sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A preparação do ministro de louvor

A preparação do músico cristão que labora na área do louvor congregacional na igreja local nos dias de hoje é de fundamental importância. Temos percebido que o meio musical nas igrejas tem sido saturadas por músicos e cantores em geral descomprometidos com a ética cristã, com os valores do Reino de Deus e com a sã doutrina. É por esta razão que temos amargado o surgimento de uma nova classe de cristãos, que são verdadeiros artistas, inclusive cobrando valores exorbitantes por suas apresentações em eventos gospel. Eles não se apresentam em determinadas localidades e/ou para um pequeno público, cobram altíssimos cachês, não se envergonham de participar de novelas globais e, infelizmente, chegam ao ponto de, “tendo aparência de piedade, mas negando-lhe o poder” (II Timóteo 3:5), escarnecerem publicamente dos ensinamentos de Cristo.

A situação de hoje é crítica, pois como sabemos, há uma cultura no meio evangélico de que não podemos julgar posturas ou ensinamentos, com discernimento bíblico, que muitos já confundem com o juízo temerário (pela aparência). Isso faz com que muitos destes artistas acabem disseminando heresias no meio da igreja, através de suas “pregações” e canções, e de igual forma sendo imitados por alguns ministros de louvor em suas congregações locais. Ao focar no ministério de alguma celebridade gospel, muitos músicos ou cantores cristãos esquecem de focar seu olhar em Cristo, aquele que é o Autor e Consumador de nossa fé (Hebreus 12:2).

Nestas breves palavras, queremos enfatizar que o ministério cristão é, antes de tudo, serviço, e não uma busca pessoal por fama ou sucesso. Na verdade, a vida cristã é o oposto disto, pois envolve renúncia ao “eu” e total submissão aos desígnios de Deus. Não devemos confundir êxito ou reconhecimento humanos como sinais de aprovação divina, antes precisamos examinar se o nosso labor ministerial exalta a Cristo e está, de fato, “anunciando as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9).

Para que este serviço seja realizado para a glória de Deus, é necessário que o ministro de louvor se prepare diariamente, seja tecnicamente, estudando seu instrumento (através de exercícios), seja espiritualmente, se alimentando da Palavra do Senhor. O salmista diz no Salmo 119:54: “Os Teus decretos são o tema de minha canção”. Oras, como é possível cantar ao Senhor este tipo de canção, sem conhecer profundamente as Escrituras?

Neste sentido, faz-se necessário que os que ministram louvor em suas congregações locais procurem passar um tempo de leitura diária da Palavra de Deus, pois o conhecimento da Palavra de Deus gerará uma adoração mais genuína e profunda. E o Senhor procura por verdadeiros adoradores, como nos lembram os autores do livro “Como melhorar o louvor de sua igreja”, Carlos Savedra e Moisés Santos:

Louvar a Deus é a mais absoluta expressão de amor a Ele, adorá-lo com profundidade e de todo o coração é a extrema consagração da nossa alma ante sua grandeza e soberania. Isto é adorá-lO em espírito e em verdade”.

Em consequência disto, creio que teremos músicos transformados pelo poder de Jesus Cristo e refletindo o caráter dele no meio desta geração perversa. A vida pessoal, profissional, familiar e ministerial do músico cristão precisam enfatizar os valores de Cristo e as atitudes que Ele espera dos Seus servos, independentemente de quanto tempo de conversão tem o indivíduo, qual o instrumento que ele toca, ou se ele canta apenas no backing vocal ou se dirige a congregação nos louvores a Deus. Toda a equipe de louvor precisa estar devidamente preparada e consagrada ao Senhor, e com este espírito de servos. Em seu livro “O que fazemos com estes músicos?”, o cantor e pastor mexicano Marcos Witt preleciona:

Deveríamos reconhecer, naqueles que se dedicam ao ministério da música e louvor, uma grande responsabilidade por suas atitudes, dentre as quais a compaixão ou misericórdia pelo povo. Por infelicidade, muitos músicos não são reconhecidos como homens e mulheres que se importam com os outros; ao contrário, são vistos como pessoas que pensam mais em si mesmos. É urgente que cada um de nós comece a ver nosso nível de entrega aos demais, e se descobrirmos que não temos o mesmo nível que teve Jesus, devemos pedir ao Senhor que nos encha com seu caráter misericordioso, compassivo e de entrega ao povo. Cada vez que tivermos um ‘ataque’ de egocentrismo deveria recordar que Jesus viveu para servir aos demais, e para dar sua vida em resgate de muitos”.

