quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Da Importância do Debate Teológico


Quem diz que debater Teologia não é importante, geralmente diz isso porque não consegue enxergar nela nenhuma aplicação prática. Consideram a Teologia algo para saciar a sede de nossa curiosidade intelectual, algo que supostamente 'esfria o fogo' da verdadeira fé e distrai o foco de coisas mais importantes. O que eles esquecem é que, intrinsecamente, o estudo da Teologia cristã existe em função da ética e vida cristãs. Em outras palavras, a Teologia é uma ciência prática e precisa ser entendida dessa forma.

Nessa perspectiva, o debate histórico de calvinistas e arminianos ou a discussão em torno do neopentecostalismo (tomemos os exemplos mais populares) torna-se útil. Veja, leitor, não estou dizendo que esses debates são imprescindíveis à salvação (até porque não somos salvos por ter uma confissão de fé ortodoxa, mas pela graça, mediante a fé) ou que conhecer e se posicionar quanto a isso é essencial à vida cristã. Estou dizendo que esse tipo de debate é útil, por pelo menos duas razões, descritas a seguir.

Em primeiro lugar, esse debate é útil porque, como já foi dito e deverá ser melhor desenvolvido, a teologia é uma ciência prática. E é prática porque - de forma natural - gera em nós um tipo de espiritualidade, que gera um tipo de vivência. A posição calvinista gera um tipo de espiritualidade, que gera um tipo de vivência; da mesma forma que a posição arminiana gera um tipo de espiritualidade, gerando um tipo de vivência. Alguns amigos meus arminianos costumam dizer que "os calvinistas missionários ou evangelistas não parecem levar seu calvinismo tão a sério assim". Afinal de contas, se você entende que os eleitos vão ser irresistivelmente salvos, você pregando ou não; e que os não-eleitos vão ser incondicionalmente condenados, você pregando ou não: qual seria a real importância de você sair de sua zona de conforto, indo até um lugar terrivelmente distante a fim de pregar o Evangelho? Quem percebe isso é o pastor anglicano e teólogo arminiano John Wesley, em seu sermão intitulado "Graça Livre". O alvo de Wesley, nesse sermão, é criticar a teoria calvinista, com base na conclusão lógica de sua prática. 

Outro bom exemplo é o neopentecostalismo. Alguns pastores que seguem essa linha de pensamento creem que um bom cristão deve ser rico e saudável. Se ele não for rico e saudável, ele provavelmente está sob o jugo de um demônio. Ou é falta de fé em Deus. Que tipo de vida e ética cristã esse tipo de 'teo'logia vai gerar? Possivelmente uma missão comprometida com as coisas desse mundo, e não com as coisas eternas. Não é minha pretensão emitir juízo de valor sobre o calvinismo ou sobre o neopentecostalismo. Só fiz isso a fim de comprovar a minha tese de que um posicionamento doutrinário deve possuir uma conclusão prática, a fim de poder ser bem debatida e provocar a edificação mútua dos irmãos. Essa é uma das razões pelas quais o debate teológico é importante: porque, debatendo a teoria, poderemos aprimorar as nossas relações práticas com Deus e, claro, com o nosso próximo.

A segunda razão pela qual vemos que o debate teológico é importante é que Ele nos aproxima da revelação de Deus, a partir da pessoa de Jesus Cristo e das Sagradas Escrituras. Eu não ligava tanto para a leitura da Bíblia, até que descobri que havia gente usando a Bíblia como instrumento para enganar pessoas e levá-las a darem dinheiro para as suas igrejas. Ora, isso é diabólico e terrivelmente antibíblico. A partir daí, pela graça de Deus, formou-se em mim uma imensa sede em estudar o que a Bíblia diz sobre essas questões. Em minha humilde e ignorante opinião, insisto em dizer que essas bobajadas neopentecostais, como teologia da prosperidade, judaização do culto, confissão positiva etc., são as principais causas que tem levado os jovens de hoje aos Seminários e Faculdades de Teologia. E glória a Deus por isso. 

Como a Escritura nos diz: "...e até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós" (1 Coríntios 11:19). E mesmo com todos os pilantras e mercadores da fé proclamando um falso evangelho, a ordem é clara: 
"Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu. Porque desde criança você conhece as sagradas letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus." (2 Timóteo 3:14-15)
Com isso, concluo que o debate teológico é útil para a nossa edificação (apesar de não ser imprescindível à salvação ou essencial à prática cristã), porque, conforme vimos, a teologia deve ser encarada como uma ciência prática, aprimorando a nossa espiritualidade e vivência com Deus e o com o nosso próximo; bem como nos aproximando das verdades reveladas por Deus para nós, em sua Palavra e em Cristo Jesus, nosso Senhor, Redentor e Mestre.

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¹ Lucas Martins, por Lucas Martins: "Cristão batista, nordestino, escritor e leve ameaça aos mercantes da fé. Porque o que não tem preço não pode ser vendido." Publicou este texto em seu perfil social no Facebook. Publicado com a autorização do autor.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Por que será que você não vai à igreja?

