quarta-feira, 5 de março de 2014

O mito do cristão não-ungido

André Neves

No meio cristão moderno é possível encontrar crentes que acreditam piamente que Deus selecionou algumas pessoas dentro da Igreja para exercerem um papel tão proeminente sobre os seus demais membros, que são por este motivo denominados “ungidos do Senhor”.

Valendo-se de uma expressão bíblica veterotestamentária, que possuía a conotação de uma pessoa escolhida por Deus para exercer uma função pública, civil ou religiosa, de autoridade – rei, sacerdote ou profeta –, estes modernos cristãos acreditam que é plausível que, assim como no Antigo Testamento, apenas algumas pessoas hoje possuam de fato a Unção divina. Estas pessoas podem ser pastores, profetas, cantores ou neoapóstolos. Não importa. Na opinião destes crentes, estas pessoas são ungidas num grau único, ou, na melhor das hipóteses, infinitamente superior aos demais membros do Corpo de Cristo. São, verdadeiramente, “cabeças”, e os demais fiéis, a “cauda”.

O primeiro problema deste pensamento é o da má compreensão da verdade bíblica das principais distinções entre a Antiga e a Nova Aliança. Recomenda-se a leitura e estudo aprofundados das Epístolas Paulinas aos Romanos, aos Gálatas e, especialmente, a Carta aos Hebreus. Notoriamente, é preciso destacar a doutrina bíblica do “sacerdócio universal dos crentes”, redescoberta por Martinho Lutero na Reforma Protestante. Esta doutrina ensina que todo cristão é um sacerdote diante do Altíssimo, tendo Cristo como o sumo Sacerdote (1 Pedro 2:9,10). São, portanto, todos os cristãos, ungidos para exercer este glorioso ministério, o ministério da reconciliação (2 Coríntios 5:18)!

ichthysNão existe cristão não-ungido! Todos os filhos de Deus possuem a unção do Santo (1 João 2:20), isto é, todos quantos creram e receberam a Jesus como Salvador, e em decorrência disto são cristãos nascidos de novo (João 3:6,7). Afirmar que um crente não possui a Unção é afirmar que este crente não é verdadeiramente um cristão renascido, e, portanto, salvo. Pense duas vezes antes de acusar alguém de não ter a Unção, pois é O SENHOR quem conhece os que são Seus (2 Timóteo 2:19).

“(…) Em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos.” (Atos 11:26)

A palavra “cristão”, etimologicamente, significa ungido! Da mesma forma que “Cristo” é a forma grega da palavra hebraica “Maschiach” (Messias), que quer dizer “o Ungido”, aquele a quem as profecias veterotestamentárias se referem e apontam como o escolhido de Javé para tornar possível a redenção da humanidade.

Mas, antes que você pense que, como você pode se considerar no mesmo nível de Unção que seu super-crente favorito, e que, por esta razão, “ninguém pode tocá-lo”, deixe-me dizer algo; ser cristão, isto é, ser ungido de Deus no contexto neotestamentário tem muito mais a ver com padecer sofrimentos por amor do Evangelho, à semelhança do que Cristo vivenciou em nosso favor:

Mas, se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus nesta parte.” (1 Pedro 4:16)

Outrossim, outra expressão que é extremamente mal compreendida nos nossos dias é a de Salmo 105:15, que diz: “Não toqueis nos Meus ungidos…”. Davi quando teve a vida de Saul em suas mãos, declara que tomou a decisão de poupar-lhe a vida exatamente por este motivo, porque não ousaria tocar no ungido do Senhor (isto é, em um rei em Israel). Oras, está bem claro que o “tocar no ungido” no sentido preconizado no Antigo Testamento tem a ver com assassinato, ou, na melhor das hipóteses, com infligir dor física grave naquele que Deus elegeu para um propósito naquela época, nada tendo a ver com emitir uma opinião ou expor um erro doutrinário de um líder cristão, em nossos dias, à luz da razão e da Palavra de Deus, o que é aliás, um dever do crente (João 7:24).

Os sentimentos humanos (emoções) não são o parâmetro adequado para medir ou verificar quem é ungido ou não, e muito menos aferir a qualidade da vida espiritual e devocional alheia, classificando dessa forma crentes "mais ungidos" que outros. Isto não é bíblico, e provém certamente do coração humano que é enganoso por natureza (Jeremias 17:9-10). As Escrituras afirmam que o Senhor conhece muito além das aparências, pois Ele olha diretamente para o coração (1 Samuel 16:7).

Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus.” (1 Pedro 4:10)

A medida da Unção de Deus para cada crente já foi derramada sobre ele no momento em que o Seu Espírito Santo passou a habitar nele (ou seja, no momento da conversão), e o que acontece depois disto é, no máximo, um renovo ou confirmação desta Unção já provida. Ah, só mais uma coisa: não existe a menor possibilidade de a Unção de uma pessoa ser transferida a outra! Isso é uma esquizitice sem tamanho! A Unção que Deus quer que você tenha Ele já te deu, e a Unção que a outra pessoa tem é porque Deus a deu! Não a cobice! Seja plenamente satisfeito com o que o Senhor já te presenteou! Amém?

(Originalmente publicado no Facebook, e adptado.)

Nenhum comentário:

Postar um comentário