adão ela significava o fim da jornada, executando a sentença imposta pela lei do Sinai. A nova cruz não se opõe à raça humana; pelo contrário, é sua amiga íntima e, se compreendermos bem, considera-a uma fonte de divertimento e gozo inocente. Ela deixa Adão viver sem qualquer interferência. Sua motivação na vida não se modifica; ela continua vivendo para seu próprio prazer, só que agora se deleita em entoar coros e a assistir filmes religiosos em lugar de cantar canções obcenas e tomar bebidas fortes. A ênfase continua sendo o prazer, embora a diversão se situe agora num plano moral mais elevado, caso não o seja intelectualmente.

A nova cruz encoraja uma abordagem evangelística nova e por completo diferente. O evangelista não exige a renúncia da velha vida antes que a nova possa ser recebida. Ele não prega contrastes mas semelhanças. Busca a chave para o interesse do público, mostranto que o cristianismo não faz exigências desagradáveis; mas, pelo contário, oferece a mesma coisa que o mundo, somente num plano superior. O que quer que o mundo pecador esteja idolizando no momento é mostrado como sendo exatamente aquilo que o evangelho oferece, sendo que o produto religioso é melhor.

lote-103_pcvA nova cruz não mata o pecador, mas dá-lhe nova direção. Ela o faz engrenar em um modo de vida mais limpo e agradável, resguardando o seu respeito próprio. Para o arrogante ela diz: "Venha e mostre-se arrogante a favor de Cristo"; e declara ao egoísta: "Venha e vanglorie-se no Senhor". Para o que busca emoções, chama: "Venha e goze da emoção da fraternidade cristã". A mensagem de Cristo é manipulada na direção da moda corrente a fim de torná-la aceitável ao público.

A filosofia por trás disso pode ser sincera, mas na sua sinceridade não impede qe seja falsa. É falsa por ser cega, interpretando erradamente todo o significado da cruz.

A velha cruz é um símbolo da morte. Ela representa o fim repentino e violento de um ser humano. O homem, na época romana, que tomou a sua cruz e seguiu pela estrada já se despedira de seus amigos. Ele não mais voltaria. estava indo para seu fim. A cruz não fazia acordos, não modificava nem poupava nada; ela acabava completamente com o homem, de uma vez por todas. Não tentava manter bons termos com sua vítima. Golpeava-a cruel e duramente e quando terminava seu trabalho o homem já não existia.

A raça de Adão está sob sentença de morte. Não existe comutação de pena nem fuga. Deus não pode aprovar qualquer dos frutos do pecado, por mais inocentes ou belos que pareçam aos olhos humanos. Deus resgata o indivíduo, liquidando-o e depois ressucitando-o em novidade de vida.

O evangelismo que traça paralelos amigáveis entre os caminhos de Deus e os do homem é falso em relação à bíblia e cruel para a alma de seus ouvintes. A fé manifestada por Cristo não tem paralelo humano, ela divide o mundo. Ao nos aproximarmos de Cristo não elevamos nossa vida a um plano mais alto; mas a deixamos na cruz. A semente de trigo deve cair no solo e morrer.

Nós, os que pregamos o evangelho, não devemos julgar-nos agentes ou relações públicas enviados para estabelecer boa vontade entre Cristo e o mundo. Não devemos imaginar que fomos comissionados para tornar Cristo aceitável aos homens de negócio, à imprensa, ao mundo dos esportes ou à educação moderna. Não somos diplomatas mas profetas, e nossa mensagem não é um acordo mas um ultimato.

Deus oferece vida, embora não se trate de um aperfeiçoamento da velha vida. A vida por Ele oferecida é um resultado da morte. Ela permanece sempre do outro lado da cruz. Quem quiser possuí-la deve passar pelo castigo. É preciso que repudie a si mesmo e concorde com a justa sentença de Deus contra ele.

O que isto significa para o indivíduo, o homem condenado quer encontrar vida em Cristo Jesus? Como esta teologia pode ser traduzida em termos de vida? É muito simples, ele deve arrepender-se e crer. Deve esquecer-se de seus pecados e depois esquecer-se de si mesmo. Ele não deve encobrir nada, defender nada, nem perdoar nada. Não deve procurar fazer acordos com Deus, mas inclinar a cabeça diante do golpe do desagrado severo de Deus e reconhecer que merece a morte.

Feito isto, ele deve contemplar com sincera confiança o salvador ressurreto e receber dEle vida, novo nascimento, purificação e poder. A cruz que terminou a vida terrena de Jesus põe agora um fim no pecador; e o poder que levantou Cristo dentre os mortos agora o levanta para uma nova vida com Cristo.

Para quem quer que deseje fazer objeções a este conceito ou considerá-lo apenas como um aspecto estreito e particular da verdade, quero afirmar que Deus colocou o seu selo de aprovação sobre esta mensagem desde os dias de Paulo até hoje. Quer declarado ou não nessas exatas palavras, este foi o conteúdo de toda pregação que trouxe vida e poder ao mundo através dos séculos. Os místicos, os reformadores, os revivalistas, colocaram aí a sua ênfase, e sinais, prodígios e poderosas operações do Espírito Santo deram testemunho da operação divina.

Ousaremos nós, os herdeiros de tal legado de poder, manipular a verdade? Ousaremos nós com nossos lápis grossos apagar as linhas do desenho ou alterar o padrão que nos foi mostrado no Monte? Que Deus não permita! Vamos pregar a velha cruz e conhecermos o velho poder.

Fonte: O Melhor de A. W. Tozer, Editora Mundo Cristão, pg 151 a 153.

1A. W. Tozer (1897-1963) pastoreou igrejas da Aliança Cristã e Missionária por mais de 30 anos. Apesar de não ter freqüentado seminário, seu amplo conhecimento bíblico, o forte impacto de sua pregação e a prolífica criação literária (escreveu mais de 40 livros) renderam-lhe a concessão de dois doutorados honorários. Tozer é reputado entre os maiores pregadores de todos os tempos.