Portanto, que possamos a cada dia mais buscar a excelência no serviço que prestamos ao Senhor e à comunidade de fiéis na qual comungamos, cantando e salmodiando ao Senhor até que Ele venha! “Louvai ao SENHOR, porque é bom cantar louvores ao nosso Deus, porque é agradável; decoroso é o louvor.” (Salmo 147:1)

Soli Deo Gloria.


*Texto publicado também no Jornal Há Esperança 21ª Edição (página 13), de Montes Claros-MG, mantido pela Web Rabio Há Esperança.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Nota rápida sobre o que eu já aprendi sobre “soberania divina” e a “liberdade humana”.

Lucas Martins¹

bem_malConciliar a soberania divina e a liberdade humana ainda tem sido motivo de muita controvérsia em corredores de seminários, igrejas e outros grupos variados. Nesses círculos, surge a seguinte pergunta: se Deus é soberano sobre todas as coisas, isso significa que somos meras marionetes? Ou, se o homem é livre, capaz de tomar decisões livres, implica dizer que Deus não é soberano sobre todas as coisas? Alguns calvinistas que eu conheço alegam que a crença que enfatiza a liberdade humana é errônea, porque “reduz a glória de Deus”, “reduz a soberania de Deus no universo” e “traz uma visão antropocêntrica e não teocêntrica”. Os calvinistas costumam dizer que o calvinismo é a doutrina que “glorifica mais a Deus”, porque afirma a Sua soberania sobre todas as coisas. Por outro lado, outros não calvinistas presumem que essa ênfase na soberania divina (também chamado de “determinismo divino”) pode contrariar o caráter santo e bom de Deus. Ora, se Deus determina infalivelmente tudo o que acontece, será que até os atos e pensamentos malignos dos homens são efetuados pelo santo e bom Deus? Se sim, isso provavelmente compromete o caráter de Deus, “que não pode tentar ninguém e a ninguém tenta”. Se não, então como Ele determina tudo, e não o pecado?

Apesar das discussões calorosas, a intenção por trás de cada grupo é motivada por um forte zelo bíblico-doutrinário e uma vontade de agradar a Deus. Mesmo assim, a discordância prevalece e é necessário saber lidar com aqueles que pensam diferente de nós. Isso não quer dizer que não devemos ter uma opinião própria. Crer é também pensar e sustentar com firmeza aquilo em que se acredita. Todavia, muitos apologistas esquecem a mansidão, a humildade e o domínio próprio na hora de defender a razão da sua fé. De acordo com o Mestre, a melhor apologética – a saber, a melhor maneira de defender a fé e torná-la visível – é o exercício do amor uns pelos outros. Portanto, amemos. Assim, todos saberão que só amamos uns aos outros porque Ele nos amou primeiro.

Precisamos compreender que esse, como alguns outros, é um debate secundário, embora útil, ao exercício da fé cristã. Esta, por sua vez, transcende a imponência dos credos eloquentes e se traduz melhor em ações diárias que demonstrem os frutos do Espírito: amor, alegria, paz, benignidade, longanimidade, temperança, domínio próprio etc. É secundário porque pode fazer com que os discípulos percam o foco, vindo a pensar que o mero assentimento intelectual de proposições doutrinárias é a vontade de Deus para as suas vidas. A utilidade deste tipo de debate consiste não em fazer especulações sem fim, mas em quando essas especulações viram um guia prático da conduta moral do discípulo, aproximando-o da Palavra Viva.

Depois dessas ponderações, voltamos ao debate original. Como conciliar a soberania divina e a liberdade humana? Eu costumo dizer que essa liberdade é uma dádiva do próprio Deus. Sendo soberano sobre sua própria criação e livre para criar o que bem entendesse, Ele quis que cada ser humano possuísse tal natureza. Ou será que Deus não era livre para criar o que quisesse? A minha definição de livre-arbítrio é “a capacidade de fazer (ou não fazer) o contrário daquilo que estou mais disposto a fazer”. Por exemplo, Deus poderia não ter criado nada. A existência do Universo não é necessária para a existência de Deus. Ele é autossuficiente. A criação foi um ato de graça, para expandir o alcance do amor divino – até então trinitário – à criação. Ele poderia não ter criado, mas o fez. Ou seja, Deus estava predisposto a não criar nada, porque Ele é autossuficiente e o mundo não era necessário para Ele, mas mesmo assim Ele criou. Logo, o Criador de todas as coisas possui livre-arbítrio, isto é, a capacidade de fazer o contrário daquilo a que se está mais disposto a fazer. A. W. Tozer argumenta que, se Deus é livre, e Ele fez o homem à sua imagem e semelhança, segue-se que o homem também é livre. Em outras palavras, em um ato de soberania criativa, Deus dotou o homem de livre-arbítrio, isto é, a capacidade de fazer escolhas contrárias.