Eu acredito que tem gente que não frequenta nenhuma igreja e tem um caráter muito melhor do que muita gente que está dentro da igreja.” (Sarah Sheeva)
Desde a entrevista da pastora (pastora?) Sarah Sheeva no programa De Frente Com Gabi, onde a mesma proferiu as palavras acima, vejo muita gente compartilhando essa frase nas redes sociais. Bem, e daí? Qual o problema disso?

Bem, a princípio nenhum, a frase está corretíssima. Trata-se, pois, de simples constatação, bastando para isso que as pessoas frequentem por algum tempo a igreja e conheçam de perto alguns de seus frequentadores (dos quais eu sou um), e, digo isso com total certeza, certamente acabarão tendo algum tipo de decepção ou frustração em relação a isso.

Sem entrar profundamente no mérito da questão, que os cristãos devem ser imitadores de Cristo em todas as áreas, espelhando o Seu caráter em suas atitudes cotidianas, isso é fato. Acontece que, nem sempre isso ocorre... Por quê? Porque a caminhada cristã é comparada à luz do amanhecer, que começa aos poucos até atingir a plenitude. A Escritura diz: “Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Provérbios 4.18). Acreditamos que a plenitude pode não ocorrer nesta vida terrena, sendo algo a ser alcançado apenas na eternidade. Isso não significa que não temos um ideal a atingir, e devemos sob o influxo da Graça divina nos esforçar diariamente a alcançar esse objetivo. Foi o que nos ensinou Jesus: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mateus 5:48).

Mas, voltando ao foco da frase, vejo dois problemas implícitos nessa frase. Não estou falando dentro do contexto em que ela foi proferida, mas em referência às inúmeras citações dela nas redes socais, que se dá, evidentemente, fora de contexto. Vejo, inclusive, cristãos assíduos na igreja citando-a, bem como ex-frequentadores de igreja e não-cristãos. Então, vejo que posso falar algo a respeito dela em diversos ângulos.

Por exemplo, a frase pode muito bem ser entendida como um desincentivo a ir à igreja regularmente. Os cristãos estão atentos às exortações bíblicas quanto ao dever de congregar (Hebreus 10:25). Quanto a isto, não merece qualquer discussão. Porém, pessoas de fora podem ouvir essa citação da Sarah Sheeva (ainda que não tenha sito essa a intenção dela ao proferi-la) como um desincentivo até mesmo a ir à igreja uma única vez, já que é comum a referência de algumas pessoas que não simpatizam com o cristianismo aos cristãos de uma maneira geral como pessoas hipócritas, legalistas, retrógradas moralmente, alienadas culturalmente, etc. Sobre os motivos mais comuns que as pessoas alegam para não irem à igreja, é que trata este vídeo (original, em inglês), intitulado “Por que será que você não vai à igreja?”. Alguns amigos e conhecidos meus fizeram uma versão deste vídeo em Português, vale a pena conferir!

Por outro lado, a aludida frase apresenta um falso paradoxo (ou falso dilema), a saber: pessoas que frequentam a igreja devem ser pessoas de bom caráter, e pessoas que não frequentam a igreja, não necessariamente. Oras, isto é um absurdo! Afinal de contas, o que é caráter? Caráter é, em essência, aquilo que você realmente é em relação às escolhas que você faz. Boas escolhas, bom caráter. Más escolhas, mau caráter. Ocorre que Deus tem dotado o ser humano com a capacidade de fazer tais escolhas. Ele nos aconselha: “Escolhe pois a vida, para que vivas” (Deuteronômio 30:19), porém não nos força a escolher o bem sempre. Essa escolha cabe a nós, bem como as suas consequências.

Outrossim, ter bom caráter é uma qualidade que todas (!) as pessoas devem ter, ou buscar ter. Essa obrigação não se torna maior pelo fato de você frequentar uma igreja, nem menor por não frequenta-la. É algo que faz parte da Ética geral da humanidade.

Por outro lado, a frase acima me traz ainda uma preocupação ainda maior. Ela sugere, ainda que sutilmente, que uma pessoa de bom caráter não precisa frequentar uma igreja, e mais sutilmente ainda, que ela não precisa de Cristo. Não precisa colocar a sua fé e confiança pessoal no sacrifício vicário de Cristo na cruz do Calvário, pois, afinal de contas, ela já é uma pessoa de 'bom caráter'. Como se isto, por si só, fosse suficiente para agradar a Deus. Ocorre que a Bíblia nos ensina: “Sem fé é impossível agradar a Deus” (Hebreus 11:6).

As Sagradas Letras nos ensinam que, aos olhos de Deus, “todas as nossas justiças como trapo da imundícia” (Isaías 64:6), e ainda, que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:23). Portanto, todos nós necessitamos de um Salvador, um Redentor, portanto, não somos salvos porque somos bonzinhos, na verdade todos nós mereceríamos o castigo eterno no inferno, se não fosse o sacrifício de Cristo na cruz em nosso favor. Portanto, ao Senhor pertence a nossa salvação (Jonas 2:9), e isto não vem de nós mesmos, é dom de Deus, para quem ninguém se glorie de suas próprias boas obras (Efésios 2:8), e isto se dá mediante a fé que temos depositado em Cristo.