Alguns dizem que “a crença na liberdade humana reduz a glória de Deus”. Analisando bem essa frase, vemos que ela é um absurdo contra o próprio caráter de Deus, e compromete sua justiça, santidade, bondade e amor. Se o homem não é livre, implica que ele não pode ser responsável pelo seu próprio pecado. Responsabilidade requer liberdade. Se Deus causou o pecado de Adão, de forma que Adão não poderia ter feito outra coisa, como Ele responsabilizou Adão do pecado que, na verdade, ele não cometeu. Há justiça em atirar em alguém e culpar a bala? Nessa visão, Deus passa a ser o autor do pecado e do mal. E a maioria dos calvinistas não vê problema nenhum nisso. Vicent Cheung escreveu um livro defendendo que Deus é o autor do pecado e não há problema nisso. Outros irmãos dizem que Deus não determina o pecado, mas Ele o “permite”. Em outras palavras, seria possível uma intervenção divina para que o pecado não acontecesse, mas Deus o permitiu porque viu que seria bom que ele acontecesse. Todos os cristãos podem concordar com isso. Mas, quando os calvinistas são questionados quanto a isso, eles dizem que Deus permite o pecado “desejosamente”. O próprio teólogo avivalista Jonathan Edwards sustentava isso. Ou seja, Deus não permite “relutantemente”, mas “desejosamente”. A distinção é sutil, mas incrivelmente relevante ao debate. Se Deus permite desejosamente, significa que o pecado está dentro de sua vontade, tendo Ele mesmo o causado, de forma que o pecador não teve outra coisa a fazer senão pecar. Como dizer que Deus “permite desejosamente” inocenta Deus de ser o autor de mal? De nenhuma forma. São sinônimos. Permitir desejosamente o pecado é só um eufemismo para tentar aliviar a tensão existente. Não resolve o problema. A chance é dizer que Deus permite relutantemente. Se Deus permite relutantemente, implica dizer que o pecado está fora de sua vontade, tendo o homem pecado no exercício de sua liberdade e desobedecido a Deus. Mas dentro de Seu comando, em que Ele providencia perdão, redenção e salvação ao pecador.

O pecado de Adão foi uma transgressão à vontade de Deus, logo, é problemático e contraditório dizer que uma transgressão à vontade de Deus faz parte da vontade de Deus. Veja um exemplo. Um rei, conhecido por sua justiça, proíbe todos os súditos, sem exceção, de tomarem banho no riacho do vilarejo. Em seguida, ele faz com que um de seus súditos tome banho neste riacho, de forma que o súdito não pode fazer outra coisa, senão tomar o banho. Isto é, o rei compeliu o súdito a tomar banho no riacho. Em seguida, o rei pune o súdito, por ter tomado banho no riacho e assim, desobedecido ao seu decreto inicial. Esse seria um rei justo?

Outro problema reside no fato de que se Deus é realmente o autor de todos os pecados e males, de forma a causá-los infalivelmente (ou “permiti-los desejosamente”, que é a mesma coisa), Ele deixa de ser bom, amoroso, misericordioso, santo e puro. O amor não é um atributo divino. O amor é a Sua Essência. “Deus é amor”. “As suas misericórdias estão sobre todas as suas obras” e “são a causa de nós não sermos consumidos, se renovando toda a manhã”. Com Ele, “o mal não habita”. É exatamente por causa da pureza de Deus que “sem santificação ninguém verá a Deus”, e é exatamente por causa da sua bondade que “Deus não pode tentar a ninguém e a ninguém tenta”. Se Deus é o autor dos nossos pecados, como há justiça na punição dos humanos? A liberdade humana salvaguarda o caráter de Deus e isso, logicamente, resulta em mais glória pra Ele. Logo, concluo que a crença na liberdade humana não diminui a glória de Deus. Antes, ela aumenta o zelo pelo seu caráter santo, justo, bondoso, misericordioso e amoroso, não responsabilizando o Eterno pelos nossos pecados. A propósito, responsabilizar os outros pelos nossos pecados não é surpresa. Isso tem sido feito desde o Jardim do Éden.

L.M.

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¹ Lucas Martins, por Lucas Martins: "Cristão batista, nordestino, escritor e leve ameaça aos mercantes da fé. Porque o que não tem preço não pode ser vendido." Publicou este texto em seu perfil social no Facebook. Publicado com a autorização do autor.