Soli Deo Gloria.

(Originalmente publicado no Facebook.)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Uma ardente expectativa

O ser humano sempre esteve em busca de um sentido para a sua existência, e desde os primórdios da civilização empreende esforços para formular perguntas e investigar as possíveis respostas. A filosofia grega ofereceu pistas às grandes questões existenciais tais como: de onde viemos, quem somos e para onde iremos; porém tais pistas acabam por se mostrar insuficientes, tanto que a cada nova resposta que é ofertada, uma nova pergunta é formulada, num ciclo sem fim. Também a Ciência acaba por oferecer algumas respostas às grandes inquietações humanas, oferecendo explicações racionais a certos fenômenos antes entendidos apenas sob o manto do mistério. No entanto, nem a filosofia nem a Ciência, nem qualquer outra tentativa humana, tem-se revelado capaz de saciar de uma vez por todas a sede humana por conhecer-se a si mesmo e ao universo que o cerca.

O Cristianismo oferta ao homem não apenas as respostas existenciais como também aponta para a necessidade do ser humano buscar no Ser Supremo a sua própria redenção, uma vez que esta cosmovisão faz uma acusação ao homem quanto ao seu estado pecaminoso e depravado. Uma vez que essa acusação é feita, ao mesmo tempo a Cruz é evidenciada; e por isto o cristão encontra Sua paz interior ao recepcionar a mensagem do Salvador como a sua maior e mais importante proposta de vida. Os valores proclamados por Cristo passam a ser os seus valores. Evidentemente, tais mudanças não costumam ocorrer do dia para a noite, pois como preleciona o Apóstolo Paulo, o “velho” homem empreende uma guerra a todo momento contra o novo homem (Efésios 4:22).

Neste mister, entendemos que essa tensão entre a antiga e a nova natureza da qual o cristão é revestido no momento do seu novo nascimento (João 3:7), gera no âmago do seu ser uma ardente expectativa por sua plena e total redenção. O Senhor Jesus, no seu célebre Sermão da Montanha, nos ensinou: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” (Mateus 5:6). Essa justiça a qual o Mestre se refere, e pela qual nós devemos ter sede e fome, não é outra senão aquela do Reino de Deus, perfeita, cujo ápice de sua consumação é na Cruz do Calvário, no qual o Filho de Deus satisfaz plenamente a justiça divina. Devemos nós, cristãos, portando, ter sede por esta justiça divina, muito mais do que pela “justiça” humana, que inúmeras vezes se revela débil e ineficaz. Porque “a ardente expectação da criação espera a manifestação dos filhos de Deus” (Romanos 8:19).

A cosmovisão cristã apresenta uma maneira bíblica de enxergar a realidade que nos cerca, de tal forma que a interpretamos conforme a Revelação divina que nos foi ofertada em Cristo, a Palavra viva de Deus, e Sua verbalização nas Escrituras. Daí a necessidade de o cristão amoldar sua própria vida e existência ao prumo das Sagradas Letras, buscando evidenciar na sua pregação de vida os valores do Reino de Deus. Não há cristianismo autêntico sem a proclamação das virtudes do Evangelho, uma vez que somos chamados de “a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9).

Nesse sentido, a música cristã passa a ter um papel preponderante na proclamação das virtudes do Salvador. Precisamos cantar mais canções que O exaltem como o Supremo Criador e Redentor, deixando de lado os cânticos que foram introduzidos no nosso meio cuja temática não remete aos valores do Cristianismo bíblico. O cristão deve exercer o discernimento corretamente apurado pelo conhecimento bíblico-teológico de que dispõe através das obras de grandes servos de Deus do passado e do presente, bem como do próprio Espírito do Senhor que nele habita, a fim de examinar todas as coisas, reter o que é bom (I Tessalonicenses 5:21), e dessa maneira glorificar o Pai que está nos céus.

O cristão encontra a plena satisfação de sua sede de justiça nAquele que é o Justo Juiz, e em quem não há mudança e nem sombra de variação. O salmista Davi declara: “Ó Deus, Tu és o meu Deus, eu Te busco intensamente; a minha alma tem sede de Ti! Todo o meu ser anseia por Ti, numa terra seca, exausta e sem água” (Salmo 63:1). Embora tenhamos que empreender por todos os dias de nossas vidas terrenas a batalha contra a natureza pecaminosa que ainda nos prende a este mundo, a nossa sede é expressa pela Oração do Pai-Nosso que declara: “Venha o Teu Reino”. Que a nossa vida, que a nossa música, que a nossa pregação, que a nossa celebração comunitária, enfim, que toda a nossa vida eclesial venham a ser uma expressão dessa ardente expectativa. Que o Senhor da Igreja continue nos guiando às Suas águas tranquilas (Salmo 23:2), nos apascentando em Seus pastos verdejantes. E que, ao aprendermos a descansar nEle e em Suas promessas, possamos saciar completamente a nossa fome e sede de justiça.  

Soli Deo Gloria.

*Texto publicado também no Jornal Há Esperança 18ª Edição (página 14), de Montes Claros-MG, mantido pela Web Rabio Há Esperança.